David Mdzinarishvili/Reuters
David Mdzinarishvili/Reuters

O Cáucaso à beira da guerra

Terrorismo, separatismo e interesses geopolíticos de russos e americanos elevam a tensão na região

Jamil Chade ENVIADO ESPECIAL SUKHUMI, ABKHÁZIA, O Estado de S.Paulo

18 de outubro de 2010 | 00h00

O chanceler da Abkházia, Maxim Gundjia, recebeu a reportagem do Estado em seu gabinete. Poucas horas após a entrevista, a casa do vice-presidente do país, Alexandre Ankvab, foi atingida por um morteiro. Ele sobreviveu de forma milagrosa. Seu assassinato poderia ter desencadeado um novo conflito numa região que está sendo alvo de uma disputa silenciosa entre Moscou e Washington. "O Cáucaso está a beira de uma guerra e o mundo precisa saber disso", disse Gundjia.

A região foi palco de um conflito em 2008, quando a Geórgia invadiu a Ossétia do Sul, que ela considera uma província rebelde, causando uma violenta reação russa. O Kremlin expulsou as tropas georgianas e acusou Washington de ter patrocinado a intervenção. O conflito se espalhou para a Abkházia, que travou cinco guerras pela independência contra a Geórgia desde 1992.

O Cáucaso é o centro de uma batalha pelo geopolítica. Para governos, especialistas e simples cidadãos, não há como negar que a tensão é alta e a situação está prestes a explodir mais uma vez. "Em 2008, encontramos armas que os georgianos deixaram e estava claro que eram americanas e europeias. Agora, pelas informações que recebemos, eles já se rearmaram e tentarão reconquistar o que perderam", afirmou Gundjia. "Em 2008, sentamos com Javier Solana (então chefe da diplomacia da UE) e dissemos que tínhamos informações de que a Geórgia atacaria. Ninguém nos ouviu. Agora, estamos dizendo mais uma vez."

O conflito em 2008 foi o pretexto para que Moscou ocupasse a região e reconhecesse Abkházia e Ossétia do Sul como novos países, uma reivindicação antiga. Na prática, ambos dependem completamente do Kremlin para sobreviver. "A principal fonte de renda do país é o governo russo", afirma Beslam Baratelia, professor de economia da Universidade de Sukhumi, capital da Abkházia. Segundo ele, US$ 100 milhões por ano são enviados de Moscou para manter os órgãos públicos, pagar salários de ministros e fazer o Estado funcionar.

No entanto, nem todo o mundo está satisfeito. "Há uma certa desilusão em relação aos russos", explicou Irakli Khintba, pesquisador do Centro para Programas Humanitários de Sukhumi. "Todos achavam que, após o aval russo, as portas estariam abertas para um reconhecimento internacional. Não foi isso que aconteceu." Até agora, apenas quatro países reconhecem a Abkházia - Rússia, Venezuela, Nicarágua e Nauru -, que, na prática, se tornou um protetorado russo, com 3 mil soldados do Kremlin no território.

A situação ficou ainda mais tensa há dois meses, quando os russos instalaram na região um sistema de mísseis. Na Geórgia, o presidente Mikhail Saakashvili reuniu-se com a secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton, para fechar os detalhes de um acordo estratégico entre os dois países.

"O governo americano está lançando uma política contra nossa independência, que inclui congelar nosso dinheiro no exterior", acusou o chanceler. Segundo ele, uma viagem do presidente da Abkházia à Venezuela, em julho, quase teve de ser cancelada por causa da recusa americana em autorizar uma transferência bancária para pagar o avião.

"Estamos vendo um fortalecimento da posição americana no Cáucaso, criando uma espécie de cinturão para frear a Rússia. A Geórgia está sendo usada. Há bases bases americanas que podem ser empregadas em um ataque ao Irã. Se isto ocorrer, significará uma guerra no Cáucaso", disse.

Saakashvili prefere atacar Moscou. "Temos de deixar de ser vassalos e não podemos sucumbir à anexação", afirmou. Em seu discurso na Assembleia-Geral da ONU, ele defendeu uma união do Cáucaso e pediu que a Rússia abandone a região. "Há uma ocupação ilegal ocorrendo para destruir a democracia. A Rússia tem uma escolha. Ou faz parte de uma transformação ou ela ocorrerá sem vocês."

O presidente da Abkhazia, Sergei Bagapsh, respondeu. "Saakashvili continua com sua política beligerante. Ele não entendeu que não aceitamos mais fazer parte da Geórgia", disse Bagapsh, que insinuou a participação georgiana no atentado contra o vice-presidente.

A tensão vai além da Geórgia. Os russos temem o crescimento de grupos insurgentes islâmicos na região.Segundo o procurador russo, Artem Melnikov, mais de 50 ataques terroristas foram frustrados desde o começo do ano no Cáucaso, mas outros 246 não foram evitados. Em nove meses, 800 quilos de explosivos foram apreendidos e 140 bombas desativadas. Em 2010, a guerra contra o terror fez 160 mortos e mais de 200 pessoas foram presas.

PARA LEMBRAR

Em 7 de agosto de 2008, tropas da Geórgia entraram na Ossétia do Sul, região separatista que funciona como entidade independente desde a queda da União Soviética. Elas não conseguiram tomar controle da capital, Tskhinvali, a 35 km da fronteira com a Rússia. Na manhã seguinte, forças russas entraram na Ossétia para expulsar os georgianos, e chegaram a tomar cidades da Geórgia dias depois. Dada a velocidade da reação, a Rússia estava esperando o ataque e tinha soldados a postos. Os dois países assinaram um cessar-fogo mediado pela União Europeia, mas militares russos permanecem na Ossétia e na Abkházia. A independência das duas foi reconhecida pela Rússia após a guerra, e por mais três países. A tensão permanece alta na região.

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