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O Brasil e o trem da história

Compromisso mais impactante do presidente Jair Bolsonaro foi o de eliminar o desmatamento ilegal até 2030

Lourival Sant'Anna, O Estado de S.Paulo

25 de abril de 2021 | 05h00

A cúpula do clima abre uma nova fase na economia global, e uma janela de oportunidade para o Brasil só comparável à proposta da criação da Área de Livre Comércio das Américas (Alca), em 1994. Aquela oportunidade histórica foi perdida, pela combinação de miopia estratégica, viés ideológico e resistência da indústria brasileira. Obstáculos semelhantes se interpõem mais uma vez no caminho que levaria o Brasil à condição de país avançado.

O compromisso mais impactante do presidente Jair Bolsonaro foi o de eliminar o desmatamento ilegal até 2030. O que é bastante revelador. O Estado brasileiro se dá uma década para impor o cumprimento da lei. E isso deve ser celebrado. Para tanto, o presidente se comprometeu a dobrar o orçamento dos órgãos de proteção ambiental, sobretudo para as tarefas de fiscalização. Mas há dúvidas de que o ambiente político e econômico no Brasil comporte esse aumento de gastos. 

As declarações do ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, sugerem que o governo brasileiro espera ser recompensado financeiramente de imediato pelos gestos de boa vontade na cúpula. Isso não vai acontecer: americanos e europeus esperam resultados no terreno antes de abrir os cofres.

Ao ler o número mais importante de seu discurso, Bolsonaro se enganou. Em vez da meta de 43% de redução das emissões de gases do efeito estufa, ele anunciou 40%. O Ministério do Meio Ambiente corrigiu o número mais tarde. 

É a mesma meta, em termos porcentuais, de 2015. Diante da constatação dos cientistas de que as reduções prometidas anteriormente não seriam suficientes para conter o aquecimento global, os EUA elevaram sua meta de 26% para 50%; a União Europeia, de 28% para 55%; o Reino Unido, de 68% para 78%.

A referência da meta do Brasil é 2005. O Ministério da Ciência e Tecnologia atualizou o inventário das emissões daquele ano, de 2,1 bilhões para 2,8 bilhões de toneladas. Se o porcentual não é revisto, o Brasil poderá lançar 1,6 bilhão de toneladas por ano, em vez de 1,2 bilhão pelo inventário anterior. A meta deveria ter sido ajustada para 50%.

Bolsonaro antecipou de 2060 para 2050 a neutralidade climática, ou seja, emissões líquidas zero. Essa é também a meta dos principais países ocidentais. Ele disse que a eliminação das queimadas já aproximará o Brasil dessa meta. De fato, elas representam 44% das emissões do Brasil. Outros 27,5% provêm da agropecuária, sobretudo o metano liberado pela digestão do gado bovino e 19%, da combustão de energia. 

A matriz do Brasil é formada por 83% de fontes renováveis (menos poluentes) e 17% não renováveis. A média mundial é 75% não renovável e 25% renovável. Em contrapartida, as queimadas, além de emitir gás carbônico, destroem a floresta, que converte dióxido de carbono em oxigênio. Em 2019, primeiro ano do governo Bolsonaro, o aumento das queimadas elevou as emissões do Brasil em 9,6%, para 2,175 bilhões de toneladas.

Como disse o secretário-geral da ONU, António Guterres, a mudança climática é uma “ameaça existencial”. Todos os 40 governantes convidados pelo presidente Joe Biden, cujos países somam 80% das emissões, compareceram. 

Esse sentido de urgência representa uma oportunidade histórica para o Brasil, dono de grande parte da Amazônia e de um histórico de liderança no meio ambiente e de inovação no setor de biocombustíveis. A secretária de Energia americana, Jennifer Granholm, calcula que a transição das fontes fósseis para energias renováveis cria um mercado de US$ 23 trilhões até 2030. 

Da outra vez em que isso aconteceu, na proposta da Alca, o Brasil assumiu uma posição defensiva, protecionista, empurrando com a barriga até vencer o prazo final de 2005. Mais uma vez, o trem da história está passando quando o Brasil tem um governo que não consegue enxergá-lo. Torço para esse déjà vu não se materializar.

 

*É COLUNISTA DO ESTADÃO E ANALISTA DE ASSUNTOS INTERNACIONAIS

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