JOSE SANCHEZ / AFP
JOSE SANCHEZ / AFP

O calvário de encontrar os corpos de familiares mortos em Guayaquil

Epicentro da pandemia de covid-19 no Equador tem hospitais lotados, serviços funerários em colapso e corpos aguardando por dia em casa até serem recolhidos

Xavier Letamendi, AFP

17 de abril de 2020 | 11h18

GUAYAQUIL - Darwin Castillo perdeu o pai em meio à crise do novo coronavírus em Guayaquil, epicentro da epidemia no Equador. Ele foi recuperar o corpo em um necrotério lotado, mas, quando abriu a capa mortuária, percebeu que não era seu familiar. Pouco mais de duas semanas se passaram, e ele ainda não sabe onde está o corpo do pai. Castillo, de 31 anos, precisou devolver o caixão à funerária.

"Não culpo o hospital ou o necrotério. Havia pessoas morrendo na entrada. Gostaria que meu pai aparecesse para realizar um enterro cristão, para dar flores ao meu velho", disse o homem.

A frustração anda de mãos dadas com a tristeza. O pai de Castillo, Manuel, tinha 76 anos, fazia diálise e sofreu uma obstrução de um cateter, o que acabou por matá-lo em 31 de março. O filho foi procurar o corpo dois dias depois no necrotério do hospital Los Ceibos, o maior de Guayaquil e destinado a pacientes com coronavírus.

Oficialmente, a covid-19 já matou mais de 400 pessoas no Equador. Dos 8.000 casos, 70% estão concentrados na província de Guayas e em sua capital, Guayaquil. Castillo confessa que subornou um dos funcionários do necrotério com 150 dólares para recuperar o corpo, em meio aos 170 que, segundo o que foi informado, estavam no local.

O colapso é tal, acrescenta ele, que as autoridades instalaram um contêiner refrigerado para preservar outros 46 cadáveres. Castillo recebeu o corpo e, então, encontrou outra pessoa, um homem de bigode e com roupas diferentes. "O homem ainda tinha a pulseira do hospital que dizia Rodríguez", relata.

Os funcionários então deram a ele a oportunidade de procurar entre os mortos, incluindo as vítimas do novo coronavírus. "Se não houvesse esse problema, procuraria morto por morto pelo meu pai", disse Castillo, que desistiu da busca, devido ao medo de contágio.

Corpos extraviados

O caos hospitalar e funerário causado pela pandemia, agravado pelo toque de recolher imposto pelas autoridades para impedir a propagação, fez com que os corpos de muitas pessoas vitimadas pelo coronavírus passassem dias dentro de suas residências, até serem removidos.

O governo equatoriano, que nas últimas semanas recolheu quase 1.400 cadáveres de casas e hospitais em Guayaquil, informa através de um site onde os corpos foram enterrados. Dois cemitérios foram ampliados para esse fim. Castillo inseriu os dados do pai, mas ainda não o encontrou.

Mas a situação não se restringe a Castillo, existem mais casos. Um grupo está se organizando para apresentar uma ação contra o Estado. "Não é possível compreender os serviços funerários que não entregam os corpos, os perdem, ou fazem trocas", disse o advogado e vereador de Guayaquil, Héctor Vanegas.

"A família tem o direito de saber o destino de seus parentes mortos. Os familiares dizem que os mortos chegam com identidades trocadas, ou chegam homens quando são mulheres", acrescentou o advogado. Vanegas está preparando uma lista das pessoas afetadas e já recebeu 190 telefonemas.

Moisés Valle, de 37 anos, funcionário de uma empresa farmacêutica, também perdeu o pai. Ele morreu de ataque cardíaco no hospital Teodoro Maldonado Carbo. Quando preparava os trâmites para recuperar o corpo, soube que ele havia sido enviado para o contêiner de outro sanatório sem sua autorização.

"A partir desse dia, o calvário começou, porque eu não conseguia retirar o corpo. Até ontem, o nome do meu pai não aparecia no site", disse Valle. Ele adquiriu um túmulo na cidade vizinha de Durán e tinha tudo pronto para o enterro. Precisou cancelar o serviço e agora prepara uma ação judicial.

Dayana, que prefere omitir seu sobrenome por medo de retaliação, trabalha em uma funerária. Os últimos dias de março foram árduos e traumáticos. "Chegava morta em casa, chorando por tudo que via, cadáveres apodrecendo, com vermes", descreve.

Toda vez que ia aos hospitais, ela levava quatro caixões. Mas eram insuficientes. Os pedidos de ajuda ainda estão em sua memória. "Preciso de um psicólogo e preciso urgentemente, depois de ver tanta tragédia", comenta.

Dayana, de 29 anos, relata que "havia muitos corpos NN (nome desconhecido)" e que, nos necrotérios, mudavam as etiquetas de identificação e entregavam corpos sem a respectiva ata assinada. Tudo isso contribui para que, agora, os parentes sintam o vazio de não saber onde estão seus mortos./ AFP

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