O budismo e o atirador de Washington

Para especialistas em religião e comportamento, autor de chacina em base militar talvez buscasse na meditação uma saída para seus tormentos

Michelle Boorstein e Alizabeth Tenety*, O Estado de S.Paulo - The New York Times

19 Setembro 2013 | 02h12

Depois do massacre na base da Marinha em Washington, o interesse do autor dos disparos, Aaron Alexis, pelo budismo parecia contrastar com os estereótipos convencionais no Ocidente dessas pessoas não violentas, em serena meditação.

Estudiosos do budismo e bloggers destacaram imediatamente que o perfil espiritual de Alexis - ele estava ligado a um templo em Fort Worth, embora sua frequência tivesse diminuído bastante há um ano - não combinava com a imagem de alguém capaz de descarregar o revólver e matar 12 inocentes em um edifício militar cheio de gente.

Alguns consideram a tragédia uma oportunidade para divulgar alguns tópicos difíceis que os budistas em geral discutem somente entre os membros de sua comunidade. "Ao espalhar-se no Ocidente, o budismo apresentou a imagem de uma religião pacífica", escreveu o estudioso da ética budista Justin Whitaker, autor do blog American Buddhist Perspective.

O budismo pode parecer particularmente atraente a "pessoas mentalmente desequilibradas que procuram a correta orientação de sua vida, que querem automedicar-se, controlar os próprios impulsos, ou uma aderência maior à realidade", afirmou numa entrevista Clark Strand, editor colaborador da revista budista Tricycle e ex- monge Zen.

A relação, se é que existe, entre as crenças espirituais de Alexis e a carnificina que ele promoveu permanece um mistério. Mesmo os detalhes básicos sobre o por quê, o quando e como Alexis se aproximou do budismo - no pequeno templo de Fort Worth frequentado principalmente por imigrantes tailandeses - não puderam ser percebidos por seus colegas de quarto e amigos.

Será que a prática regular da meditação no templo em 2010, juntamente com o incenso e o Buda de ouro que Alexis tinha em seu quarto, amenizaram o que ele descrevia como um distúrbio de stress pós-traumático e alucinações? Ou acabou sentindo-se desconectado da comunidade espiritual por ele adotada, onde a adoração e as conversas após a meditação eram realizadas em tailandês, língua que ele falava, mas não fluentemente? A que ponto ele foi afetado, se é que o afetou, pelo fato do seu amigo e colega de quarto, um budista tailandês, ter se convertido ao cristianismo? Alexis falara ao seu senhorio budista que queria ser monge, mas sua participação no templo foi diminuindo, de várias vezes por semana, em 2010, a uma vez por mês, em 2011, antes de acabar por completo.

Ele sabia da proibição da bebida e da violência no templo, mas a cerveja Heineken era sua bebida preferida e ele carregava uma arma "o tempo todo", segundo Oui Suthamtewakul, seu amigo e colega de quarto do templo. Oui e sua mulher, Kristi, tinham um restaurante tailandês chamado Happy Bowl, onde Alexis trabalhou regularmente durante anos. Embora morasse e trabalhasse ao lado de Alexis, o casal não soube informar como ele se aproximou do budismo. Kristi Suthamtewakul, cristã, disse que eles falavam com frequência de religião, mas não deu outros detalhes.

Há pelo menos um ano, Alexis tornara-se membro regular do Centro de Meditação Wat Busayadhammavanaram de Fort Worth, onde muitas noites ele era uma das cinco pessoas, aproximadamente, que faziam meditação silenciosa de uma hora.

Durante o serviço no templo na noite de terça-feira, os presentes relembraram o pacífico Alexis, o homem que costumava se ajoelhar sobre tapetes orientais e aspirava tornar-se monge. Um monge em um traje dourado falou durante sua preleção que ninguém pode deixar de sofrer ou de envelhecer, contou um membro do templo que falava fluentemente tailandês. Ele disse aos presentes que não viveriam para sempre, portanto deviam ser bondosos com os outros nesta vida. Sem mencionar o nome de Alexis, o monge manifestou a esperança de que, com a morte, o membro pecador da comunidade pudesse encontrar a paz.

Os budistas tailandeses fazem parte da tradição chamada Theravada, ou "o caminho dos mais velhos". Ela é comum em todo o Sul e Sudeste Asiático e afirma ser a mais antiga e mais autêntica forma de budismo, explicou Charles Jones, professor de religião.

Uma característica da Theravada, segundo Jones, é sua enorme variedade de técnicas de meditação para diferentes tipos de personalidade. Não ficou claro se Alexis teve acesso a estes ensinamentos.

Somsak Srisan, o ex-senhorio de Alexis, que o conhecia por frequentar o templo, disse que este confidenciou a ele que pretendia deixar o emprego numa base naval local, mas não aprofundou a questão. Eles também falaram superficialmente sobre ele tornar-se monge.

Os budistas não asiáticos dos Estados Unidos, disse Jones, costumam seguir a Theravada, o budismo Zen e o tibetano, mas em geral se mantêm separados das comunidades budistas étnicas.

Strand observou que o fato de Alexis ter escolhido o templo era inusitado. Embora pequena, a comunidade budista americana é a mais variada do mundo e costuma reunir os fiéis de acordo com a respectiva etnia, os grupos asiáticos em seus próprios templos, e depois separar os espaços de adoração do que Strand define como um budismo que passou a apelar para os americanos de renda mais elevada e com educação superior.

Segundo alguns especialistas, a tragédia da base da Marinha levanta questões difíceis de serem respondidas sobre o budismo e a saúde mental. Whitaker observou: Existem questões peculiares para pessoas que praticam profundamente a meditação, mas que talvez não tenham uma forte ligação ou uma ampla ligação com a história e a teologia do budismo? Outros observaram a forte superposição que ocorre no Ocidente entre a cultura do budismo e a da psicoterapia.

A possibilidade de que Alexis praticasse a meditação para aliviar seu sofrimento mental levou Strand a indagar se ele teria buscado o budismo "como a última esperança para evitar esta tragédia". "Talvez ele buscasse uma disciplina meditativa que o ajudasse a lidar com esse problema ou a aprender a lidar com as vozes para silenciá-las ou para ocupar sua mente com alguma outra coisa", afirmou Strand, referindo-se aos relatos de que Alexis era perturbado por vozes misteriosas. "O budismo não costuma ser uma solução rápida para esse tipo de coisa".

*Michelle Boorstein e Alizabeth Tenety são jornalistas.

TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.