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O Brasil e a África

Nenhum país grande pode se imaginar fora do continente africano, que é a última fronteira do comércio e dos investimentos

Lourival Sant'Anna, O Estado de S.Paulo

15 de dezembro de 2019 | 03h00

Durante a campanha, o então candidato Jair Bolsonaro deu a impressão de que, se eleito, daria as costas para a África. Seria um erro. O continente é a última fronteira do comércio e dos investimentos. Esse risco se dissipou na última semana, com a viagem do chanceler Ernesto Araújo por quatro países da África Ocidental.

Na Nigéria, maior economia africana, Araújo disse que o país “tem papel central no processo de engajamento do Brasil com a África”. Em Abuja, a capital, ele aproveitou para se reunir também com o presidente da Comissão da Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental (Cedeao), Jean-Claude Kassi Brou.

No Senegal, o chanceler entregou ao presidente Macky Sall um convite de Bolsonaro para visitar o Brasil no ano que vem. O país cresceu em média 6,5%, entre 2014 e 2018, sobre um tripé de investimento em infraestrutura, expansão da agricultura e da indústria, principalmente de fosfato (base para os adubos). Estima-se que, entre 2020 e 2024, o Senegal possa crescer em média 8,5%, índice mais alto em toda a África, segundo o Itamaraty.

Em Luanda, Araújo teve o terceiro encontro com o chanceler angolano, Manuel Domingos Augusto, que visitou o Brasil logo após a posse de Bolsonaro. Ele também entregou um convite para o presidente João Manuel Gonçalves Lourenço visitar o Brasil no ano que vem. O chanceler brasileiro firmou um acordo de combate ao narcotráfico, que tem usado o Brasil e Angola como passagem de cocaína da Colômbia para a Europa. “A África é prioridade para o Brasil”, garantiu.

Depois de se reunir com Araújo, o chanceler de Cabo Verde, Luís Filipe Tavares, declarou: “A África é hoje a noiva do mundo. Americanos, russos, chineses, europeus, e o Brasil também, querem reforçar as relações com esse continente. Cabo Verde quer levar o anel do Brasil para o casamento com a África”.

Os investimentos chineses na África são muito comentados, não porque a China seja a única. Mas por ser o “garoto novo do quarteirão”. Em estoque de investimentos, os EUA ainda eram os maiores na África em 2016, com US$ 58 bilhões, seguidos de perto pelo Reino Unido, com US$ 55 bilhões, França, com US$ 49 bilhões, e China, com US$ 40 bilhões.

Os franceses multiplicaram por dez os seus investimentos entre 2000 e 2017. A China anunciou duas etapas de investimentos, no valor de US$ 60 bilhões cada uma, dentro da Iniciativa da Rota da Seda, que se concentra na construção de infraestrutura para garantir a segurança alimentar e energética dos chineses.

Em agosto de 2018, a então primeira-ministra britânica, Theresa May, anunciou a meta de ultrapassar os EUA como maiores investidores do G-7 (ao qual a China não pertence) até 2022. Dois meses depois, o governo americano criou a Corporação Financeira de Desenvolvimento Internacional, com orçamento de US$ 60 bilhões. A soma do estoque americano e desse novo orçamento é igual ao que os chineses pretendem investir na África: US$ 120 bilhões.

Passei dez semanas em oito países da África Subsaariana em duas viagens neste ano. É a única região do mundo com população jovem que cresce aceleradamente, tem grandes recursos naturais e “tudo por fazer” em todos os setores. 

Escrevo de Marrakesh, onde participo do Atlantic Dialogues desde 2013. O foco da conferência, que neste ano reúne 486 especialistas de 61 países, é o potencial de desenvolvimento da África Subsaariana. Nenhum país grande pode se imaginar fora da África. E, embora não tenha plena compreensão do que isso significa, o Brasil é um país grande, em território, população, PIB, biodiversidade, potencial humano e influência cultural. É assim que o mundo o vê. Não significa que tenha de sair por aí abrindo embaixadas sem planejamento e incentivando a corrupção com empresas brasileiras, como fez o governo Lula. Mas precisa ter presença global, proporcional ao custo-benefício de cada lugar.

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