O bombardeio do Palácio do Eliseu

Péssima repercussão da deportação de ciganos, espionagem de informante do 'Le Monde' e o escândalo do caixa 2 deixam o presidente Sarkozy em maus lençóis

Gilles Lapouge / gilles.lapouge@grupoestado.com.br, O Estado de S.Paulo

17 de setembro de 2010 | 00h00

Todas as manhãs, o presidente Nicolas Sarkozy deve acordar se perguntando: "Qual será a pancada que receberei hoje?" Esta semana, o bombardeio foi pesado. O presidente francês recebeu duas pancadas incríveis e devastadoras. A primeira foi a do jornal Le Monde. A segunda, mais perigosa, veio de fora, de Bruxelas, onde a comissária de Justiça da União Europeia, Viviane Reding, moveu um processo contra a França por violar a lei comunitária com a deportação de ciganos búlgaros e romenos.

Há algumas semanas, Sarkozy, depois de uma série de pesquisas de opinião decepcionantes, achou que poderia reconquistar a popularidade perseguindo os ciganos. Afinal, eles são odiados no mundo todo. São nômades, o que angustia os sedentários. Ao longo dos séculos, criou-se uma lenda: os ciganos são ladrões de galinhas, estupradores, gente desonesta. Ensinam os filhos a roubar e a prostituir-se.

O cigano é, portanto, um "bode expiatório" por excelência. Então, Sarkozy achou que, com a popularidade em queda livre, distrairia a opinião pública lançando sua polícia contra os pobres coitados. Nos primeiros dias, a coisa até funcionou. Mas, na segunda-feira, um jornal publicou uma circular do Ministro do Interior, datada de 24 de junho, ordenando aos comissários de polícia o desmantelamento dos "acampamentos dos ciganos".

A circular era absurda e ilegal. Ninguém tem o direito de perseguir uma etnia. "Vocês podem imaginar uma circular mencionando expressamente os judeus ou os árabes?", comentou, indignado, um jurista. O erro foi tão grande que, no dia seguinte, o próprio ministro divulgou um segundo comunicado anulando o primeiro - e sem citar os ciganos. Mais uma bobagem. Foi uma verdadeira confissão, uma maneira de reconhecer que a primeira circular era escandalosa e ilegítima. A Comissão Europeia, em Bruxelas, reagiu imediatamente. "Basta", esbravejou Viviane. "É uma vergonha."

A ira do jornal Le Monde foi igualmente violenta, mas está relacionada a mais uma desonestidade de Sarkozy. Um dos funcionários próximos ao presidente, o ministro do Trabalho, Eric Woerth, é suspeito de ter obtido financiamentos ilícitos para a campanha presidencial. A doadora é a bilionária francesa, Liliane Bettencourt, dona da indústria de cosméticos L"Oréal.

Em julho, Le Monde publicou documentos constrangedores para Woerth. Na segunda-feira, a espionagem francesa recebeu a ordem de descobrir a fonte do jornal. O informante, um funcionário de alto escalão do Ministério da Justiça, foi punido.

Escutas telefônicas e a intervenção de espiões para descobrir fontes de um jornalista são práticas proibidas por lei. Mas quem teria incumbido a espionagem de descobrir os informantes do Le Monde? Sarkozy nega que tenha feito o pedido.

Quem terá dado a ordem? Na terça-feira, a resposta. Frédéric Péchenard, diretor geral da Polícia Nacional, assumiu a responsabilidade. E quem é esse Péchenard? Um homem muito próximo a Sarkozy, um de seus "amigos de infância". / TRADUÇÃO ANNA CAPOVILLA

É CORRESPONDENTE EM PARIS

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