Dado Ruvic/Reuters
Dado Ruvic/Reuters

O caminho da redenção da Alemanha

Nada pode apagar os horrores da 2ª Guerra, mas os alemães são um exemplo poderoso de que é possível mudar um país

Fareed Zakaria*, O Estado de S.Paulo

14 Setembro 2015 | 02h04

O governo de Barack Obama deseja que no decorrer do próximo ano os Estados Unidos recebam 10 mil homens, mulheres e crianças que fugiram da guerra na Síria. A Grã-Bretanha prometeu revisar sua política de asilo para acolher até 20 mil refugiados nos próximos cinco anos. E então temos a Alemanha, onde somente este ano chegaram 800 mil pessoas solicitando asilo, mais do que a Europa inteira em 2014.

Poderíamos pensar que a generosidade alemã incentivará outros países a seguirem seu exemplo, ou pelo menos lhe agradeçam e a elogiem. Não exatamente. Alguns políticos europeus já se apressam em criticar Berlim por ter violado as regras da União Europeia, por criar um ímã que atrairá mais refugiados e aumentará o risco da infiltração jihadista.

O primeiro ministro da Hungria, Viktor Orban, afirmou que "o problema não é europeu, é alemão". Marine Le Pen, líder populista da França, disse em uma reunião do seu partido que "a Alemanha deve achar que sua população está moribunda e provavelmente pretende baixar os salários para continuar recrutando escravos por meio da imigração em massa". Foi quase certamente uma referência deliberada e astuta à política nazista de trabalho forçado durante a 2ª Guerra.

A Europa é pressionada em várias frentes e diversos políticos encontraram uma maneira fácil de desviar a culpa: evocando o fantasma dos nazistas. Segundo a revista alemã Der Spiegel, "os símbolos nazistas se converteram em demonstrações contra a austeridade", mencionando os cartazes e caricaturas, algumas com Angela Merkel parecendo Hitler, e surgem em protestos realizados na Polônia, Portugal, Espanha, Itália e, claro, na Grécia.

Espólio de guerra. Durante as negociações sobre a dívida, o governo grego aprovou um vídeo de propaganda exibido nos meios de transporte público da capital Atenas. O vídeo trazia imagens da invasão nazista e da ocupação da Grécia. O texto dizia: "Exigimos o que a Alemanha nos deve". Os jornais gregos habitualmente comparavam as posições da Alemanha no caso da reestruturação da dívida às políticas nazistas.

Na Itália, um livro recém-lançado de Gennaro Sangiuliano, diretor assistente da área de notícias da rede de TV RAI, e seu colega jornalista Vittorio Feltri, tem o título O Quarto Reich: como a Alemanha dominou a Europa. Os autores sustentam que o mecanismo para subjugar a Europa não são as divisões de tanques, mas o euro.

Agora, podemos discordar de algumas políticas alemãs: a ênfase na austeridade, por exemplo. Entretanto, é vergonhoso alimentar antigos ódios que não têm nenhuma base no mundo atual. A Alemanha moderna tentou muito mais do que qualquer outra nação se redimir do seu passado. Pagou centenas de bilhões de dólares em indenizações e ajuda externa.

Sua cultura está impregnada da lembrança de suas perversidades nos memoriais, museus e monumentos que lembram o mais horripilante capítulo da história do país. No local onde estava instalado o quartel-general nazista, em Munique, um novo Centro de Documentação da História do Nacional Socialismo foi aberto e oferece um relato detalhado e brutalmente honesto da ascensão do nazismo.

Suas políticas imigratórias fazem parte do empenho para superar seu passado. Após a 2ª Guerra, a Alemanha Ocidental acolheu 3 milhões de pessoas vindas da Europa Oriental governada pelos soviéticos.

No início da década de 90, o país recebeu meio milhão de pessoas que tiveram de fugir da guerra nos Bálcãs. Estivesse a Alemanha tentando resolver seus problemas demográficos decorrentes do declínio da sua população, poderia simplesmente expandir suas quotas de imigração e aceitar mais imigrantes capacitados da Ásia, que seriam mais baratos para assimilar.

"Nasci em 1957", disse Kurt Kister, editor do jornal de Munique, o Suddeutsche Zeitung. "Para minha geração, a chave era fazer qualquer coisa desde que oposta ao Terceiro Reich. Essa era a nossa meta. Nós nos sentíamos muito confortáveis como um país passivo, comercial, americanizado, sem nenhum poder ou ambição. Mas o mundo mudou. O papel da Alemanha não é o mesmo. Somos uma grande potência, embora relutante. As pessoas se ressentem do nosso poder. Eu compreendo. Nós também nos ressentimos, em muitos aspectos."

Mudanças. Perguntei a ele se os cartazes e as campanhas contra a Alemanha o exasperam. Sua resposta me surpreendeu. "Bom, não gosto, de modo nenhum. Mas não deveríamos fugir do nosso passado. Tentamos conquistar a Europa. Sempre deveríamos lembrar disto."

Nada pode apagar os horrores da 2ª Guerra e do Holocausto. No entanto, a Alemanha moderna é o exemplo mais poderoso de que as pessoas podem mudar e, com o passar do tempo, a redenção é possível, mesmo para uma nação impregnada de sangue. / Tradução de Terezinha Martino

*É colunista do The Washington Post

Mais conteúdo sobre:
Visão global alemanha refugiados

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.