O Chile tem lições para dar aos EUA e à América Latina

País é exemplo de superação, responsabilidade e ousadia

Jeffrey D. Sachs The International Herald Tribune, O Estado de S.Paulo

22 de outubro de 2010 | 00h00

O eletrizante resgate dos 33 mineiros chilenos mostrou um país resoluto em ação. Essa foi a segunda crise seguida do Chile, atingido pelo terremoto de fevereiro. Em ambos os casos, o país uniu-se em torno de uma resposta rápida e efetiva.

O Chile já está em ascensão pelo tempo de uma geração, depois de uma era de desastre, mostrando mais uma vez que países podem, ocasionalmente, aprender com seus insucessos trágicos. Pensem, por exemplo, em como a Alemanha conserva um padrão de prudência fiscal 87 anos depois de sua infame hiperinflação.

Numa visita recente a Santiago, vi como o Chile aprendeu algumas lições profundas de moderação, cooperação e inovação após uma era desastrosa de extremismo político e ditadura militar nos anos 70 e 80. O Chile é importante. É a economia mais competitiva da América Latina, situada na posição mais alta do ranking anual de competitividade do Fórum Econômico Mundial (30.ª em termos globais, bem à frente de qualquer vizinho).

O Chile tem uma das economias mais ricas da região, com uma renda per capita maior do que as de Argentina e Brasil. É um caso exemplar de reformas e, provavelmente, será uma importante ponte econômica, comercial e financeira entre a China e a América Latina.

É evidente que qualquer viagem dos EUA a um mercado emergente é propícia ao otimismo hoje em dia. A política americana está mais deprimente do que nunca, repleta de mediocridades, papagaiando insanidades sobre cortes de impostos enquanto a economia afunda em dívidas.

Minha viagem ao Chile, porém, teve um prazer especial por três aspectos. O primeiro é pessoal: aceitar um convite de um prezado ex-colega de classe, o presidente Sebastian Piñera, e de um ex-aluno brilhante e coautor, o ministro das Finanças, Felipe Larrain. O segundo: ver uma economia que funciona. Apesar do terremoto devastador, em fevereiro, um dos mais poderosos da história, e de um forte desaquecimento depois da crise financeira de Wall Street, em 2008, a economia chilena está em rápida expansão e parece pronta para sustentar um crescimento anual de pelo menos 6% na próxima década. O terceiro é igualmente empolgante: ver um sistema político que funciona de novo após um colapso devastador.

Moderação. O Chile passou pela agonia do golpe militar brutal de Augusto Pinochet, em 1973, numa sociedade que havia sido dilacerada pelos extremismos de esquerda e direita. Seguiram-se 17 anos de feroz ditadura. As melhorias econômicas, nos anos finais do regime, não poderiam curar por si a sociedade profundamente ferida e dividida.

Chilenos de todas as camadas da sociedade perceberam, após 1990, o valor da moderação, da confiança, do respeito pela experiência e pela busca da verdade na gestão pública. Nos EUA, ao contrário, a propaganda política está ficando cada vez mais extremada. A demonização de Barack Obama pela direita, como alguém que é estrangeiro, islâmico e socialista, brinca cinicamente com o ódio. Os chilenos sabem como esse é o caminho para a ruína.

Houve cinco presidentes no Chile desde Pinochet: Patricio Aylwin, Eduardo Frei, Ricardo Lagos, Michelle Bachelet e Piñera. Todos são imensamente talentosos e moderados. O Chile não manifestou nenhuma divisão rancorosa, tampouco algum escândalo significativo de corrupção em duas décadas.

Esses líderes foram repetidamente chamados para obrigações globais. Ricardo Lagos é o enviado da ONU para mudanças climáticas. Bachelet acaba de ser nomeada para chefiar a ONU Mulheres, nova organização para promover direitos das mulheres.

O Bric (Brasil, Rússia, Índia e China) deveria, na verdade, ser o "Bricc", com o Chile ao lado da China. Pequim é o principal parceiro comercial do Chile. Santiago, por sua vez, deve se tornar o centro das operações comerciais entre a China e boa parte da América do Sul. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

É ECONOMISTA

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