O 'bom', o 'mau' e o 'feio' do pacto nuclear firmado em Genebra

ANÁLISE: Max Fisher / W. POST

O Estado de S.Paulo

27 de novembro de 2013 | 02h05

Com o acordo de Genebra, é fácil perceber como os objetivos das grandes potências e do Irã, de um lado, e de países como Israel e as monarquias árabes, de outro, parecem inconciliáveis. A seguir, uma avaliação franca do "bom" do acordo, que é qualquer coisa que faça as partes avançarem para seus objetivos; do "mau", o que coloca em risco as metas do acordo; e do "feio", que são as complicações políticas e estratégicas.

O Bom. O Irã tem de eliminar a maior parte dos elementos prontos para armas de seu programa nuclear. Precisa "neutralizar" seu estoque de urânio enriquecido a 20%, que não é o teor suficiente para armas, mas é o suficiente para ser convertido rapidamente nele. Tem de desmantelar qualquer equipamento que possa ser usado para enriquecer urânio além de 5%.

O Irã concordou em congelar muitas, embora não todas, de suas atividades nucleares. Não pode enriquecer urânio acima de 5% nem construir instalações adicionais. Também terá de parar as obras no reator na usina de Arak. Outra boa notícia é que China e Rússia estão a bordo. O fato é significativo porque Pequim e Moscou estão mais estreitamente alinhados com Teerã. O fato de esses países estarem no mesmo barco torna mais fácil aplicar o acordo e monitorá-lo.

O Mau. Agora é mais provável que a coalizão das sanções se desfaça. Por exemplo, se China e Rússia discordarem dos EUA e da Europa sobre as próximas etapas - ou sobre se o Irã está cumprindo sua parte - a frente única pode desmoronar. Um acordo menos abrangente para o Irã interromper toda sua atividade de enriquecimento, assinado em 2004, ruiu em cerca de um ano. Depois disso, o programa nuclear do Irã cresceu de maneira considerável, incluindo o uso de atividades nucleares clandestinas.

O Feio. O acordo tem a duração de seis meses apenas. É provisório, o que é bom no sentido de que diminui os riscos caso desmorone, mas isso significa também que o processo de negociação deve começar quase imediatamente. O acordo abordou todas as questões-chave, mas, na verdade, ele não resolveu nada, já que expira daqui a meio ano.

O entendimento pode ser destruído em Washington ou em Teerã. Por exemplo, os EUA prometeram que não haveria novas sanções durante os seis meses; mesmo assim, o Congresso americano está tentando aprová-las. O presidente Barack Obama seguramente as vetaria, mas o Congresso poderia obter os votos necessários para derrubar o veto, extinguindo quase certamente as negociações. Os linhas-duras de Teerã podem radicalizar também. Grupos como a Guarda Revolucionária poderiam pressionar o líder supremo, aiatolá Ali Khamenei, a descumprir as promessas do Irã.

E, por último, o acerto de Genebra não aborda outras disputas com o Irã. Os EUA inevitavelmente enfrentarão um dilema diante de suas punições não somente contra o programa nuclear iraniano, mas também, entre outros motivos, em razão do patrocínio de Teerã ao terrorismo internacional. A certa altura, será que EUA e Irã não precisarão resolver essas questões para fazer um acordo funcionar? / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

É BLOGUEIRO DO JORNAL

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