O caminho para outra guerra no Oriente Médio

Estrangular o Irã, como os EUA estão fazendo, não é a melhor estratégia para estabilizar a região e só servirá para semear ressentimento e o revanchismo, na qual Washington ficará atolada por décadas

Fareed Zakaria / The Washington Post, O Estado de S.Paulo

15 de julho de 2019 | 05h00

A melhor ilustração da incoerência da estratégia do governo americano em relação ao Irã veio na semana passada em um comunicado da Casa Branca. “Há pouca dúvida de que, mesmo antes da existência do acordo, o Irã estava violando seus termos”, dizia o texto. A Casa Branca não explicou em seguida como um país pode violar os termos de um acordo antes que ele existisse.

Este não é o único exemplo de incoerência. Quando Donald Trump anunciou, no mês passado, que havia cancelado os ataques militares contra o Irã, ele disse que era porque ficara sabendo que cerca de 150 iranianos morreriam nos ataques. 

Em vez disso, ele reforçou as sanções econômicas, que estão tendo um efeito “profundo e incapacitante” sobre o país, segundo o economista Jeffrey Sachs. “Sanções como estas causam uma elevação significativa nos índices de mortalidade”, disse Sachs. “Dado o tamanho da população do Irã, em torno de 81 milhões, isso resultará em muito mais do que 150 mortes.”

Sem contar que as pessoas que teriam morrido nos ataques, provavelmente, teriam sido soldados iranianos. Aqueles que estão morrendo em razão das sanções são recém-nascidos, mães, idosos e doentes. Um estudo aponta que as sanções produzem uma escassez disseminada de medicamentos e os que mais sofrem são “pacientes que lutam contra o câncer, esclerose múltipla, doenças do sangue e outras condições”.

Sem saída

O governo Trump criou uma crise humanitária no Irã e uma crise geopolítica no Oriente Médio, sem qualquer estratégia para resolver nenhuma das duas. O pacto com o Irã forçou Teerã a se comprometer que nunca desenvolveria armas nucleares, despachar 98% de seu urânio enriquecido, destruir seu reator de plutônio e concordar com limites e inspeções intrusivas por 10 a 25 anos. 

Os inspetores internacionais - assim como as agências de inteligência das grandes potências - confirmaram que o Irã estava aderindo ao acordo. Mas Trump, ao se retirar do pacto, permitiu que Teerã se afastasse desses limites. Por exemplo, os iranianos concordaram que não desenvolveriam mais de 300 quilos de urânio de baixo enriquecimento até 2030. Mantiveram-se dentro desses parâmetros desde 2015. Na semana passada, o Irã ultrapassou esse limite, justificando seu movimento ao apontar que os próprios EUA haviam abolido o pacto.

As ações de Trump em relação ao Irã também criaram uma fissura na aliança ocidental. A Europa apoiava fortemente a política iraniana de Washington e a pressão conjunta havia funcionado bem ao levar Teerã à mesa de negociações. Agora, os europeus estão em revolta aberta contra o unilateralismo de Washington e até fizeram esforços para estabelecer um mecanismo de pagamento alternativo ao dólar para o comércio com o Irã.

Outras nações do Oriente Médio percebem a fraqueza do Irã e mobilizam-se para aproveitar isso. Autoridades israelenses confidenciaram a diplomatas ocidentais que podem decidir atacar as instalações nucleares do Irã em um futuro próximo. A Arábia Saudita comemorou a campanha americana de pressão máxima ao buscar uma ampla política anti-iraniana em várias frentes.

Resposta

À medida que a corda aperta em torno do Irã, o país vem reagindo com ações adicionais de seus próprios militares ou mais frequentemente de milícias associadas - do Iêmen ao Golfo Pérsico. Cada um deles apresenta uma resposta da Arábia Saudita ou dos EUA. Em outras palavras, Trump intensificou as tensões regionais sem um bom plano para resolvê-las.

O governo Trump tem esperanças de uma capitulação por parte dos iranianos, na qual eles retornarão à mesa de negociação e aceitarão um acordo muito mais oneroso do que aquele assinaram em 2015. É possível que isso aconteça, mas é muito mais provável que essa guerra fria regional fique mais tensa e aumente a probabilidade de erro de cálculo ou de uma guerra acidental.

Mesmo se houvessem certas concessões iranianas temporárias, oriundas do desespero, elas certamente não durariam. Potências feridas e amarguradas sempre encontram uma maneira de voltar com violência. Trump parece esquecer que a civilização iraniana tem sido um importante protagonista no Oriente Médio há milhares de anos. Tem uma população que é mais que o dobro daquela do Iraque e está mais estrategicamente localizada. Tem uma forte tradição de nacionalismo e política e uma história de resistência à dominação estrangeira.

O caminho para a estabilidade no Oriente Médio não está no estrangulamento do Irã. Isso só semeará o ressentimento e o revanchismo, criando uma região mais instável em que os EUA se encontrarão atolados por décadas. Infelizmente, este é o caminho no qual estamos nos movimentando. / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

* FAREED ZAKARIA É COLUNISTA 

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.