Cláudia Trevisan / Estadão
Cláudia Trevisan / Estadão

O ceticismo de quem fugiu da ditadura norte-coreana

Dissidentes norte-coreanos duvidam que Kim Jong-un abra mão de arsenal nuclear

Cláudia Trevisan, Correspondente / Washington, O Estado de S.Paulo

29 Abril 2018 | 05h00

WASHINGTON - Han perdeu a mãe e dois de seus seis filhos para a fome que assolou a Coreia do Norte nos anos 90. Seu marido foi preso quando buscava comida e torturado até a morte. Depois de quatro fugas para a China seguidas de deportações, ela conseguiu deixar o país em 2008 com suas duas filhas. De seu apartamento nas imediações de Washington, ela vê as cúpulas de Kim Jong-un com o sul-coreano Moon Jae-in e o americano Donald Trump como uma perda de tempo.

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“Isso só dará crédito a Kim perante o povo norte-coreano, que não ganhará nada. Ele está em um beco e quer ganhar tempo para sair dele”, disse ela, que não quis ser identificada com o nome completo. A filha mais nova de Han, Grace Jo, também é cética em relação às negociações. “A Coreia do Norte nunca vai abrir mão de suas armas nucleares. Kim acredita que essa é a única coisa que protege o regime dos EUA e do mundo. É por isso que colocaram tanto dinheiro no desenvolvimento do programa, à custa da fome da população”, afirmou Grace, que é vice-presidente da entidade NK in USA, que dá apoio a refugiados norte-coreanos.

Sobrevivência

A demonização dos Estados Unidos e a apresentação do arsenal nuclear como algo vital para a sobrevivência da Coreia do Norte estão no coração da propaganda da dinastia Kim, que permeia todos os aspectos da vida dos norte-coreanos desde a escola primária. Isso coloca um outro obstáculo para uma eventual mudança na posição e na retórica do regime: convencer os próprios cidadãos e soldados de que a retórica dos últimos 70 anos não faz mais sentido. Kim teria de doutrinar não só a população civil, mas o 1,2 milhão de integrantes do Exército Popular da Coreia, observou o general da reserva da Coreia do Sul Chun In-bum. Para ele, o ditador que assumiu o poder em dezembro de 2011 quer usar as conversas para ganhar tempo e algum fôlego em meio ao aperto das sanções econômicas, mas não tem nenhuma intenção de abrir mão de seu arsenal nuclear.

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Alex integrou o governo da Coreia do Norte durante o período de Kim Jong-il, o pai do atual ditador. Membro da elite norte-coreana, ele viajou e serviu no exterior, onde começou a duvidar da propaganda oficial. “Na primeira vez em que estive em um aeroporto internacional da Coreia do Sul eu vi que o que escutava não era verdade. A propaganda nos dizia que a Coreia do Sul era muito pobre e precisava de ajuda da Coreia do Norte”, disse Alex, que não usa seu nome verdadeiro por questões de segurança.

Em 2001, ele desertou para o Sul e, mais tarde, se mudou para os Estados Unidos. “Isolados, os norte-coreanos são como esponjas secas. Quando vão para o exterior, querem absorver toda a informação que recebem.” Como Han e Grace, ele não acredita na sinceridade das declarações de Kim de que está disposto a “desnuclearizar” a Península Coreana. Tampouco vê como provável a normalização das relações com os Estados Unidos.

“No primeiro livro que recebemos na escola primária há desenhos que retratam uma Igreja Cristã, um pastor americano e um pé de maçã. Quando uma criança norte-coreana pega uma maçã caída no chão, ela é torturada pelo pastor, que grava a fogo em sua testa a palavra ladrão. Desde o começo nós somos ensinados a odiar os EUA, a Igreja e o cristianismo.”

 

A doutrinação continua ao longo da vida e inclui a visita obrigatória ao Museu Sinchon sobre Atrocidades na Guerra, que retrata abusos reais e imaginários cometidos pelos soldados dos EUA nos três anos de conflito. A Coreia do Norte foi alvo de incessantes bombardeios e ataques com napalm em áreas civis, que dizimaram 20% da população, segundo estimativa de militares americanos.

Apertos de mão históricos que mudaram o mundo

Quando tinha 6 anos, Grace fugiu da Coreia do Norte com a mãe e a irmã mais velha, Jinhye Jo. Na China, foram detidas e deportadas para o país de origem. As filhas foram para um orfanato, enquanto a mãe foi presa. Alguns anos mais tarde, elas voltaram a fugir para a China, onde começaram a escrever para ativistas em busca de apoio para a obtenção de status de refugiadas. Descobertas pela polícia, elas passaram 13 meses detidas em uma cidade próxima à fronteira com a Coreia do Norte. Em 2008, conseguiram ir para os EUA com apoio do programa de refugiados da Organização das Nações Unidas (ONU).

Grace tinha 15 anos quando desembarcou em Seattle. Hoje, ela estuda biologia, trabalha em um consultório dentário e sonha em se tornar dentista.

Analistas

O ceticismo dos norte-coreanos é compartilhado por grande parte dos analistas que acompanham a região. Em nota divulgada depois do encontro entre Kim e o presidente sul-coreano, Moon Jae-in, na sexta-feira, a consultoria de risco político Eurasia estimou em 5% a probabilidade de desnuclearização da Península Coreana antes do fim do mandato do presidente Donald Trump, em janeiro de 2021. As chances sobem para 15% na gestão que virá em seguida. Nas próximas semanas, será a vez do ocupante da Casa Branca se reunir com Kim, na primeira cúpula da história entre dirigentes dos dois países.

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Acadêmica do Wilson Center, a jornalista Jean Lee cobriu durante anos a Península Coreana e chefiou o escritório da Associated Press em Pyongyang, o único meio de imprensa ocidental autorizado a funcionar no país de Kim. Em evento no Wilson Center, ela disse estar “preocupada” em relação aos prospectos da cúpula com Trump. “Há um grande potencial de os americanos serem manipulados, porque a Coreia do Norte conhece esse assunto. Eles têm lidado com os americanos (há tempo), enquanto do lado dos EUA, nós temos a falta de experiência e, francamente, de compreensão de quem os norte-coreanos são, do que eles querem e de como falar com eles.”

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