O carisma no qual os eleitores podem acreditar

Obama dependerá de característica, cuja origem é difícil definir

JOSEPH S. - NYE, O Estado de S.Paulo

15 de janeiro de 2012 | 03h05

Este ano, duas importantes autocracias empreenderão a transição de suas lideranças. Nenhuma das duas deve surpreender. Xi Jinping substituirá Hu Jintao na presidência da China, e, na Rússia, Vladimir Putin anunciou que assumirá a presidência hoje ocupada por Dmitri Medvedev. Entre as democracias mundiais, este ano os resultados políticos são menos previsíveis. Na França, Nicolas Sarkozy enfrenta uma difícil campanha para reeleger-se, assim como Barack Obama nos EUA.

Nas eleições presidenciais americanas de 2008, a imprensa disse que Obama venceu por causa de seu "carisma" - o poder peculiar de fascinar o público e inspirar lealdade. Se é assim, como é possível que sua reeleição seja incerta apenas quatro anos mais tarde? Pode um líder perder o carisma? O carisma acaso origina-se no indivíduo, nos seguidores daquela pessoa ou da situação? As pesquisas mostram que ele nasce de uma mescla das três possibilidades.

É surpreendentemente difícil identificar o carisma de antemão. Uma sondagem recente concluiu que se sabe "relativamente pouco" a respeito de quem são os líderes carismáticos. Dick Morris, um consultor político americano, nota que, segundo sua experiência, "o carisma é a mais esquiva das características políticas, pois não existe concretamente, apenas na nossa percepção quando um candidato consegue ter sucesso graças a um árduo trabalho e a um bom programa". Do mesmo modo, a imprensa especializada em economia descreve muitos CEOs como "carismáticos" quando as coisas vão bem, e retira a qualificação quando os lucros caem.

Os cientistas políticos tentaram criar uma classificação para o carisma que permitiria prever o resultado da votação ou os índices de aprovação presidenciais, mas a coisa não se revelou frutífera. Entre os presidentes americanos, John F. Kennedy é descrito muitas vezes como carismático, mas obviamente não para todos, considerando que ele não conseguiu obter a maioria dos votos populares, e seus índices de aprovação variaram durante a presidência.

O sucessor de Kennedy, Lyndon Johnson, lamentava sua falta de carisma - isso a respeito de suas relações com o público. Mas ele conseguia ser uma personalidade de grande magnetismo - até mesmo irresistível - nos contatos pessoais. Um cuidadoso estudo da retórica presidencial afirma que, mesmo oradores famosos como Franklin Roosevelt e Ronald Reagan, não contaram com o carisma para pôr em prática seus programas.

O carisma é identificado mais facilmente após o fato. Neste sentido, o conceito é circular. É como o velho conceito chinês do "mandado celeste": dizia-se que os imperadores governavam porque o tinham, e quando eram derrubados, era porque o haviam perdido.

Mas ninguém podia prever quando isto ocorreria. Do mesmo modo, o sucesso é muitas vezes usado para provar - depois do fato - que um líder político moderno tem carisma. É muito mais difícil usar o critério do carisma para prever quem será um líder de sucesso.

Mudança. É mais provável que os seguidores atribuam o carisma aos líderes quando sentem uma forte necessidade de mudança, frequentemente no contexto de uma crise pessoal, organizacional ou social. Por exemplo, o público britânico não considerava Winston Churchill um líder carismático em 1939, mas, um ano mais tarde, sua visão, confiança e capacidade de comunicação conferiram-lhe carisma, por causa da ansiedade dos britânicos depois da queda da França. E então, em 1945, depois que, com a vitória na guerra, as atenções do público se voltaram para a criação do Estado do bem-estar social, Churchill foi derrotado e perdeu o cargo. Seu carisma não previu a derrota.

Na prática, o carisma é um sinônimo impreciso de "magnetismo pessoal". As pessoas têm capacidades variáveis de atrair os outros, e sua atração depende em parte de características que lhes são inerentes, em parte de habilidades adquiridas, e em parte do contexto social.

Algumas dimensões de atração pessoal, como a aparência e a comunicação não verbal, podem ser testadas. Vários estudos mostram que as pessoas consideradas atraentes recebem um tratamento mais favorável do que as pessoas não atraentes. Um estudo conclui que um homem bonito desfruta de uma vantagem em relação a um rival feio que recebe apenas de 6 a 8% dos votos. Para as mulheres, a vantagem chega a perto 10%.

Os sinais não verbais representam uma parte importante da comunicação humana, e experiências simples mostraram que algumas pessoas comunicam-se melhor do que outras de maneiras não verbais. Por exemplo, um estudo da Universidade de Princeton concluiu que quando eram mostradas às pessoas imagens de dois candidatos em eleições pouco conhecidas, elas conseguiam prever os vencedores sete vezes em dez. Um estudo semelhante realizado em Harvard, no qual foram mostrados às pessoas vídeo clipes mudos de dez segundos de duração de 58 eleições, concluiu que as previsões dos espectadores explicaram 20% da variação da votação entre os dois partidos - uma variável mais forte do que o desempenho econômico. Ironicamente, as previsões ficaram menos precisas quando o som foi ligado.

Nas eleições de 2008, os americanos estavam decepcionados com a guerra no Iraque e pela crise financeira que eclodira dois meses antes do pleito. Obama era um candidato jovem e atraente que falava bem e projetava uma sensação de esperança no futuro. É claro que esta foi uma das razões pelas quais Obama ganhou a fama de carisma.

Mas parte do seu carisma estava nos olhos dos seus seguidores. Às vezes, as pessoas falam que conseguem identificar o carisma "quando o veem", mas elas também olham num espelho. À medida que a economia foi afundando, o desemprego cresceu, e Obama teve de fazer confusos compromissos para governar, o espelho foi ficando mais embaçado.

O carisma diz alguma coisa a respeito do candidato, mas nos diz ainda mais a respeito de nós mesmos, do espírito do nosso país, e das mudanças que desejamos. As dificuldades econômicas tornam mais difícil preservar o carisma. Obama enfrenta os persistentes desafios do desemprego e ainda uma oposição republicana recalcitrante, e Sarkozy terá de superar problemas semelhantes. Mas, quando começarem a campanha, sua retórica estará livre da necessidade do compromisso. As eleições deste ano serão o verdadeiro teste do carisma de ambos. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

 

* É PROFESSOR EM HARVARD, EX-SECRETÁRIO DE DEFESA DOS EUA E ESCRITOR

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