O conflito entre o passado e o futuro árabe

Falta de equilíbrio de valores antigos e ânsia por mudança podem colocar em risco o resultado das revoluções árabes

THOMAS L., FRIEDMAN, THE NEW YORK TIMES, É GANHADOR DO PRÊMIO PULITZER, THOMAS L., FRIEDMAN, THE NEW YORK TIMES, É GANHADOR DO PRÊMIO PULITZER, O Estado de S.Paulo

28 de novembro de 2011 | 03h04

Artigo

Em 2001, foi publicado um livro sobre o sucesso diplomático de George Mitchell na Irlanda do Norte, intitulado To Hell With the Future, Lets's Get On With the Past (O futuro que vá para o inferno, continuemos com o passado). Esperemos que nunca apareça alguma obra desse tipo sobre a Primavera Árabe.

Observando os acontecimentos, é impossível deixar de questionar: O passado poderá enterrar o futuro no mundo árabe ou o futuro enterrará o passado?

Estou impressionado com a bravura dos jovens sírios e egípcios que tentam derrubar a tirania da família Assad e os militares egípcios do poder. O fato de irem para as ruas demonstra o anseio por se verem livres de regimes que por muito tempo sufocaram suas vozes.

Quanto mais os confrontos se prolongarem, menor será a possibilidade de uma ordem democrática. É provável que a Síria se desintegre na guerra civil. Quando Tunísia, Egito e Líbia foram convulsionados pela revolução, implodiram. Se a Síria for convulsionada pela revolução, não implodirá. Explodirá.

A Síria, circundada por uma série de países, seitas e grupos étnicos que ela contribui para equilibrar, é o ponto nevrálgico do levante. Se a guerra civil eclodir, cada vizinho se tornará a identificação de diferentes facções sírias - sunitas, alauitas, curdos, drusos, cristãos, pró-iranianos, pró-Hezbollah, pró-palestinos, pró-sauditas - que tentarão atraí-los para si. Turquia, Líbano, Iraque, Irã, Jordânia, Arábia Saudita, palestinos e Israel encontrarão meios de influenciar nos acontecimentos.

Os estrangeiros subestimam a determinação dos jovens árabes a limitar os poderes do Exército para conquistar a verdadeira democracia. O que vemos no Egito são jovens de todas as classes sociais e espectros políticos dispostos a unir forças e brigar por uma liberdade real. Estão determinados a desencadear uma verdadeira transformação em seu mundo. É preciso apoiá-los.

Os novos valores competirão com ideias e paixões muito antigas, como as guerras civis no Islã entre sunitas e xiitas, a luta entre salafistas e modernistas quanto à rejeição do século 21 e as antigas lutas tribais e regionais. E finalmente, a guerra entre as elites militares e as massas. Lutas herdadas sempre ameaçam eclodir e aniquilar movimentos favoráveis à mudança.

É o mesmo drama que vive o Iraque, mas o processo foi administrado, a custos tremendos, pelos EUA, que fizeram com que as comunidades convivessem. Ainda não sabemos como isso acabará. Contudo, sabemos que não haverá alguém imparcial para conduzir a transição dos países árabes. Será que eles conseguirão sem a ajuda externa?

Somente se tiverem seu próprio Mandela - líderes cívicos únicos ou coalizões capazes de honrar o passado e controlar seus impulsos, mas sem permitir que o passado enterre o futuro. / TRADUÇÃO ANNA CAPOVILLA

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