O começo de uma virada histórica na região

Quem acredita na necessidade de um Estado palestino e admira Israel deve prestar atenção

Thomas L. Friedman, THE NEW YORK TIMES *, O Estadao de S.Paulo

27 de janeiro de 2009 | 00h00

Pode me interromper se já tiver ouvido esta antes: "Este é o ano mais crítico para as relações diplomáticas entre israelenses e palestinos. Se não conseguirmos trazer de volta a diplomacia, será o fim da solução de dois Estados." Escutei isso quase anualmente durante os últimos 20 anos, e nunca acreditei. Bem, desta vez, estou acreditando.Estamos nos aproximando perigosamente do fechamento da janela de negociações, porque os dois principais opositores deste desfecho - o Hamas em Gaza e os colonos judeus na Cisjordânia - estiveram no controle. O Hamas está ocupado tornando inconcebível a solução de dois Estados, enquanto os colonos há muito trabalham para torná-la impossível.Se o Hamas seguir obtendo e fazendo uso de foguetes de alcance cada vez maior, não há como imaginar que Israel possa tolerar o controle palestino independente na Cisjordânia, pois um foguete disparado de lá poderia fechar o aeroporto de Tel-Aviv. E se os colonos judeus derem prosseguimento ao seu "crescimento natural", devorando a Cisjordânia, a solução também estará fora de questão. O que Israel precisa depois das eleições do dia 10 é um governo centrista de união que possa resistir à chantagem dos colonos e dos partidos de direita que os protegem, para manter aberta a possibilidade da aplicação da solução de dois Estados.Na ausência de uma resolução, o que teremos é um Israel escondido atrás de uma muralha, defendendo-se de um Estado fracassado em Gaza administrado pelo Hamas, um Estado fracassado no sul do Líbano administrado pelo Hezbollah, e um Estado fracassado em Ramallah administrado pelo Fatah. Assim, aqueles que acreditam na necessidade de um Estado palestino e aqueles que amam Israel devem começar a prestar atenção. Isto não é um teste. Estamos vivendo uma virada histórica.A nova equipe de Barack Obama enfrenta um desafio ainda maior porque a diplomacia no Oriente Médio foi transformada como resultado da desintegração regional posterior aos Acordos de Oslo - de três maneiras fundamentais.Em primeiro lugar, hoje um pacificador tem de ser ao mesmo tempo um construtor de nações e um negociador. Os palestinos chegaram a tal ponto de fragmentação que metade do esforço diplomático será dedicada ao estabelecimento da paz entre os palestinos e à construção de suas instituições.Em segundo lugar, o Hamas agora exerce poder de veto sobre qualquer acordo de paz negociado pelos palestinos. A Autoridade Palestina na Cisjordânia não fará acordos de concessão a Israel enquanto temer que o Hamas, do lado de fora das negociações, possa denunciá-los como traidores. Assim, o segundo trabalho dos EUA, de Israel e dos países árabes é encontrar uma maneira de trazer o Hamas para um governo palestino de união nacional. Precisaremos que a Arábia Saudita e o Egito exerçam pressão sobre o Hamas para que este mantenha o cessar-fogo, apoie a paz e desista dos foguetes - enquanto o Irã e a Síria tentam influenciar o Hamas no sentido contrário.E isso leva a um terceiro fator - a posição-chave ocupada pelo Irã nas relações diplomáticas entre israelenses e palestinos. A equipe de Obama, segundo o raciocínio do ex-embaixador americano em Israel Martin Indyk, "precisa tentar ao mesmo tempo se aproximar da Síria - o que enfraqueceria o Hamas e o Hezbollah - e negociar com o Irã".Recapitulando: tudo que precisamos fazer é reconstruir o Fatah, fundi-lo ao Hamas, eleger um governo israelense capaz de congelar o avanço dos assentamentos, cortejar a Síria e negociar com o Irã apenas para conseguir que os envolvidos comecem a negociar. Aquele que conseguir encaixar todas as peças deste quebra-cabeças merece dois prêmios Nobel. *Thomas L. Friedman é colunista do ''New York Times''

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