Abdullah Dhiaa al-Deeen / Reuters
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O brado em Bagdá

Os ocupantes da Praça Tahrir pedem voz para o povo, eleições e a caça aos corruptos

Gilles Lapouge*, O Estado de S.Paulo

20 de novembro de 2019 | 06h00

“Queremos um país!” Hoje em dia, quando precisamos pensar em um lugar em revolta, o que não faltam são exemplos: do Líbano à França, da Bolívia a Hong Kong, em qualquer latitude e longitude, as ruas, estradas e praças se tornaram um teatro monótono da desventura contemporânea.

Nós nos acostumamos com essas imagens: jovens com o rosto oculto sob capacetes ou atrás de lenços e capuzes, armados com pedaços de pau, coquetéis molotov, facas e granadas, desafiam a ordem estabelecida e sonham com a revolução, isto é, com sociedades justas e transparentes, livres desses governos, empresários gananciosos e financistas que roem os corpos das pessoas até os ossos.

Não podemos ignorar todas essas convulsões. Elas se alastram pela terra como incêndios florestais que explodem e se apagam para ressurgir do outro lado da montanha. O Iraque é um dos focos da revolta. É preciso dizer que, embora sua história antiga tenha sido brilhante, os tempos modernos foram bem menos bem sucedidos. O país enfrentou uma guerra feroz com o Irã (1980-1988). Alguns anos depois, foi invadido por George Bush, que, aterrorizado pelos ataques da Al-Qaeda, de repente, teve uma ideia: por que não invadir o Iraque? Que iniciativa desastrosa!

Desde este erro formidável, o Iraque está sofrendo. Os infortúnios se acumulam. Dezesseis anos após o fim atroz de Saddam Hussein, sucederam-se duas guerras civis, dezenas de atentados, a inglória retirada das tropas americanas e, por fim, a instauração, com em parte da Síria, do Estado Islâmico.

Agora, os jovens se levantam. O preço é alto: o movimento de revolta começou em outubro e já fez 330 mortos. Mas nada pode conter a união da coragem com o desespero. Milhares de iraquianos estão invadindo as ruas de Bagdá e construindo uma espécie de zona “fora dos limites”, inteiramente nas mãos dos amotinados, reunindo as mais diversas pessoas: estudantes, é claro, mas também professores, farmacêuticos, escritores, advogados e pintores.

Este pedaço de Iraque livre ocupa a Praça Tahrir. Aí se veem centenas de barracas com serviços de todos os tipos e uma floresta de bandeiras. Os advogados instalaram um escritório para lidar com as queixas de jovens feridos pela repressão. Um grupo de mulheres mexe panelas gigantes de carne, frango e legumes para alimentar os rebeldes. Obviamente, os estudantes de medicina têm suas instalações, onde tratam as vítimas dos combates e doam máscaras contra gás lacrimogêneo e medicamentos básicos.

Nas ruas. Estranhamente, a Praça Tahrir, a ilha da resistência, está perfeitamente limpa. Sem detritos, lixo ou excrementos. Trata-se de uma mensagem política. “Vejam vocês, o governo do premiê Adel Abdel-Mehdi é incapaz de fornecer o serviço público mínimo em nossas cidades. Só consegue produzir favelas, sujeira e indigência.”

Como na fúria de todos os oprimidos e abandonados, os ocupantes da Praça Tahrir reivindicam reformas simples. Uma espécie de mínimo vital: dar voz ao povo, convocar eleições, caçar bandidos, corruptos e aqueles que se alimentam do “sangue dos pobres”, além, é claro, de banir ministros e criminosos de Estado. As reivindicações muitas vezes são vagas. Por exemplo: procuram, sem muito sucesso, reduzir o antagonismo letal entre os dois ramos do Islã, ou seja, entre xiitas e sunitas, que convivem no país, mas muito mal.

Além disso, os jovens iraquianos exigem as mesmas liberdades dos jovens de todo o mundo, de Moscou a Hong Kong, de Paris a Roma: liberdade, justiça verdadeira (e não um Estado policial), honestidade, eleições monitoradas por organizações internacionais e, é claro, o julgamento dos atuais líderes, a começar pelo primeiro-ministro Adel Abdel-Mehdi. Nas ruas de Bagdá, hoje em dia, se ouve um brado original, simples e bonito: “Queremos um país!” / RENATO PRELORENTZOU

*É CORRESPONDENTE EM PARIS

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