O bilionário republicano e seu plano de política externa

Em sua maior parte, o discurso do pré-candidato republicano foi malandragem populista mascarada de estratégia

Fareed Zakaria* / The Washington Post, O Estado de S. Paulo

02 Maio 2016 | 21h20

Após o discurso “capital” de Donald Trump sobre política externa, o presidente da Comissão de Relações Exteriores do Senado, o republicano Bob Corker, declarou-se impressionado, exaltando “a abrangência, a visão” do pronunciamento. O Wall Street Journal considerou a fala do bilionário “séria”. Jacob Heilbrunn, do National Interest, achou o candidato “mais contido”. 

Sem dúvida, é impressionante que Trump tenha conseguido passar 40 minutos em frente às câmeras evitando a vulgaridade, contendo a intolerância e lendo de um teleprompter. O discurso foi, na verdade, de dar vergonha - uma intrincada coleção de slogans, na maioria vazios: “Precisamos tornar os EUA fortes de novo”; “Nossa meta é paz e prosperidade”. 

Não foram citadas as mais absurdas e inviáveis propostas de Trump - levantar um muro na fronteira entre EUA e México, impedir as pessoas de mandar o próprio dinheiro para parentes mexicanos, proibir a entrada de muçulmanos no país e taxar em 45% os produtos chineses. Nesse sentido, suponho que tenha sido um avanço. 

O mais impressionante no pronunciamento foram as repetidas contradições. “Vamos gastar o que for preciso para restabelecer nosso poder militar”, prometeu Trump, (embora os EUA já gastem mais que os sete países mais ricos seguintes juntos).

Então, quase sem tomar fôlego, falou em economizar centavos por causa do paralisante déficit nacional. Trump é contra intervenções humanitárias, mas deu a entender que deveríamos ter intervindo para ajudar cristãos preparados para lutar no Oriente Médio. 

O candidato advertiu que se os aliados mais próximos dos EUA não pagarem sua cota na defesa - queixa que Washington vem fazendo há pelo menos quatro décadas -, ele poderá cancelar as garantias americanas de segurança para esses países. “Não temos escolha”, afirmou. Em seguida, assegurou que os EUA seriam um aliado próximo e confiável. Prometeu ser “consistente” e ainda “imprevisível”. Mexeu com sua cabeça?

Em sua maior parte, o discurso foi malandragem populista mascarada de estratégia. Mas um ponto foi revelado. Donald Trump é jacksoniano. Em seu livro Special Providence, Walter Russell Mead explica que Andrew Jackson representa um estilo populista peculiar do pensamento americano bastante diferente das outras grandes tradições ideológicas do país. 

É anti-imigração e nativista, economicamente liberal e populista. Em política externa é amplamente isolacionista, mas, se e quando o país se engajar em atividades exteriores, torna-se militarista e unilateral. Em comércio, é protecionista e, no geral, suspeita profundamente de alianças internacionais e convenções globais. 

A tradição jacksoniana descreve bem a política externa de Trump - embora se deva acrescentar a isso o evidente componente narcisista em todos os aspectos da visão que o candidato tem do mundo. (“Sou o único - acreditem, conheço todos eles -, sou o único que sabe como controlá-los.”) 

Os jacksonianos se exasperam não com os inimigos dos EUA, mas com seus aliados. Eles querem ou abandonar o mundo ou dominá-lo. O que os martiriza - de fato, é intolerável para eles - é conviver e trabalhar com outros países para incrementar o progresso, administrar conflitos e resolver problemas. Infelizmente, isso parece ser o que acontece atualmente com a maior parte da política externa americana. 

Se quisermos derrotar o Estado Islâmico (EI), por exemplo, o caminho para tornar isso possível é complicado. Envolve uma série de ações militares que acabem com controle de território pelos extremistas, esforços políticos e econômicos para ajudar forças sunitas locais que possam dominar o terreno e prover governo efetivo para o povo, e intenso trabalho diplomático com países da região para garantir que apoiem o processo em vez de sabotá-lo. 

Mas Trump tem uma ideia melhor, um plano secreto para riscar o grupo do mapa e condená-lo ao esquecimento. No entanto, ele não vai dizer, nem ao EI nem a nós, o que é esse plano, ou quando será posto em prática. 

Em 1993, o senador intelectual Patrick Moynihan escreveu um ensaio intitulado Defining Deviancy Down (algo como “definindo desvios de comportamento”). No texto, Moynihan explica que a sociedade americana está submissamente aceitando como comportamento normal o que “por parâmetros anteriores seria considerado anormal”. 

Bem-vindo à campanha de Trump, da qual o discurso sobre política externa foi só o exemplo mais recente. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

* FAREED ZAKARIA É COLUNISTA 

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