EFE/EPA/Ken Cedeno / POOL
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O chamado à realidade aos democratas após as derrotas nas eleições da terça-feira; leia análise

Resultado não foi uma surpresa completa, mas impacto acendeu alertas em todo o partido

Dan Balz*, The Washington Post, O Estado de S.Paulo

04 de novembro de 2021 | 05h00

Os democratas despertaram nesta quarta-feira, 3, frente um chamado à realidade. Um ano depois de celebrar a vitória nas eleições de 2020, suas minguadas maiorias legislativas correm agora mais risco do que eles temiam, e não está claro se o presidente Biden ou seu partido possuem algum plano exequível para reequilibrar um ambiente político pendendo significativamente contra eles.

A vitória do republicano Glenn Youngkin sobre o democrata Terry McAuliffe na eleição para o governo da Virgínia não foi uma surpresa completa. Democratas nervosos tinham a sensação de que isso aconteceria há semanas. Mas o impacto total da derrota em um Estado em que Biden venceu por 10 pontos percentuais apenas 12 meses atrás, juntamente com uma corrida muito mais apertada do que o esperado para o governo de Nova Jersey, onde Biden venceu por 16 pontos, acendeu alertas por todo o partido.

No ano que vem, todo o Partido Democrata encarará os eleitores, com os republicanos mais confiantes do que nunca em relação a temas como educação, inflação e imigração, assim como a respeito de sua estratégia e forte determinação em tirar poder dos democratas na Câmara dos Deputados e no Senado; e, desta maneira, causar um curto-circuito nos dois anos restantes do primeiro mandato de Biden. A velocidade com que os democratas absorverem os resultados da terça-feira e iniciarem sua resposta determinará se eles serão capazes ou não de evitar derrotas esperadas nas próximas eleições legislativas de meio de mandato.

É sempre dito que pode-se exagerar na interpretação dos resultados dessas eleições fora de época. Talvez tenha sido culpa simplesmente dos padrões históricos da Virgínia, que por décadas tem visto o partido ocupante da Casa Branca perder a disputa por seu governo. McAuliffe, em 2013, foi a única exceção. De maneira similar, o governador democrata de Nova Jersey, Phil Murphy, que enfrentou uma disputa acirrada com o republicano Jack Ciattarelli, encarava um histórico de incumbentes democratas com dificuldades para conquistar um segundo mandato.

Mas seria uma imprudência por parte dos democratas subestimar o que aconteceu na terça-feira. Perder um Estado como a Virgínia, que tem tendido ao Partido Democrata há uma década, e ter tanta dificuldade em Nova Jersey sugere que, a não ser que as coisas mudem, somente os Estados e distritos mais democratas estarão a salvo em 2022.

Fatores nacionais e locais contribuíram para os resultados da terça-feira. Os índices de aprovação em queda de Biden e o fracasso dos democratas em, após meses de negociação, aprovar dois dos principais elementos da agenda legislativa doméstica de Biden colaboraram. Assim como poderosos temas locais, como educação e segurança pública, que trabalharam a favor dos republicanos. Preocupações com a inflação anularam as alegações de Biden a respeito de progresso econômico. Na Virgínia, Youngkin, um novato na política, provou ser um candidato mais hábil do que o ex-governador McAuliffe, cuja campanha tratou igualmente de questões passadas e futuras.

A sorte de McAuliffe mudou no mesmo momento em que os índices de aprovação de Biden começaram a despencar, no fim do verão. Seja por causa da retirada caótica do Afeganistão, da ausência de ação dos congressistas democratas ou de um público apavorado e frustrado com a variante Delta do coronavírus, que levou a uma alta em novos casos de covid-19 e hospitalizações e mortes pela doença, os eleitores começaram a olhar para o presidente sob uma perspectiva menos favorável. Na terça-feira, na Virgínia, o índice de aprovação de Biden era de 45% e o de desaprovação, 54%, de acordo com resultados preliminares de pesquisas de boca de urna, não significativamente melhores do que as de Trump, que registaram 42% de aprovação e 54% de reprovação.

Taxas de aprovação de presidentes oscilam. Raro é o presidente que não sofre reveses e depois, em muitos casos, retoma sua popularidade. Isso aconteceu com Ronald Reagan, Bill Clinton e Barack Obama, apesar de somente após seus partidos sofrerem significativas derrotas em eleições de meio de mandato. Se os democratas acertarem seu passo no Congresso e a pandemia aliviar significativamente, é possível que o público comece a considerar mais positivamente o presidente e seu partido, apesar de seus problemas irem além disso.

Isso, porém, só acontecerá se esses elementos se somarem. A equipe de Biden continua confiante de que o Congresso aprovará tanto seu pacote de infraestrutura quanto seu pacote ainda maior de gastos sociais e iniciativas climáticas e que, com essas vitórias, a economia melhorará o suficiente para dar aos democratas algo positivo para dizer no ano que vem. Neste momento, com a inflação causando preocupação em muitos eleitores, a economia está ajudando o Partido Republicano. Na terça-feira, um terço dos eleitores da Virgínia afirmou que a economia é o principal tema que definiu seu voto, de acordo com resultados preliminares de pesquisas de boca de urna, e Youngkin estava concentrando a maioria desses eleitores.

