O começo do segundo ato

A Primavera Árabe do Egito, essa sublevação da rua, essas massas em júbilo que fizeram da Praça Tahrir, em janeiro e fevereiro de 2011, um baluarte da liberdade, encerrou-se, no domingo, com a eleição para presidente de Mohamed Morsi, o candidato da Irmandade Muçulmana (islâmica) que venceu o candidato dos militares, o general da reserva Ahmed Shafiq (que foi primeiro-ministro de Hosni Mubarak).

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

26 de junho de 2012 | 03h02

Tudo isso parece uma ironia da história. No ano passado, as revoltas da Praça Tahrir tinham por objetivo, de um lado, acabar com o controle do Exército sobre o país, de outro, rejeitar o islamismo político. Um ano após o triunfo dos democratas da Praça Tahrir, eis a conclusão: os "democratas" sumiram. E as duas forças contra as quais eles lutavam, duas forças que, aliás, se odeiam, dividem o poder: os islâmicos (Irmandade Muçulmana)levaram a presidência enquanto o Exército, que perdeu a eleição presidencial, assegurou para si o controle sobre o Parlamento e a redação de uma futura Constituição.

Imaginar o futuro próximo nesse teatro de sombras seria uma piada. Mas podemos nos perguntar sobre a relação entre Egito e Israel caso a Irmandade Muçulmana exerça de fato o poder. É o que fazem os israelenses - sem alegria nem otimismo. Não esqueçamos de que o Egito havia assinado, em Camp David, um acordo de paz com Israel em 1979 que vale desde então para o Egito uma ajuda americana de US$ 2,1 bilhões por ano e estabilizou as relações entre o Egito e Israel. Mas, e agora? Com a partida de Mubarak e a Irmandade instalada no Cairo, será que o Egito retomará as hostilidades contra Israel? O presidente Mohamed Morsi foi tranquilizador. Ele respeitará os acordos com Israel. Ótimo. Mas quando ele fala do Estado judeu, refere-se a ele como "entidade sionista". Mau presságio.

Os israelenses viram suas lunetas para um ponto preciso do Oriente Médio: a Faixa de Gaza, que está ocupada pelos membros do Hamas, a ala extremista dos palestinos, ao contrário da Cisjordânia, que é controlada pelos palestinos moderados da Fatah. Não custa lembrar que o Hamas foi fundado em 1987 por membros dessa mesma confraria da Irmandade Muçulmana que hoje acaba de assumir a presidência no Cairo.

De imediato, uma outra nuvem. O Egito vai consagrar todas as suas forças para acalmar a situação interna. Com isso, vai afrouxar a vigilância que exerce sobre o Sinai, essa língua de deserto que lhe pertence, ao sul de Israel.

Desde a Primavera Árabe, esse Sinai já é pouco controlado pelo Exército egípcio. Virou uma terra de ninguém. Tribos beduínas praticam a extorsão e o terrorismo. Segundo Jerusalém, esse desregramento é respaldado justamente pelos grupos islâmicos de Gaza.

Compreende-se, portanto, que as autoridades de Israel tenham acolhido a vitória de um "irmão" no Cairo como uma calamidade. Com uma grande incógnita, de mais a mais: qual será o comportamento dos militares egípcios que não simpatizam com os islâmicos? Sobre esse ponto, nenhuma certeza. Tudo faz pensar que a eleição de um membro da Irmandade à presidência, longe de encerrar o processo democrático, nascido há um ano, ao confiscá-la para benefício dos islâmicos, não nada mais do que o começo do segundo ato de uma peça de teatro cujo desfecho ninguém saberia prever. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK.

É CORRESPONDENTE EM PARIS

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