REUTERS/Luisa Gonzalez
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O colapso social após a deterioração econômica na Colômbia; leia a análise

Em 2020, o país teve o pior desempenho de seu PIB nos últimos cinquenta anos, com queda de 6,8%, e o desemprego atingiu o índice de 16,8% da população

Paulo Niccoli Ramirez, O Estado de S.Paulo

05 de maio de 2021 | 21h00

Considerada até a última década terreno fértil ao neoliberalismo e apresentada como exemplo a ser seguido na América Latina, a Colômbia apresentou no primeiro semestre de 2021 o esgotamento de suas finanças públicas, que conduziram o país a uma grave recessão - intensificada com a pandemia e com a ausência de políticas econômicas e sociais capazes de evitar a proliferação da pobreza.

Em 2020, a Colômbia teve o pior desempenho de seu PIB nos últimos cinquenta anos, com queda de 6,8%. O desemprego atingiu o índice de 16,8% da população. Cerca de 25 milhões de colombianos vivem na informalidade no mercado de trabalho e estima-se que 42,5% estejam na pobreza. O país é o terceiro país da América Latina com o maior número de mortos pela covid-19, com mais de 75 mil mortos, perdendo na região apenas para Brasil (410 mil) e México (220 mil).

Em 15 de abril, o presidente Iván Duque, com tendências neoliberais e de direita, propôs ao Congresso colombiano um pacote de reformas fiscais e tributárias, que aumentaram a sua impopularidade, principalmente entre a classe média atingida pela crise. O projeto propunha a arrecadação de US$ 6,3 bilhões entre os anos de 2022 até 2031 para a recuperação da economia. No entanto, previa o aumento de impostos sobre serviços e mercadorias, além do aumento do número de contribuintes do imposto de renda.

No domingo 2, Duque retrocedeu e retirou o projeto do Congresso após críticas da oposição de esquerda, de seus aliados e da população que saiu às ruas nas principais cidades do país, promovendo manifestações violentamente reprimidas por forças policiais. Após oito dias de protestos, conflitos campais, saques e depredações a bancos e mercados, cerca de 430 manifestantes foram presos, 24 pessoas morreram e ao todo 850 ficaram feridos entre civis e policiais.

Nas redes sociais, circulam centenas de vídeos que demonstram abusos das forças policiais. Militares foram convocados para fazer a segurança nas ruas. Nas principais cidades como Bogotá, Cali, Medellín e Barranquilla estão programadas novas manifestações para esta semana, apesar de o governo ter tomado medidas de restrição de circulação de pessoas devido à pandemia.

Os violentos protestos puseram fim ao clima de paz que foi construído pelos dois mandatos (2010-2018) do último presidente, Juan Manuel Santos, que promoveu o acordo de pacificação com as Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia), pondo fim a um conflito que durava mais de 50 anos.

Para Entender

O que está acontecendo na Colômbia e a reforma tributária no país

Proposta do governo de Iván Duque de ampliar impostos foi duramente rechaçada por diversos setores da sociedade colombiana, que reagiram com massivos protestos

No segundo semestre de 2020, alguns guerrilheiros dissidentes resolveram reorganizar o movimento revolucionário, porém de forma ainda muito incipiente devido às condições sanitárias. O atual ministro da defesa, Diego Molano, responsabilizou estes dissidentes pela organização das grandes manifestações de agora. No entanto, o argumento do governo não parece condizer com a realidade, pois as propostas do presidente Duque desagradaram não apenas os movimentos da oposição de esquerda, mas também a maioria da população, sobretudo a classe média e mesmo a maioria de seus próprios aliados.

Na segunda-feira 3, o presidente colombiano anunciou a demissão do ministro da fazenda, Alberto Carrasquilla. Esta atitude não reduziu as críticas ao governo, que hoje se encontra com pouco apoio popular e politicamente isolado. O descontentamento da sociedade colombiana se intensificou após as repressões policiais. Os manifestantes exigem o impeachment e a deposição de seu presidente.

Esses acontecimentos podem ser um prelúdio do que estar por vir na região e servir de alerta a outros países da América Latina que adotaram posturas neoliberais consideradas ineficazes no combate à recessão, como é o caso do Brasil de Bolsonaro, o Chile de Piñera e o Uruguai de Lacalle Pou. No início do ano, o Paraguai também passou por convulsões sociais devido à estagnação econômica, ao crescimento do número de infectados, mortos e problemas com a vacinação da população.

*Paulo Niccoli Ramirez é cientista político e professor da ESPM São Paulo

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