O caminho para a China derrotar os EUA

Supremacia mundial dependerá principalmente da capacidade de fazer os amigos mais valiosos

O Estado de S.Paulo

25 de novembro de 2011 | 03h03

Como a China exerce influência cada vez maior na economia global e aumenta a crescente capacidade de projetar seu poderio militar, a concorrência entre o país asiático e os EUA é inevitável. Segundo o discurso otimista dos líderes de ambas nações, a concorrência pode ser administrada sem nenhum confronto que ameace a ordem mundial, mas a maioria dos acadêmicos não se mostra tão animada.

Enquanto as potências emergentes procuram conquistar uma autoridade maior no sistema global, as potências em declínio raramente optam pelo confronto. E, considerando as divergências entre o sistema político chinês e o americano, os pessimistas talvez acreditem que é maior a probabilidade de uma guerra.

Sou um realista em termos políticos. Os analistas ocidentais rotularam minhas convicções políticas como "agressivas". Mas realismo não significa que os políticos devam se preocupar somente com o poderio militar e econômico. Na realidade, o senso moral pode ser um elemento fundamental na concepção da concorrência internacional entre potências políticas - e na distinção entre vencedores e vencidos.

Cheguei a essa conclusão estudando os antigos teóricos políticos chineses como Guanzi, Confúcio, Xunzi e Mêncio. Eles escreveram no período pré-Qin, antes da unificação da China num império, há mais de 2 mil anos - um mundo no qual pequenos países competiam cruelmente por vantagens territoriais. Esse foi talvez o maior período do pensamento chinês, no qual as várias escolas concorriam pela supremacia ideológica e pela influência política. Elas coincidiam em apenas uma concepção crucial: o elemento fundamental da influência internacional era o poderio político, e o atributo central do poderio político era a liderança com base na moral.

A China foi unificada pelo cruel rei de Qin em 221 a.C., mas seu breve governo não foi tão bem-sucedido quanto o do imperador Wu da dinastia Han, que se inspirou numa mistura de realismo legalista e de "poder brando" confucionista para governar o país de 140 a.C. a 86 d. C.

O filósofo chinês Xunzi afirmava que existiam três tipos de liderança: a autoridade humana, a hegemonia e a tirania. A autoridade humana conquistava os corações e as mentes das pessoas interna e externamente. A tirania - com base na força militar - inevitavelmente criava inimigos. As potências hegemônicas se encontravam no meio do caminho: elas não enganavam as pessoas internamente, nem os aliados externamente.

A fragmentação da era pré-Qin assemelha-se às divisões globais dos nossos tempos, e, hoje em dia, as prescrições sugeridas pelos teóricos políticos daquela época são diretamente pertinentes - ou seja, os Estados com base no poderio militar ou econômico sem se preocupar com uma liderança ligada à moral estão destinados ao fracasso.

Infelizmente, tais conceitos não são tão influentes nessa época de determinismo econômico, mesmo que os governos frequentemente os proclamem solenemente. O governo chinês afirma que a liderança política do Partido Comunista é a base do milagre econômico da China, mas em geral ele age como se a concorrência com os EUA se desse exclusivamente no plano econômico. E nos EUA, os políticos atribuem regularmente o progresso, mas nunca o fracasso, à própria liderança. Ambos governos precisam compreender que é a liderança política que determinará quem ganhará a corrida à supremacia global, e não a quantidade de dinheiro gasto para a solução de problemas.

Muitas pessoas equivocadas acreditam que a China pode melhorar suas relações internacionais apenas aumentando consideravelmente a ajuda econômica. Mas é difícil comprar o afeto. Essa "amizade" não resiste ao teste dos tempos difíceis. Então, como poderá a China conquistar os corações das pessoas em todo o mundo? Segundo os antigos filósofos chineses, ela terá de começar com o seu próprio povo.

Isso significa que a China precisa transferir as suas prioridades do desenvolvimento econômico para o estabelecimento de uma sociedade harmoniosa em que não existam os enormes fossos entre ricos e pobres. Ela precisa substituir a adoração ao dinheiro pela moral tradicional e extirpar a corrupção política em favor da justiça social e da integridade.

Influência. O poderio militar é a base da hegemonia e contribui para explicar o motivo pelo qual os EUA têm tantos aliados. O presidente Obama cometeu erros estratégicos no Afeganistão, Iraque e Líbia, mas suas ações também demonstram que Washington pode sustentar ao mesmo tempo três guerras. Em contraposição, o Exército da China não se envolveu em nenhuma guerra depois da de 1984, com o Vietnã. Poucos dos seus oficiais, e muito menos suas tropas, têm experiência de batalha.

Os EUA desfrutam de relações muito mais profícuas com o resto do mundo do que a China em quantidade e qualidade. Os EUA têm mais de 50 aliados militares formais, enquanto a China não tem nenhum. A Coreia do Norte e o Paquistão são os únicos países que podem ser considerados de certo modo aliados da China. Nenhuma potência preeminente pode manter relações amistosas com todos os países do mundo, portanto o cerne da competição entre China e EUA se dará em termos dos amigos mais valiosos.

A China precisa também reconhecer que é uma potência em ascensão e assumir as responsabilidades. Por exemplo, proteger potências mais fracas, como os EUA fizeram com a Europa e o Golfo Pérsico. Em termos políticos, a China deveria inspirar-se em sua tradição de meritocracia. Também deveria abrir-se e escolher funcionários de todas as nacionalidades que atendessem aos seus padrões, de forma a aperfeiçoar a sua governança. A dinastia Tang - que se estendeu do século 7 ao 10, talvez o período mais glorioso da China - empregava um grande número de estrangeiros em cargos elevados. A China deveria fazer o mesmo hoje e competir com os EUA para atrair imigrantes talentosos.

Na próxima década, os novos líderes da China sairão de uma geração que experimentou as agruras da Revolução Cultural. Trata-se de figuras resolutas e muito provavelmente valorizam os princípios políticos mais do que os benefícios materiais. Esses líderes deverão desempenhar um papel maior no cenário mundial e oferecer maior proteção em termos de segurança e apoio econômico a países menos poderosos.

É isso que significará competir com os EUA em termos políticos, econômicos e tecnológicos. Essa competição poderá causar tensões diplomáticas, mas não haverá perigo de confrontos militares. Ocorre que a competição entre China e EUA será diferente da que se dava entre os EUA e a União Soviética durante a Guerra Fria. Nem a China nem os EUA precisam de conflitos indiretos para proteger os seus interesses estratégicos ou para obter o acesso a recursos naturais e tecnologia.

A tentativa da China de ampliar seu status de líder mundial e o esforço dos EUA para manter sua atual posição é um jogo de soma zero. É uma batalha pela conquista dos corações e das mentes que determinarão quem deverá prevalecer. Como previram os antigos filósofos da China, ganhará o país que mostrar maior autoridade humana. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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