O ''bonapartismo'' do presidente

Nicolas Sarkozy é um "bonapartista", escreveu um dos mais brilhantes analistas políticos franceses, Alain Duhamel (recordemos que Bonaparte é o nome da família de Napoleão). Depois disso, muitos puseram-se a murmurar e a se perguntar. Mas a bem da verdade, a resposta é simples. Sim, Alain Duhamel tem razão. E tem razão por um motivo indiscutível: ninguém sabe direito o que é "bonapartismo". É um grande saco vazio no qual cada um coloca o que bem quiser.Desde o surgimento desse termo, no século 19, os franceses ofereceram pelo menos dez modelos de "bonapartismo". Procurando bem, sempre se pode encontrar uma variedade onde encaixar Sarkozy.Limitemo-nos aos dois tipos mais usuais. O primeiro se refere ao próprio Napoleão Bonaparte. Político experiente, militar genial, adepto de um governo forte e autoritário: "Um mosquito que voasse sem ordem sua era um inseto revoltoso", disse certa vez o escritor e intelectual François-René de Chateaubriand. Está claro que Sarkozy é um pouco mirrado para vestir semelhante roupagem. Em muitos aspectos, ambos não têm nada em comum. Os dois têm baixa estatura. E daí? Napoleão era um homem de altíssima cultura, enquanto Sarkozy é um deserto cultural. Napoleão foi um militar e chegou ao trono por um golpe, é fato, mas também por meio de sua campanha heroica na Itália. Ele surgiu dos bramidos da revolução. Mas seu gênio foi primeiro "trancar" a revolução antes de construir um novo Estado em muitos aspectos retrógrado (houve um retorno ao Império). Nesse sentido, a comparação seria quase ofensiva para Sarkozy. Examinemos então a segunda acepção da palavra "bonapartismo". Essa toma como modelo não Napoleão, mas seu sobrinho, que foi eleito presidente em 1848 e deu um golpe de Estado em 1851. Victor Hugo chamava-o de "Napoleão, o Pequeno". Mas Napoleão III não era tão nulo como o escritor dizia. E chegou a ter alguns méritos. Durante seu governo, a França conheceu uma formidável expansão industrial. É mais frequentemente nesse segundo sentido que se recorre à palavra "bonapartismo". Entende-se por isso um regime político forte, uma democracia plebiscitária, a concentração de poder e uma reverência pela "modernidade".Esses traços poderiam se aplicar a Sarkozy. Neles se encontram suas qualidades e seus defeitos: vontade de dispensar os intermediários (como os ministros) e de criar um vínculo direto com o povo, voluntarismo e abandono cego ao mercado (ao menos no início de seu mandato).Em comum, Napoleão III e Sarkozy têm também uma espantosa hiperatividade. Ambos têm duas ideias por hora. Napoleão III cultivou sua amizade com o grande capital (assim como Sarkozy se aproxima das fortunas francesas). Ambos são fascinados pelas aparência. Sarkozy adora relógios Rolex e iates suntuosos. Um jornal inglês da época destacou em Napoleão III "a cultura da ostentação e a submissão aos amigos ricos."Seria possível assinalar um outro traço comum aos dois chefes de Estado. Eles são autoritários, mas ao mesmo tempo, e contraditoriamente, são flexíveis. Eleito como o "arauto do liberalismo", desde as primeiras ondas da crise global, Sarkozy mudou completamente e assumiu a frente de uma cruzada mundial contra o capitalismo selvagem.Percebe-se, portanto, que Duhamel não estava errado ao assinalar o "bonapartismo" de Sarkozy. A fórmula de Duhamel é justa sob a condição de que o modelo de Sarkozy não seja o de Napoleão, o Grande, mas do sobrinho, Napoleão III. O que não é desonroso. Napoleão III não foi um mal dirigente. Sem grandeza, mas, às vezes, eficaz. Desejemos ao menos que Sarkozy não conheça o futuro de nenhum dos dois Bonapartes. O primeiro foi enviado pelos ingleses para morrer na ilha de Santa Helena. O segundo foi esmagado pelos exércitos prussianos de Bismarck. * Giles Lapouge é correspondente em Paris

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