O começo do fim da ditadura Assad?

Análise: Reginaldo Nasser

É PROFESSOR DO DEPARTAMENTO DE , RELAÇÕES INTERNACIONAIS DA PUC-SP , O Estado de S.Paulo

19 de julho de 2012 | 03h02

É muito significativa a explosão que atingiu o complexo de segurança do governo sírio em Damasco, ontem, causando a morte de pelo menos quatro autoridades do primeiro escalão do governo Bashar Assad. O atentado é a primeira manifestação concreta de fragilidade dos serviços de segurança do presidente, em mais de 16 meses de distúrbios e repressão em todo país.

E é preciso colocar o fato em perspectiva, pois ele se soma a uma série de outros episódios significativos dos últimos dez dias: a deserção de um general e de um embaixador, ambos da elite sunita, bastante próximos de Assad; a reunião do ministro das Relações Exteriores russo, Sergei Lavrov, com lideres da oposição síria em Moscou; o início de violentos combates em Damasco; e o reconhecimento, por parte da Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV), de que o conflito passou para o estado de "guerra civil".

Entre estudiosos de guerras civis, é quase consenso que o sucesso dos rebeldes depende basicamente de três fatores. Primeiro, os níveis de eficácia das instituições que têm como objetivo canalizar as demandas da sociedade. Depois, o grau de fracionamento da elite, em particular aquela que tem o domínio sobre o aparato coercitivo. Por último, a unidade ideológica e capacidade de organização da oposição.

Assim, tudo leva a crer que esses acontecimentos na Síria estejam ligados entre si, indicando uma provável desintegração do regime existente. Embora os dois primeiros desses fatores se revelem cada vez mais intensos, o terceiro ainda causa dúvidas e é justamente nesse ponto que o governo Assad, ainda que precariamente e de modo retórico, procura manter certa credibilidade perante aqueles que falam em nome da comunidade internacional.

Na verdade, as situações revolucionárias demandam um posicionamento das grandes potências para agirem, colocando em questão a posição que ocupam no sistema internacional - seja para aquelas que apoiam o regime existente (Rússia e China) ou aquelas que lutam por sua queda. Esse é um quarto fator que pode definir os rumos da situação na Síria.

Vinte anos após o colapso da União Soviética, os líderes russos ainda não conseguiram definir precisamente qual é o seu papel global. A política externa russa versa mais sobre o que seus líderes não querem, e não o que eles querem. Mas credibilidade e a percepção do poder, por vezes, são quase tão importantes quanto o poder real.

A Síria é um dos únicos países fora da ex-União Soviética onde a Rússia continua a desfrutar de influência visível. A ausência de Moscou no processo de transição, caso ocorra a queda do regime, poderia causar um impacto simbólico profundo em toda geopolítica do Oriente Médio. Além disso, é bom lembrar que o interesse russo em Damasco ressurgiu após a invasão do Iraque pelos EUA e a guerra da Ossétia do Sul em 2008, lembrando as tensões da Guerra Fria.

Seja qual for o desfecho da crise síria no interior das fronteiras de Damasco, o certo é que ela demonstra com clareza a diversidade de interesses geopolíticos e econômicos entre as potências da comunidade internacional e sua importância para a resolução da crise.

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