O Brasil ganha ou perde com Humala?

Desde que venceu a eleição presidencial no Peru, Ollanta Humala corre para apagar seu passado. Foram-se as loas a Hugo Chávez e as frases sobre a socialismo do século 21. Hoje, Humala está cercado de políticos moderados.

Mac Margolis, O Estado de S.Paulo

19 de junho de 2011 | 00h00

Antes bolivariano, agora se confessa brasileiríssimo. Ouve conselhos de consultores petistas e espelha-se no ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, por quem professa admiração. Em seu primeiro giro internacional, fez questão de começar por Brasília, onde jurou zelar pela parceria sólida. O que o Brasil ganhará com isso é outra história.

A recauchutagem tem sua lógica. O Peru é o tigre dos Andes. Enquanto a Venezuela estagnou na última década, os peruanos crescem ao ritmo de 5,7% ao ano desde 2002, mais do que qualquer país da região. Sim, 8 milhões de peruanos vivem na miséria, mas a pobreza diminuiu nos últimos cinco anos, de 48% da população, em 2006, para 31% hoje.

Para aproveitar a bonança herdada, Humala sabe que precisa se reinventar rápido. Afinal, após sua vitória, a Bolsa de Lima caiu 12%, um recorde. Recuperou-se bem depois, mas os investidores seguem trêmulos. "Estou mais maduro", garante o Humala versão 2.0.

Para o Brasil, há muito a perder. Ao longo das últimas décadas, Brasília aprofundou seus laços com Lima. Empreiteiras brasileiras constroem estradas, pontes e hidrelétricas no país vizinho.

A Odebrecht está à frente da estrada Interoceânica Sul, rodovia de US$ 1 bilhão que liga o Acre ao Oceano Pacífico. A Vale toca o projeto Bayóvar, mina de rocha fosfática, um investimento de mais de US$ 500 milhões. A Eletrobras, em parceria com a OAS, planeja erguer sete usinas hidrelétricas, para produzir 7 mil megawatts, boa parte destinados a clientes brasileiros.

O modo como o novo governo conduzirá esses projetos é alvo de intensa especulação, mas as dúvidas já pairam. O presidente atual, Alan García - talvez por deferência ao novo governo, talvez para criar-lhe embaraço -, acaba de suspender concessões de mineradoras estrangeiras e de hidrelétricas da Eletrobras, ambas alvos de protestos locais. A encrenca fica para seu sucessor.

Da sua parte, Humala, como Lula em 2002, diz que honrará todos os contratos vigentes. Ao mesmo tempo, adverte que os investimentos estrangeiros terão de passar pelo crivo do povo, via "consulta popular". Soa simpático, mas para quem apostou suas economias no lado andino do continente, causa arrepios.

Pudera. Na Bolívia, Evo Morales, que se dissera irmão menor de Lula, empunhou a bandeira da causa indígena e enviou tropas para encampar refinarias, para prejuízo da Petrobrás. Em 2008, o Equador seguiu o exemplo e expulsou a Odebrecht numa disputa contratual (superada no ano passado) e recorreu à Câmara de Comércio para impugnar um empréstimo do BNDES de US$ 243 milhões.

Com a economia em alta e os cofres cheios, será fácil para Humala agradar a todos. Reza a história recente que o prazo de validade dos líderes dessa nação andina tende a ser curto. É algo que o novo Humala não deve esquecer.

É COLUNISTA DO ''ESTADO'', CORRESPONDENTE DA ''NEWSWEEK'' NO BRASIL E EDITA O SITE

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