REUTERS/Goran Tomasevic
REUTERS/Goran Tomasevic

O castigo aos filhos do Estado Islâmico no Iraque

Governo detém mulheres e crianças ligadas a militantes em campo em Mossul, segundo ONG

Luiz Raatz, O Estado de S.Paulo

16 Setembro 2017 | 05h00

Entidades de defesa dos direitos humanos denunciaram a existência de um campo de detenção de parentes de militantes do Estado Islâmico nos arredores de Mossul, no Iraque, com 1,4 mil mulheres e crianças. A maior preocupação de entidades como a Human Rights Watch (HRW) é o destino dos menores, que por serem filhos de estrangeiros, com menos de 3 anos de idade, não têm cidadania alguma. 

Tanto a HRW quanto a ONG Conselho Norueguês para Refugiados (CNR) documentaram a existência do campo e alertam que, apesar de as 1,4 mil pessoas terem sido detidas por vínculos com o EI, elas não têm tido acesso a ajuda humanitária e são guardadas por autoridades militares. 

“A HRW viajou nos dias 10 e 11 para o campo estabelecido para abrigar pessoas deslocadas pela operação em Mossul, onde encontramos 1,4 mil mulheres e crianças, todas mantidas ali contra sua vontade”, disse ao [BOLD]Estado[/BOLD] a investigadora da HRW Belkis Wille.

O campo fica em Haman al-Alil, a 30 quilômetros de Mossul, libertada em agosto por forças iraquianas. Há mulheres vindas de Azerbaijão, Síria, Turquia e até de Trinidad e Tobago no local, segundo Belkis Willie, investigadora da HRW na região. Há relatos de argelinas, francesas e alemãs no campo. 

“Alguns países podem entrar em contato com autoridades iraquianas para repatriar essas mulheres, mas alguns simplesmente não as querem de volta por seus vínculos com o EI”, afirmou. “O problema mesmo são os filhos dessas mulheres, que não têm cidadania iraquiana nem de nenhum outro país. Não sabemos ao certo quantos são, mas estima-se que metade da população do campo.”

As estrangeiras deixaram seus países de origem para ir para o Iraque e casar com militantes do EI. Com a reconquista de Mossul, foram detidas e enviada para o campo. Muitas delas viviam em Tal Afar, na fronteira com a Síria, conquistada por tropas iraquianas no fim de agosto. Há também idosos e deficientes no campo, segundo a ONG norueguesa. 

Em junho, o conselho de governo de Mossul emitiu um decreto no qual orientou parentes de militantes do EI a buscar reabilitação psicológica e ideológica. O governo iraquiano chegou a abrir em Bartallah um campo para famílias de militantes do grupo radical há alguns meses, mas ele foi fechado. 

A investigadora da HRW alerta que diversas iraquianas que se casaram com terroristas do EI estão em situação similar. “Essas famílias iraquianas estão em vários campos por todo o Iraque, seja em situação isolada ou com outros desalojados”, disse Belkis. “Mas, ao contrário deles, elas não têm o direito à livre movimentação.”

Legalmente, elas podem ser julgadas por cumplicidade aos crimes do grupo, mas a HRW ressalta a necessidade de elas terem um julgamento justo e os direitos respeitados. “Estados têm o direito de prender suspeitos. Se o governo do Iraque deteve essas pessoas por entrarem no país ilegalmente ou por fazer parte do EI, as autoridades podem fazer isso, desde que haja respeito ao devido processo. No entanto, a questão das crianças é especialmente preocupante”, concluiu Belkis. “Seria bastante difícil considerar essas crianças cúmplices do Estado Islâmico.”

Desde 2014, quando o líder do EI, Abu Bakr al-Baghdadi, proclamou o califado em partes do Iraque e da Síria, milhares de mulheres se juntaram ao grupo e se casaram com militantes do EI. Raramente, no entanto, elas tomavam parte em combates e dedicavam-se principalmente à vida familiar.

Ultimamente, de acordo com estudos de entidades dedicadas ao monitoramento do terrorismo, mulheres também têm se somado ao Estado Islâmico para praticar atentados e combater em fileiras do grupo no Oriente Médio e no Norte da África. 

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