O caminho para o degelo religioso na ilha

Em 1981, como jurado do Prêmio Casa das Américas de Literatura, um membro do governo cubano me pediu para colocá-los em contato com o episcopado brasileiro para intermediarem a retomada das relações com a Igreja

José de Souza Martins*, O Estado de S. Paulo

28 de novembro de 2016 | 05h00

Numa visita dos jurados do Prêmio Casa das Américas de Literatura à casa de Armando Hart, ministro da Cultura, os brasileiros ficaram sentados em cadeiras no pequeno jardim: Gianfrancesco Guarnieri e Vanya, João Ubaldo Ribeiro e Berenice, Márcio Souza e eu. Pouco depois, chegava Fidel Castro. Sentou-se numa das cadeiras, no meio dos brasileiros. Sua conversa com o grupo, sobre política e livros, estendeu-se por três horas. Disse que lia muito à noite, pois sofria de insônia. Antes de sair, Fidel entregou a cada um de nós três garrafas de barro de rum de uma reserva especial. Estava no fim do terceiro charuto. Jogou o toco no chão e pisou. Quando levantou o pé, agarrei o charuto. Mais tarde, no ônibus, mostrei-o aos cubanos, que lamentaram não ter tido a mesma ideia.

Naquela noite, conversamos com Raúl Castro. Comigo, falou da presença cubana na África e das dificuldades da língua portuguesa. Voltaríamos a encontrar Fidel num almoço em que fez uma exposição sobre as dificuldades causadas ao país pelo embargo americano. Mesmo na exiguidade de recursos, suprimiram o analfabetismo, a medicina era gratuita e todos eram protegidos pela seguridade social.

Eu ainda não tinha clareza sobre o motivo do convite que recebera para fazer parte do júri do Prêmio Casa das Américas de Literatura Brasileira, que se reuniria em janeiro de 1981. Também lá estavam Gilda de Melo e Souza e o professor Antonio Candido, que seria homenageado no Encontro Latino-americano de Escritores.

Numa manhã, um sujeito em mangas de camisa me procurou no saguão do hotel. Convidava-me para jantar no restaurante El Conejito. O governo cubano estava interessado em conseguir que o Vaticano levantasse o bloqueio que impusera a Cuba depois que padres espanhóis, de armas nas mãos, foram capturados na invasão da Baía dos Porcos. Dada a condição de religiosos, haviam sido poupados dos fuzilamentos. Mesmo assim, a Cúria Romana não nomeara um substituto quando morreu o cardeal de Havana e os padres restringiam seus serviços. Não consegui conversar com nenhum, nem no Cemitério de Colón, onde sempre haveria um de plantão.

Durante o jantar, o anfitrião disse-me que o governo cubano queria um contato com o episcopado brasileiro para quebrar o gelo nas relações com a Igreja. O sonho era o de que a Igreja cubana, como a brasileira, estimulasse as comunidades eclesiais de base. Os bispos brasileiros poderiam ajudar. Queria sugestões para que o contato fosse feito com as pessoas certas. Disse-lhe que a conversa teria de ser por meio de bispos, não de leigos. Propus-lhe que, por meio da Casa das Américas, convidassem um bispo brasileiro para ir a Cuba para uma atividade cultural. Teria de ser um bispo escritor. 

A pessoa mais indicada era Dom Pedro Casaldáliga, poeta. Mas Dom Pedro sofria, da ditadura, a ameaça constante de expulsão do Brasil. Nesse caso, era um recurso em última instância. Talvez fosse o caso de convidar Frei Betto, dominicano, muito ligado às comunidades eclesiais de base. Ele poderia fazer consultas e achar um modo de colocar a Igreja do Brasil na missão do degelo entre o Vaticano e Cuba. Frei Betto acabaria indo a Cuba, entrevistaria Fidel e escreveria o livro Fidel e a Religião, que o Papa João Paulo II leria e o influenciaria em relação à mudança nas relações com Cuba.

* JOSÉ DE SOUZA MARTINS É ESCRITOR E SOCIÓLOGO

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