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O bolivariano sírio

Quando Hugo Chávez tocava a Venezuela, jamais se esqueceu de amigos em apuros. Para os irmãos Castro, com a economia cubana em pane, enviava petróleo a preços companheiros. Quando os mercados financeiros deram as costas para Argentina, Chávez comprava seus bônus tóxicos. Fazia parte da ofensiva charmosa do líder bolivariano, sempre ansioso por acumular aliados e evangelizar a marca do seu socialismo do século 21. Se o caminho irritava Washington e os sócios da conspiração capitalista internacional, melhor.

Mac Margolis, O Estado de S.Paulo

15 de setembro de 2013 | 02h07

Chávez se foi, mas a diplomacia de bondades do chavismo sobrevive e se inova. Seu último item: o legionário para exportação. Ele não é exatamente um enviado de Miraflores, mas Abdel al-Zabayar, venezuelano de 49 anos com ascendência síria, leva o ardor bolivariano a sério. Abriu mão de seu emprego confortável em Caracas para lutar ao lado da tropa de Bashar Assad.

O apoio ao ditador sírio não é novo. Desde o início da guerra civil, Chávez fez questão de abraçar o tirano. A novidade é o perfil do enviado. Zabayar é um parlamentar venezuelano e integrante do partido governista, o PSUV.

No mês passado, ele viajou para a Síria, país de seus ancestrais, a princípio para visitar sua mãe doente. No entanto, sua missão foi mais ambiciosa. Presidente da Federação Árabe da Venezuela, o deputado logo solicitou à Assembleia Nacional uma licença indefinida. Logo, começou a cantar as virtudes do acossado regime de Assad.

Uma foto do deputado vestido de soldado se espalhou pela web. Encostado numa mureta, Zabayar aparece em uma passagem inóspita (na Síria, supõe-se), com um fuzil Kalashnikov apoiado no joelho e acompanhando por dois combatentes. A cabeça branca, a barriga avantajada e o sorriso franco sugerem mais a pose de um turista em excursão do que a de um militar calejado. Sua localização e seu papel no conflito não ficaram claros, mas a mídia venezuelana lhe atribui a tarefa de "vigilância", seja lá o que isso significa. Não importa, pois Zabayar chegou à peleja em boa hora para dar uma forcinha ao ditador.

Em sua conta no Twitter, com 15 mil seguidores, o venezuelano dispara contra os insurgentes "terroristas a serviço do imperialismo americano", repetindo o script combinado entre Moscou e Damasco sobre o ataque químico do dia 21. "Por que não mostram as provas?", desafiou, ignorando a fartura de testemunhos, vídeos e laudos clínicos que atestam o massacre por intoxicação química. Mesmo com todo ardor pela pátria ancestral, Zabayar é um ilustre desconhecido em sua terra natal.

Deputado de poucas luzes, nunca se destacou no Parlamento dominado por caciques chavistas. Tampouco tipifica a comunidade árabe venezuelana, de maioria pacata e conservadora, que representa 6% da população. A aventura no Oriente Médio pode mudar sua sorte. "Mando-lhe o respaldo de todos os venezuelanos por essa atitude digna", disse-lhe o presidente Nicolás Maduro. "Muito bem deputado, por ter seguido sua consciência."  É colunista do 'Estado', correspondente da revista 'Newsweek' e edita o site www.brazilinfocus.com

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