O compromisso dos EUA com o Congo

País que viveu a mais violenta guerra da história da África começa a se recuperar, mas ainda precisa de ajuda externa

BEN AFFLECK, O Estado de S.Paulo

19 de dezembro de 2010 | 00h00

Peça aos americanos que citem qual foi o conflito mais sangrento desde a 2.ª Guerra e a maioria não saberá responder. Se disser a eles que a guerra ocorreu na África, muitos podem pensar em Ruanda ou na situação atual do Sudão. Nenhuma destas respostas, contudo, está certa.

Sem dúvida, o conflito mais mortífero ocorreu na República Democrática do Congo (ex-Zaire), entre 1998 e 2003. Oito países africanos participaram dos combates em território congolês, muitos deles na expectativa de controlar parte de suas vastas riquezas minerais.

Cerca de 1 milhão de pessoas foram vítimas da fome, dos combates e de doenças evitáveis. Dezenas de milhares de crianças foram obrigadas a se tornar soldados e até dois terços das mulheres foram alvo de estupros e de outras formas de violência sexual.Isto continua a ocorrer até hoje.

Talvez a pouca atenção dedicada a essas atrocidades explique a dissociação que existe em Washington entre a compaixão sentida com relação aos habitantes do Congo e o avanço nominal de políticas específicas para promover uma mudança sustentável na região.

Prosperidade. Felizmente, essa situação começou a se alterar em meados deste ano com a aprovação da Lei Dodd-Frank, exigindo que fosse identificada a origem de minerais possivelmente associados ao conflito armado na região. Espero que o Congresso recém eleito nos EUA dê prosseguimento ao movimento bipartidário que busca trazer ao Congo paz e prosperidade.

Ainda há muito a ser feito para ajudar o povo congolês a proteger sua região no longo prazo. Em uma desafiadora resposta às circunstâncias que fogem ao seu controle, os engenhosos e resolutos congoleses prosperaram e começaram a reconstruir os alicerces de um governo efetivo. Esse potencial foi evidenciado nas eleições nacionais, realizadas quatro anos atrás, e na relativa estabilidade que se seguiu.

O potencial também pode ser visto em organizações locais, como a Sinergia Feminina pelas Vítimas da Violência Sexual no Kivu do Norte. Fico impressionado com o trabalho da Sinergia - apesar das ameaças recebidas todos os dias - para acabar com a violência entre gêneros e oferecer apoio vital às sobreviventes. Essa é apenas uma entre muitas soluções comunitárias capazes de promover mudanças substanciais.

Avanços e recuos. Depois de passar bastante tempo no Congo e de trabalhar com a Iniciativa para o Congo Oriental, confirmo a autenticidade do progresso conquistado. No entanto, posso também atestar sua fragilidade. Para apoiar os esforços do Congo no sentido de superar o passado violento do país e, finalmente, estabilizar sua sociedade civil são necessários líderes fortes e uma abordagem mais holística por parte dos EUA.

Para garantir a paz, precisamos dar continuidade ao apoio aos líderes locais e confiar na sua habilidade de administrar o próprio destino. Ao mesmo tempo, não podemos nos recusar a reconhecer que o ciclo vicioso da pobreza e da corrupção ainda governa o país e muitos crimes ainda são cometidos impunemente.

É preciso também reconhecer que, para consolidar a estabilidade dentro das fronteiras congolesas, temos de compreender a dinâmica externa a essas fronteiras, a mesma que rege toda a região dos Grandes Lagos Africanos.

Não se trata simplesmente de altruísmo. Por questões econômicas, diplomáticas e de segurança, os EUA têm interesse em um Congo pacífico e estável. É por isso que a Iniciativa para o Congo Oriental desenvolveu uma série de recomendações para os governantes americanos que podem levar a uma melhoria benéfica ao povo congolês.

As quatro recomendações mais importantes são, por sinal, as mais fáceis de serem adotadas, sendo que muitas já foram incluídas na legislação atual.

Primeiro, é imperativo que os EUA mantenham o cargo de conselheiro especial do Departamento de Estado para a Região dos Grandes Lagos Africanos, indicando um novo ocupante e abrindo um diálogo político renovado.

Segundo, Washington precisa adotar os dispositivos da Lei Dodd-Frank projetados para reforçar as sanções relacionadas aos minerais envolvidos em conflitos armados. Somente em um ambiente de negócios igualitário e transparente a riqueza mineral do Congo poderá financiar o futuro dos congoleses.

Terceiro, os EUA e a comunidade internacional precisam continuar a proporcionar assistência técnica e garantir um ambiente adequado para as eleições marcadas para 2011. Eleições justas no âmbito nacional, regional e municipal, cujo resultado seja aceito pela população, são vitais para o restabelecimento da confiança nas instituições cívicas do país.

Por fim, precisamos apoiar os esforços do Congo na adoção de reformas administrativas e judiciais capazes de encerrar a interferência política, acabar com a corrupção e promover o estado de direito. O preenchimento do vácuo na segurança com algo diferente das milícias instalaria o povo congolês no controle de seu próprio destino.

Insistência. Seguindo os líderes dos dois partidos, Democrata e Republicano, no Congresso dos EUA, o mundo pode garantir que o Congo nunca mais vivencie a violência e a exploração que definiram boa parte das duas últimas décadas da história do país.

A fundadora da Sinergia, Justine Masika Bihamba, começou a ajudar as mulheres depois que rebeldes invadiram sua casa e violentaram sua filha. A família dela vive sob constante ameaça por causa de seus esforços humanitários. Quando questionaram o motivo de sua permanência no país, ela respondeu: "Tenho um trabalho a fazer."

Por esse mesmo motivo, para que surja um Congo vibrante, com abundantes oportunidades de desenvolvimento econômico e social, é preciso que nós também fiquemos no país. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

É ATOR E DIRETOR DE CINEMA, VISITOU O CONGO PELA PRIMEIRA VEZ EM 2007 E FUNDOU A INICIATIVA PARA O CONGO ORIENTAL NO INÍCIO DESTE ANO

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