O charuto é para os cidadãos cubanos?

Meu avô mascava folhas de tabaco. Ele o mordia e o umedecia com sua saliva, num ritual obsessivo que o acompanhava durante o dia todo. Tinha também um cachimbo, que enchia de fumo picado que ele mesmo preparava e usava somente após as refeições.

Yoani Sánchez, O Estado de S.Paulo

24 de fevereiro de 2013 | 02h07

Meu avô pertenceu àquela geração que cresceu vendo os famosos astros de Hollywood fumando nas telas de cinema e os imitava desde que se sentou numa sala de cinema.

Meu avô em nada se parecia com Humphrey Bogart, com seu cigarro de galã irresistível em Casablanca. Tampouco com Marlon Brando, envolto naquela nociva fumaça de nicotina e sensualidade. Porque, diferente daqueles homens glamourosos, Basilio Eliseo era um cubano rude, com as mãos cheias de calos e incapaz de escrever uma frase completa. Mas partilhava com aqueles personagens tão célebres o prazer de um bom "puro". O aroma que emanava do seu charuto - quase chego a senti-lo - era uma mescla de suor com nicotina que ficava no ar depois de ele ter partido.

Para os cubanos que ainda apreciam os charutos cubanos hoje é complicado satisfazer essa vontade. O mercado em pesos conversíveis absorveu a maior parte da produção que agora é comercializada a preços estratosféricos em luxuosas tabacarias especializadas. Diante dos atônitos pedestres, cujos salários mensais mal superam os 20, são exibidas nas vitrines caixas de Romeu e Julieta com valor equivalente ao salário de um ano inteiro, ou um único Cohiba ao custo de 20 dias de trabalho.

A oferta de charutos em moeda nacional a um preço acessível para as massas está praticamente em extinção. Em parte porque os hábeis comerciantes do mercado ilegal os monopolizaram, mudando as cintas e vendendo aos turistas como se fossem da mais alta qualidade. E também porque o Estado não tem mais interesse em vender aos cidadãos um produto que prefere exportar e arrecadar uma boa receita.

Contudo, indo mais além das considerações mercantis ou mesmo médicas, o certo é que a imagem de um idoso cubano com um charuto nos lábios está se transformando numa espécie de cartaz publicitário e propaganda comercial. Nem um aposentado, tampouco um profissional ativo - seja qual for sua especialidade - pode se dar o luxo de comprar um charuto de qualidade a um preço que tenha alguma relação com o que recebe como salário. Trata-se de um produto típico nacional transformado em troféu para visitantes estrangeiros.

Exceto os cultivadores que reservam algumas folhas para o próprio consumo ou de sua família, cada vez menos compatriotas podem fumar um charuto cubano. E não se trata de defender este hábito nocivo para os pulmões e prejudicial para o bolso, mas reconhecer que o chamado charuto cubano, ao contrário do que pensam tantos estrangeiros, não é mais um produto para os que vivem nesta ilha. A imagem do meu avô Eliseo mastigando as folhas de tabaco ou enchendo o fornilho do cachimbo é apenas essa: uma imagem repleta de anacronismos nos dias de hoje. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO  YOANI SÁNCHEZ, É JORNALISTA CUBANA, COLUNISTA DO ESTADO, AUTORA DO BLOG GENERACIÓN Y

 

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