Mesmo se o Congresso aprovar o restante da pauta de gastos domésticos de Biden, outros desafios estão à espreita. Ainda pendentes estão assuntos como direitos eleitorais, imigração, reforma da polícia e do futuro da obstrução legislativa, todos elementos que ameaçam novamente dividir o Partido Democrata.

Educação, normalmente um campo em que os democratas são fortes, emergiu como um tema potente para Youngkin, e outros republicanos certamente tentarão replicar seu sucesso. O tema engloba de tudo, de questões curriculares até frustrações relativas ao fechamento das escolas durante a pior parte da pandemia, que furtou os estudantes de preciosos meses de ensino em sala de aula. Os democratas não encontraram uma maneira efetiva de debater esses assuntos.

Não somente Virgínia e Nova Jersey sugeriram que os democratas precisarão se reagrupar. Em eleições por todo o país, houve sinais de que os eleitores consideram que o partido se moveu demais para a esquerda, mesmo com sua ala progressista dando demonstrações de força.

Na Virgínia, segundo pesquisas de boca de urna, a maioria dos eleitores afirmou que o partido está liberal demais. Os novaiorquinos elegeram o democrata Eric Adams seu novo prefeito após uma campanha na qual ele colocou a segurança pública como prioridade e se apresentou como mais centrista do que liberal. Em Minneapolis, os eleitores derrotaram uma proposta de desmantelar o departamento de polícia, um ano depois de o movimento Black Lives Matter ter elevado o tema da reforma da polícia ao topo da agenda progressista. Em Buffalo, o prefeito Byron Brown, que perdeu a primária para a socialista India Walton, parece ter sido reeleito como candidato independente.

David Plouffe, que ajudou a guiar Obama em suas duas vitórias eleitorais e sabe como as derrotas de 2009, em Nova Jersey e na Virgínia, se anteciparam a uma derrocada do partido em 2010, fez um aviso sombrio aos democratas enquanto os votos eram contados. Em comentários à MSNBC, ele qualificou o atual ambiente como “sombrio e desolador”, acrescentando que, “estou convencido de que a coisa vai melhorar nos próximos 12 meses, mas agora a coisa vai bem mal”. Se as coisas não melhorarem, afirmou ele, os democratas poderiam viver um pesadelo em novembro do ano que vem.

As maneiras como McAuliffe e Youngkin administraram suas campanhas deram pistas adicionais a respeito do próximo ano. McAuliffe, preocupado com a complacência dos democratas, pediu uma reedição das campanhas democratas dos anos sob Trump, invocando o fantasma do ex-presidente em todas as oportunidades que teve e qualificando Youngkin como um clone de Trump. O comparecimento às urnas não foi um problema na Virgínia, um recorde foi estabelecido para eleições estatuais. Foram os eleitores que resolveram votar e a maneira como eles votaram que afundaram McAuliffe e outros candidatos democratas.

Os democratas avançaram consistentemente nos subúrbios durante a presidência de Trump, mas Youngkin reduziu a diferença nos subúrbios, um sucesso que, se repetido em todo o país em novembro do ano que vem, poderá surtir consequências devastadoras no partido de Biden. No Condado de Loudoun, por exemplo, Youngkin ficou cerca de 10 pontos percentuais atrás de McAuliffe, depois de Biden vencer no condado por 25 pontos, e do governador democrata Ralph Northam vencer por 20 pontos em 2017.

Enquanto isso, Youngkin obteve margens expressivas em alguns dos menores e mais republicanos condados da Virgínia. O resultado destacou novamente o quanto o apoio aos democratas caiu nas cidades menores e áreas rurais do país. Isso traz significativas consequências de longo prazo para as eleições do congresso e do legislativo a não ser que os democratas encontrem uma estratégia eficaz para alcançar o eleitorado dessas áreas, coisa que, no momento, eles não têm.

Youngkin também deu aos republicanos um possível mapa para lidar com uma coalizão que inclui defensores de Trump e os antagonistas dele. Youngkin aceitou de bom grado o apoio de Trump e ecoou alguns dos posicionamentos dele, chegando a aceitar a alegação de que a eleição foi roubada ao destacar a necessidade de mais integridade no processo eleitoral. Mas, no geral, ele manteve sua distância em relação ao ex-presidente.

Essa disputa não será a palavra final a respeito do quanto os republicanos são capazes de evitar que Trump lhes custe votos no futuro, com muitas primárias republicanas do ano que vem consistindo em uma disputa para ver quem imita melhor o ex-presidente, com o potencial de inchar o partido com candidatos que terão dificuldade em vencer uma eleição geral.

Pouco depois da uma hora da madrugada de quarta feira, Biden aterrissou na Base Andrews voltando de sua viagem pela Europa, exatamente enquanto Youngkin fazia seu discurso da vitória. O recado das imagens exibidas lado a lado na televisão era claro para os espectadores. Um presidente que esperava que sua viagem ao exterior reforçasse sua posição doméstica estava voltando para enfrentar desafios ainda maiores.

A prioridade de Biden será trazer um rápido desfecho para o debate envolvendo seus gastos sociais e a lei climática, forçando votações na câmara e no senado. Esse será apenas o começo do trabalho exigido por seu partido agora ansioso. Os democratas temiam uma longa noite na terça feira. O resultado foi ainda pior do que eles temiam.

*É CORRESPONDENTE-CHEFE

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