O confuso plano de guerra de Obama

Congresso americano deve questionar por que o presidente deseja uma solução militar contra o Estado Islâmico quando sabe que não existe nenhuma

EUGENE ROBINSON , THE WASHINGTON POST

14 de fevereiro de 2015 | 02h01

No pedido de autorização feito pelo presidente americano Barack Obama ao Congresso para utilizar força militar contra o Estado Islâmico (EI), ele explicou as razões pelas quais se deve travar esta guerra. Mas não disse, na verdade, como será o combate. Obama pediu para ser liberado e, ao mesmo tempo, constrangido. Ele não quer que limites geográficos sejam impostos numa luta contra o EI e "pessoas ou forças associadas". Deseja que o Congresso descarte "operações prolongadas de combates em terra" e a autorização de guerra expire após três anos.

É uma situação muito delicada. É o caso de se perguntar se o presidente está tentando satisfazer belicistas e pacifistas do Congresso ou expondo sua própria ambivalência quanto ao uso da força numa situação em que, diz ele, "não existe nenhuma solução militar americana".

Na carta oficial enviada ao Congresso na quarta-feira, Obama faz uma defesa radical da entrada do país na guerra. "O chamado Estado Islâmico do Iraque e do Levante (Isil) constitui uma ameaça para as pessoas, a estabilidade do Iraque, da Síria, para todo o Oriente Médio e para a segurança interna dos Estados Unidos", escreveu o presidente.

Ele chamou a atenção para os assassinatos brutais de cidadãos americanos perpetrados pelo grupo extremista, acrescentando que "se não for controlado, o EI será uma ameaça que vai extrapolar o Oriente Médio, chegando até a nação americana".

Para sua informação, estou ciente de que não existe nenhuma evidência de que o EI tenha planos no estilo da Al-Qaeda de atacar os Estados Unidos. Mas o grupo claramente tem inspirado simpatizantes violentos em todo o mundo - como foi, aparentemente, o caso de um dos envolvidos nos atentados terroristas cometidos em Paris, no início do ano.

Está claro também que a consolidação de um "jihadistão" tentacular ocupando um vasto território entre Iraque e Síria será algo imensamente desestabilizador. Esses espaços desgovernados são uma espécie de "placa de Petri" para o terrorismo e, mesmo que os líderes do EI não sonhem em realizar ataques em solo americano, poderão, como fez o Taleban, oferecer um refúgio para outros que o fizerem.

Quão iminente, no entanto, é essa ameaça? Essa é uma pergunta que Obama quer, ao que parece, postergar.

Não estou certo de que proibir operações "prolongadas" de combate em terra terá um enorme significado, uma vez que o governo Obama se encerrará em menos de dois anos. Ele obviamente não tem planos para uma invasão ou ocupação gigantescas, mas seu pedido apresentado ao Congresso tecnicamente não descarta nenhuma possibilidade de combate.

Na quarta-feira, ele afirmou que há hoje há 2,6 mil soldados americanos no Iraque, a maioria operando dentro de bases com a missão de treinar forças iraquianas para combaterem sua própria guerra. É possível imaginar que tropas curdas, auxiliadas por forças especiais dos Estados Unidos em campo e apoiadas por ataques aéreos americanos consigam recapturar do Estado Islâmico uma grande parte do território ao norte do país.

Isso, no entanto, ainda deixará o EI no controle do núcleo sunita e o caótico Exército iraquiano não tem nenhuma condição de fazer alguma coisa contra o fato. Esperanças de um novo Despertar de Anbar - em 2006, 30 tribos da Província de Anbar formaram uma aliança e expulsaram os militantes da Al-Qaeda - dependem de um acordo político em Bagdá que continua improvável, talvez impossível.

Vamos imaginar como hipótese que a estratégia de Obama, de algum modo, consiga expulsar os militantes do EI do Iraque. Isso ainda os deixará no controle de boa parte da Síria, onde o enfoque da política dos Estados Unidos é bem diferente.

Ataques concentrados dos EUA e aliados impediram os militantes de capturar a cidade estratégica de Kobani, perto da fronteira com a Turquia. Mas foi uma vitória principalmente simbólica.

O EI, na verdade, vem expandindo seu território da Síria. O presidente Bashar Assad, por seu lado, tem aproveitado os ataques aéreos contra o EI para desbaratar os rebeldes sírios "moderados" - que Obama diz que deseja armar, treinar e dar suporte.

No melhor dos casos, o Estado Islâmico ainda controlará grande parte, se não a maior parte, da Síria quando o sucessor de Obama assumir a presidência. Num cenário mais realista, os militantes também controlarão pelo menos parte da região sunita do Iraque. É possíve que o EI seja enfraquecido como Obama prometeu, mas não "destruído" como o presidente quis assegurar.

Parece que o objetivo de Obama é deixar para seu sucessor um problema de algum modo menos grave e menos ameaçador. Talvez seja tudo o que pode ser feito. Mas as guerras, quando começam, desenvolvem sua própria lógica e ímpeto. A primeira das muitas perguntas que o Congresso deve fazer é por que Obama deseja uma solução militar quando sabe que não existe nenhuma? / Tradução de Terezinha Martino 

* É colunista

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