O Congresso de Viena revisitado

A reunião que iniciou um longo período de paz na Europa, no início do século 19, não é celebrada hoje como referência para os líderes mundiais

DOMINIQUE, MOÏSI, PROJECT SYNDICATE, O Estado de S.Paulo

01 de outubro de 2014 | 02h03

Há 200 anos, em 25 de setembro de 1814, o czar Alexandre I da Rússia e Frederico Guilherme III, rei da Prússia, foram recebidos às portas de Viena pelo imperador da Áustria, Francisco I. O início do Congresso de Viena inaugurou o mais longo período de paz que a Europa conhecia havia séculos. Portanto, por que este aniversário tem sido praticamente ignorado?

De fato, o Congresso de Viena é considerado o símbolo da vitória das forças reacionárias da Europa, depois da derrota de Napoleão. Entretanto, considerando a atual crescente confusão global, senão mesmo o caos, algo como a nostalgia "proustiana" pelo Congresso talvez não seja tão extemporânea.

Ali, afinal, ocorreu uma reunião que, graças a negociações difíceis, mas bem sucedidas, restabeleceu-se a ordem internacional depois dos levantes desencadeados pela Revolução Francesa e pelas Guerras Napoleônicas. Algumas das suas lições poderão se aplicar hoje? Para responder à pergunta, devemos considerar não apenas o Tratado de Viena, de 1815, mas também a Paz da Westfalia, de 1648, e o Tratado de Versalhes, de 1919, cada um dos quais, à sua maneira, pôs um fim a sangrentos capítulos da história europeia.

Os tratados assinados em 1648 concluíram quase um século de lutas religiosas consagrando o princípio "cuius regio, eius religio" ("os súditos seguem a religião do governante"). O Congresso de Viena reafirmou o princípio do equilíbrio de poder, com base na crença de que todas as partes compartilhavam de um interesse comum que transcendia suas respectivas ambições, e restabelecia o concerto das nações, que por duas gerações interrompeu o revisionismo territorial e ideológico como o testemunhado de 1789 a 1815. Por outro lado, o Tratado de Versalhes, muito rigoroso para ser observado e fraco demais para ser implementado, preparou o caminho para a 2.ª Guerra.

Dos três tratados, o que foi produzido pelo Congresso de Viena oferece uma espécie de espelho que nos ajuda a compreender a especificidade das nossas condições atuais. Em Viena, as potências europeias estavam em casa. Sua sensação de pertencerem a uma grande família unificada era reforçada pelas origens aristocráticas comuns dos seus diplomatas. O "outro" cultural não era um problema.

Evidentemente, hoje não se pode ter a ambição de recriar aquele mundo (ou de restabelecer uma ordem westfaliana da separação religiosa). Trata-se, antes, de descobrir uma nova ordem, declarada a partir de pressupostos diferentes. Na realidade, um dos principais fatores da nossa desordem global atual é que os principais atores do sistema internacional não estão unidos por uma vontade comum de defender o status quo.

Os principais atores pertencem a três categorias: os revisionistas abertos, como Rússia e Estado Islâmico; os dispostos a lutar para proteger um mínimo de ordem, como EUA, França e Grã-Bretanha; e os países ambivalentes - que incluem atores regionais fundamentais no Oriente Médio, como Turquia e Irã - cujas ações não se coadunam com a retórica.

Num contexto tão dividido, a aliança dos "moderados" criada pelo presidente americano, Barack Obama, para derrotar o EI - grupo que inclui Arábia Saudita, Catar e Emirados Árabes Unidos - é, quando muito, fraca. Uma coalizão multicultural é, provavelmente, uma exigência da ação militar legítima no Oriente Médio; o dilema é que, a não ser que a coalizão regional de Obama se amplie consideravelmente, o entusiasmo dos seus atuais aliados pela intervenção militar americana diminuirá bem depressa.

Ou talvez fosse possível reconstituir algo como a "hegemonia bipolar" da Grã-Bretanha e da Rússia depois de 1815 (embora outros atores, como Áustria, Prússia e França, também fossem importantes), com EUA e China substituindo Grã-Bretanha e Rússia. Esse parece ser o drama último de Henry Kissinger - um sonho que podemos vislumbrar em seu mais recente livro, intitulado germanicamente World Order: Reflections on the Character of Nations and the Course of History.

No entanto, poderemos confiar na realização desse sonho? Numa época em que nos confrontamos com o expansionismo russo e o extremismo de criminosos messiânicos, as lições do Congresso de Viena talvez pareçam distantes e irrelevantes. Entretanto, uma delas é óbvia: os países possuem interesses comuns que deveriam deixar para o segundo plano as prioridades nacionais.

China, Índia e Brasil são partes interessadas no sistema mundial, o que significa que eles também precisam de um mínimo de ordem. No entanto, isso significa que eles contribuam para mantê-la. O interesse da China, por exemplo, seria melhor defendido não colocando a Rússia contra os EUA, mas escolhendo o partido da ordem, e não o da desordem.

Uma reunião dos equivalentes modernos de Metternich, Castlereagh, Alexandre I e Talleyrand é também um sonho: eles não existem. Mas, diante da crescente desordem e da escalada da violência dos nossos dias, os líderes que temos deveriam procurar se inspirar em seus predecessores, que, há 200 anos, abriram o caminho para quase um século de paz. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

É COFUNDADOR DO INSTITUTO

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