''O Brasil colaborou para isolar o Irã''

ENTREVISTA - Shirin Ebadi, Prêmio Nobel da Paz

Jamil Chade, O Estado de S.Paulo

28 de março de 2011 | 00h00

O Brasil mostrou que o Irã nunca esteve tão isolado como agora. A declaração é da prêmio Nobel da Paz, Shirin Ebadi, considerada pelo regime dos aiatolás como uma das principais inimigas do governo. Exilada em Londres, Ebadi disse, em entrevista exclusiva ao Estado, que o Brasil sob o governo Lula fez a comunidade internacional perder tempo na pressão contra o regime de Mahmoud Ahmadinejad.

Na semana passada, o governo de Dilma Rousseff votou a favor de uma resolução que estabelece a criação de uma investigação internacional na ONU para avaliar os crimes cometidos pelo regime. Em dois meses, Ebadi virá ao Brasil e se reunirá com Dilma. A entrevista:

Como a sra. avalia a mudança de voto do Brasil em relação ao Irã?

Antes de tudo preciso agradecer pelo voto do Brasil. Alguns no Irã, principalmente o governo, ficaram surpresos. Mas eu sabia que isso ocorreria. Tinha esperanças de que o país que por tantos anos lutou pela democracia em um momento se desse conta de que precisava dar atenção ao povo iraniano, e não ao regime.

O governo iraniano irá modificar o comportamento com o Brasil?

Eles devem estar irritados, certamente. Mas não podem fazer nada. Com certeza, o Brasil colaborou para isolar o Irã. Poucas vezes nos últimos anos o país esteve tão isolado, com o fim do apoio incondicional do Brasil. O governo brasileiro mandou um recado de que não há como apoiar o regime.

De que forma o voto brasileiro pode ser importante em todo o debate sobre o Irã?

O Irã sempre declarou que a pressão externa vinha de uma campanha internacional de Washington. Mas o Brasil provou que isso não é verdade. O Brasil é considerado um país independente. Portanto, destruiu uma das teses que o Irã sustentava para atacar o Ocidente.

O que mais o Brasil pode fazer para pressionar?

Continuar votando contra o Irã na ONU e incentivar os países aliados a seguir esse caminho. Para onde vai o Brasil, vai a América do Sul.

O Irã deixou claro que não pretende aceitar o resultado da resolução nem a entrada de um emissário da ONU. O que mais a comunidade internacional pode fazer?

Se o Irã não aceitar a entrada do relator, o próximo passo será levar o regime de Teerã ao Tribunal Penal Internacional por crimes contra a humanidade.

Em junho a sra. viaja ao Brasil. Qual recado levará a Dilma?

A mensagem da necessidade de que ela lute pelos direitos das mulheres no Irã. Como primeira presidente mulher do Brasil, espero que olhe com especial atenção o que ocorre com as mulheres no Irã, que têm seus direitos diariamente violados.

Lula foi um dos presidentes mais populares do Brasil. Qual é a imagem que a sra. tem dele?

Achei que Lula, como ex-sindicalista, apoiasse os trabalhadores. Esperava que ele, quando foi ao Irã, visitasse as vítimas de violações de direitos humano, sindicalistas silenciados e trabalhadores que sofrem diariamente. Não o fez.

As revoluções nos países islâmicos podem chegar ao Irã?

Essas revoltas dão energia à oposição no Irã. A queda de ditadores tem dado muita esperança a pessoas no Irã que já a haviam perdido. Está na hora de o Irã começar a se reformar. Caso contrário, enfrentará as cortes internacionais em breve.

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