O canal de Ortega

Não se pode acusar Daniel Ortega de pensar pequeno. De boina e fuzil, ele derrotou o generalíssimo Anastasio Somoza e a contraguerrilha bancada pelos Estados Unidos. Depois de ganhar a Nicarágua no grito, trocou a carabina pela cabina de urna e venceu as eleições nicaraguenses, transformando a insurgência sandinista em vedete da redemocratização centro-americana.

Mac Margolis, O Estado de S.Paulo

08 Março 2015 | 02h01

Já que alquimia não existe, Ortega abusou dos charutos cubanos e do poder, foi escorraçado do palácio pelos eleitores - tornando-se um de apenas dois presidentes latinos a perder a reeleição desde 1990 - e voltou com tudo (e mais um pouco) para conquistar outra eleição em 2006. E outra em 2011, muito graças à captura, à bolivariana, da Suprema Corte e a mordaça à imprensa.

No entanto, a presidência vitalícia é pouco frente ao monumento que o sandinista de 69 anos pretende erguer agora. Seu plano: riscar um canal de costa a costa no istmo americano, ligando o Oceano Pacífico ao Caribe. Pense no Canal do Panamá 2.0, só que em escala bem maior.

Pelas projeções oficias - e para espanto de grupos ambientalistas e comunidades indígenas - será a maior obra de engenharia heroica já realizada. Trata-se de um canal de 278 quilômetros, mais de três vezes o tamanho do Canal de Panamá, e bem mais profundo e largo, também. Se o projeto sairá da prancheta, é um mistério ainda maior.

A obra será planejada, custeada e construída pelo Grupo HKND, sigla do Hong Kong Nicaragua Development Group, um conglomerado chinês com nenhuma pegada nas Américas.

Seu único sócio conhecido, Wang Jing, é um bilionário das telecomunicações, de 42 anos. Promete US$50 bilhões pela execução do projeto que, pelo plano, será entregue até 2020. O canteiro de obras já está sendo preparado. As tempestades política e econômica, também.

Os nicaraguenses temem a construção do canal tanto por sua escala quanto pela opacidade. De oito possíveis percursos, ainda não se sabe qual seria o traçado final. O HKND anunciou sete vezes a data para a divulgação do relatório final de impacto ambiental e social, mas ainda não o publicou.

O pouco que já está definido sobre o plano tampouco tranquiliza o país de 6 milhões de habitantes. A obra contempla a construção de uma cidade de 120 mil pessoas. O canal arrisca salinizar o Lago Cocibolca, comprometer fontes de água potável e alimentos e ainda ameaça 20 mil sítios arqueológicos nicaraguenses.

Nas duas pontas do canal, os recifes de corais e a fauna marítima vão correr perigo, segundo o Centro Humboldt, um grupo ambientalista centro-americano.

A preocupação maior é a viabilidade do canal. Enquanto Ortega se articula com seus novos melhores amigos chineses, a megarreforma do Canal do Panamá está adiantada e deve terminar no ano que vem.

Nele, não passarão os supercargueiros - cada um com quantidade de aço equivalente à da Torre Eiffel - e talvez nem precisem. Os analistas já projetam ociosidade da capacidade do Canal do Panamá, pois, com o ritmo modesto do comércio interoceânico, atualmente há muito canal para poucos navios.

O que fazer, então, com um segundo canal épico? Há quem diga que a pauta de Ortega não seria a construção daquele canal ou de nenhum outro. A meta real seria a reengenharia da legislação nacional, pré-requisito para essa ou qualquer obra de porte monstruoso.

É a Lei 780 e o Acordo Mestre de Concessão que conferem ao concessionário superpoderes para tocar obras, fazer regras, explorar, mandar e desmandar, como se fosse dono de um território independente. Com essa peça, a obra dos chineses vira um detalhe menor. Mas pode ser um canal promissor para as próximas ambições de Ortega, cuja reengenharia não para nunca.

* É colaborador da 'Bloomberg View' e colunista do 'Estado'

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