/ AFP PHOTO / Brendan Smialowski
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O clima, a China e a UE

Isolamento de Trump contribui para redesenho de uma nova ordem mundial

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

03 de junho de 2017 | 05h00

O discurso de Donald Trump no esplêndido jardim da Casa Branca desencadeou um imenso bombardeio. Desde ontem os disparos não cessam contra o presidente americano e cada um procura as frases mais humilhantes para denunciar a saída dos Estados Unidos do Acordo de Paris.

Esse tumulto mundial é compreensível. Será exagerado? Daqui a algumas semanas nos daremos conta de que, afinal, essa decisão violenta e repentina de Trump em favor do aquecimento do planeta será menos desastrosa do que se afirma?

No momento, o discurso de Trump teve um efeito tão forte que deveríamos compará-lo à chamada Deriva Continental - que seriam os movimento das massas continentais ao longo do tempo geológico da terra. Um continente se movimenta, se choca com outro, penetra no oceano ou no Mar Mediterrâneo, fazendo sair da terra os Alpes, inventando a Indonésia. Assim, Trump colocou em movimento todas as peças que compõem nossa geografia política e ninguém pode prever qual será a fisionomia do planeta quando o movimento desencadeado por ele esgotar suas ondas de choque.

Já podemos ver um esboço dessa deriva. Em Bruxelas, um alto dirigente da União Europeia recebeu um dos assessores do presidente chinês, Xi Jinping. O encontro estava previsto há algum tempo, mas agora muda de cor. A China se une à UE na luta contra a mudança climática, ou seja, também contra os EUA. Os dois enormes blocos geopolíticos fazem causa comum. A partir de agora, a liderança em matéria de clima passa para Pequim e Bruxelas. Os dirigentes europeus e chineses trabalharão juntos, por exemplo, para reunir os US$ 100 bilhões anuais para ajudar os países mais pobres a reduzir suas emissões de CO2.

Efeito colateral da bomba Trump: a União Europeia e a China comunista compartilham a mesma ideologia do livre-comércio, numa resposta ao “protecionismo de Trump”.

Esses deslocamentos de alianças funcionam não só no plano mundial, mas também no centro de cada subconjunto. Sabemos que a União Europeia vai mal, perde fôlego, tosse e caminha com dificuldade há anos. Forças centrífugas separam os países que juraram se reaproximar. O desafio de Trump teve o efeito automático de reduzir as dissensões no seio da União Europeia e eliminar as fissuras ali existentes. Trump funciona como uma cola.

O planeta está, talvez, às vésperas de uma mudança de software: aquele que existia até agora foi instalado no final da 2.ª Guerra, com Bretton Woods e o Plano Marshall pelo qual os EUA reconstruiriam a Europa morta. 

O antiamericanismo sempre persistiu sob as cinzas europeias. E, desde quinta-feira, está em júbilo. Trump é arrastado para a sarjeta. É um irresponsável, afirmam. Tem a fronte baixa e o cérebro estreito. É mentiroso, infantil, inconstante e sua filosofia é a do pequeno comerciante. Não vou me colocar na defesa dele porque todas essas características são bem reais.

Até onde vai essa deriva dos continentes desencadeada pela fala mesquinha de Trump? Talvez até a formação, entre o gigante americano e o gigante chinês, de um outro gigante, a Europa, agrupada ou não na União de Bruxelas. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

É CORRESPONDENTE EM PARIS

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