O brasileiro Mohamed, 13 anos, viu a guerra perto no Líbano

O pequeno Mohamed Khalife tem 13 anos e um porte físico frágil, mirrado, que o faz parecer ainda mais novo. Sobretudo se o compararmos com seus colegas da escola: ele está um pouco adiantado, na 8ª série, e alguns amigos já têm 14 anos. Mohamed estuda num colégio de Foz do Iguaçu, cidade onde nasceu e também está uma das maiores colônias árabes do País. Nessas férias escolares, ele e mais três irmãos foram visitar o Líbano, terra natal de seus pais, Issan Khalife, 39 anos, e Fátima Atoui, 33.Lá, Mohamed e a família passaram por grandes apuros. Estavam em Kabir, cidade fronteira com Israel, em 12 de julho. Foi quando teve início mais um confronto entre árabes e judeus na região. Naquele dia, soldados do Hezbollah capturaram dois oficiais israelenses. Pouco depois houve uma troca de tiros na fronteira e oito israelenses morreram. Israel revidou com força. E o pequeno Mohamed se viu imerso no conflito.Issan, pai de Mohamed, acreditava que o confronto não fosse durar mais do que três dias e agüentou os primeiros bombardeios sem pensar em deixar Kabir. Mas a situação engrossou e a família ficou quase 15 dias trancada numa casa antes de iniciar a fuga para a Síria, pelas destruídas e desertas estradas libanesas. Na madrugada de quinta-feira, o menino e a família finalmente conseguiram chegar ao Brasil. Vieram num vôo humanitário da BRA, que partiu de Damasco, na Síria, com 252 brasileiros refugiados. Abaixo, o pequeno Mohamed conta o que viu e pelo que passou durante os bombardeios em Kabir e como foi a fuga de sua família até a Síria. A cidade de Kabir, onde você e sua família estavam, fica bem na zona de conflito?É. Kabir, onde moram os parentes do meu pai, fica no sul do Líbano, bem no alto de uma colina. No vale, pouco antes da cidade, tem uma base do Hezbollah. De lá, o Hezbollah lança mísseis contra Israel. Mas não é uma base fixa. Eles soltam os mísseis e fogem, se escondem. Depois dessas ofensivas, a gente via os helicópteros e aviões israelenses sobrevoando Kabir. Eles filmavam, fotografavam. Em seguida começavam os ataques. Mas Israel não atacava o Hezbollah: o Hezbollah já estava longe. Eles bombardeavam a cidade mesmo. De quanto em quanto tempo aconteciam esses ataques?Não dava para ficar um minuto sem ouvir uma bomba estourar. Quando não eram os mísseis do Hezbollah, era o ataque de Israel. A gente dormia três horas por dia. No máximo, quatro horas. Não dava para dormir mais por causa do barulho dos bombardeios. Os ataques não paravam nunca e às vezes eram mais intensos. Israel usa uma bomba proibida em guerra. Uma bomba que explode no vento, antes de atingir o chão, e se espalha no ar. As farpas entram na carne das pessoas e todos morrem. Eram bombas assim que a gente ouvia explodir. Quantos dias vocês passaram na cidade sob bombardeios?A gente passou 12 dias em Kabir durante os bombardeios. Quando a gente chegou no Líbano, a situação era ainda de paz. Passamos uma semana tranqüila na casa da minha avó. Aí a guerra começou. Ficamos mais três dias na casa da minha avó e, depois, meu pai decidiu que mudaríamos para a casa de um primo dele. Meu pai achava que a casa do primo dele ficava num lugar mais seguro. Por isso, fomos para lá e ficamos mais nove dias. Até que fugimos para Beirute. Quantas pessoas estavam na casa do primo do seu pai?Tinha três famílias lá. Eram mais de 40 pessoas. Muitas casas estavam assim em Kabir: lotadas. E Israel bombardeava sem parar. Cada casa atingida significava a morte de quase 50 pessoas. Você via as ruínas das casas nas ruas?A gente não saía para a rua. E, além disso, vivíamos no escuro. A casa do primo do meu pai estava sem eletricidade. Era só luz de velas. Então não dava para ver nada. Só de vez em quando alguém subia na laje para buscar água. Água era a única coisa que ainda tinha na casa. Como vocês saíram da cidade?Um dia meu pai levantou às 5 horas porque estava passando mal, com dor no estômago. Saiu um pouco da casa e olhou para o céu. O clima estava melhor, não tinha tantos aviões. Então ele acordou todo mundo. A gente deixou tudo que tinha em Kabir. Tudo. Só pegamos os passaportes e saímos às 7 horas em dois carros. Quantas pessoas fugiram com você nesses dois carros?Eram 12 pessoas. Na minha família, tinha seis: eu, meus três irmãos, meu pai, minha mãe. A família do primo do meu pai foi com a gente e também tinha seis pessoas. Então foi metade em cada carro. Mas separamos as famílias. Meu pai levou alguns dos filhos do primo dele e o primo dele levou alguns filhos do meu pai. Isso para que não morresse uma das famílias inteira caso alguma bomba estourasse num dos carros. Quanto tempo durou a fuga de Kabir a Beirute?De Kabir a Beirute, geralmente se leva uma hora e meia de carro. Mas a gente levou cinco horas e meia. Durante a fuga, pegamos três estradas interrompidas e tivemos que voltar, procurar outro caminho. Israel destruiu muitas pontes no Líbano. Como estava a situação em Beirute?Era bem melhor do que em Kabir. Mas havia guerra ao redor da cidade. A gente escutava os bombardeios o tempo inteiro. Víamos navios israelenses passando. E teve explosões na cidade também. Então fugimos, novamente de carro, para a Síria. A viagem para a Síria foi bem complicada também. Em média, essa viagem dura duas horas. A gente levou sete horas. Na Síria vocês, enfim, estavam salvos.É. Quando a guerra começou eu cheguei a ter medo de morrer. Mas depois me acostumei. Com uns cinco dias, a gente acostuma. Na Síria, a gente passou ainda 11 dias, até que meu pai conseguiu, na embaixada, o vôo para o Brasil.Você sabe se a casa do primo do seu pai em Kabir, onde você ficou refugiado, foi destruída?Não sei. Depois que a gente saiu, não chegaram mais notícias. Só sei que toda a família saiu de casa, fugiu. Mas acho que aquela casa está destruída, sim. Israel destruiu tudo em Kabir. E agora estão invadindo a cidade com tanques.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.