O Congresso deve autorizar Obama a atacar?

NãoTemos um problema. O presidente propõe atacar a Síria e seus comandantes militares não sabem dizer qual o objetivo. O comandante-chefe sabe qual é o seu próprio objetivo? Por que? "Um tiro de advertência", explicou Barack Obama.

CHARLES KRAUTHAMMER , THE WASHINGTON POST, EUGENE ROBINSON , THE WASHINGTON POST, CHARLES KRAUTHAMMER , THE WASHINGTON POST, EUGENE ROBINSON , THE WASHINGTON POST, O Estado de S.Paulo

08 de setembro de 2013 | 02h13

Agora um tiro de advertência significa uma advertência. O seu objetivo é dizer: pare e desista, ou o próximo tiro será direto na sua direção. Mas Obama já disse para o mundo, e Bashar Assad em particular, que não haverá outro tiro. Ele insistiu repetidamente que a operação será limitada. Dar o tiro, matar alguns peixes e voltar para casa. Então, qual é o objetivo? O comandante do Estado-Maior, Martin Dempsey, não tem ideia, mas o secretário de Estado John Kerry afirma que este ataque preservará e proclamará uma norma e com isso refreará o uso futuro de armas químicas. Com alguns mísseis Tomahawk? Atacar instalações que, graças ao vazamento pelo governo da sua lista de alvos, já foram despojadas de importantes ativos militares? É risível. No melhor dos casos será uma alfinetada da qual Assad sairá ileso e simplesmente fortalecerá a posição e justificará sua conduta.

A dissuasão depende inteiramente da percepção e a percepção no Oriente Médio é universal: Obama não quer nada com a Síria.

Assad tem de partir, disse Obama e depois não levantou um dedo durante dois anos. Obama estabeleceu uma "linha vermelha" e depois a ignorou. Indignado finalmente com o ataque com gás venenoso, ele enviou Kerry para fazer a defesa de uma retaliação urgente e no dia seguinte estragou tudo declarando um recesso indefinido à espera de aprovação do Congresso.

Esse zigue-zague surpreendente, após meses de hesitação ambivalência, contradição e atrasos estudados deixou nossos aliados chocados e nossos inimigos muito satisfeitos. Defendi vigorosamente que devíamos ir ao Congresso. Mas foi algo inconcebível que, em vez de requerer uma reunião de emergência do Congresso, Obama simplesmente deixou tudo em suspenso até o Congresso terminar seus churrascos do Dia do Trabalho e seguiu para Estocolmo e São Petersburgo. E quanto à urgência de fazer valer um tabu internacional e as crianças mortas de Damasco? É assim que a dissuasão funciona no Oriente Médio. A Síria, há muito tempo comprometida com a destruição de Israel, não entra num conflito militar com Israel há 30 anos. Por que? Porque sabe que Israel é um adversário sério com políticas sérias.

Somente este ano Israel realizou quatro ataques aéreos contra a Síria.

Não houve nenhuma reação síria. Como Israel consegue se sair tão bem? Israel anunciou que não toleraria que Assad adquirisse ou transferisse armamento avançado para o Hezbollah. Não foram feitos discursos grandiloquentes pelo ministro do Exterior israelense. Não foram vazadas listas com os alvos de ataques. Na verdade os israelenses nem mesmo admitiram os ataques mesmo depois de serem realizados. Ao contrário do presidente americano, os israelenses não têm nenhum interesse em se gabar de serem irredutíveis. O que lhes interessa é o resultado.

Os EUA têm sido profundamente frívolos. A menos que Obama consiga mostrar que seu ataque aéreo - para não ser ridicularizado - será parte de fato de um plano estratégico sério, o Congresso deve votar contra.

SimO Congresso está fazendo as perguntas erradas sobre a Síria. A questão não pode ser quem vencerá a guerra civil nesse país, mas se o regime de Bashar Assad deve ser punido por usar armas químicas - e, se a resposta for sim, se há meios efetivos de punir que não um ataque militar americano.

O secretário de Estado John Kerry, o secretário de Defesa Chuck Hagel e o chefe do Estado-Maior Conjunto Martin Dempsey mostraram uma paciência de Jó na semana passada enquanto membros da Câmara e do Senado os interrogavam incansavelmente sobre o impossível, o inconcebível e o irrelevante.

Na audiência de quarta-feira na Comissão de Relações Exteriores da Câmara, houve um momento em que eu achei que Kerry ia explodir. O deputado Jeff Duncan (republicano da Carolina do Sul) enveredou por um solilóquio pretensioso sobre Benghazi, receita federal, a Agência de Segurança Nacional e o que ele retratou como a antiga aversão de Kerry pelo uso de força militar. Kerry, vocês devem se lembrar, é um veterano combatente do Vietnã altamente condecorado. Duncan é um guerreiro de poltrona.

"Não vou ficar aqui sentado ouvindo de você que eu não tenho noção do que está em jogo neste assunto", disse Kerry.

Mas ele se conteve e deu a Duncan uma resposta mais civilizada do que ele merecia. "Não se trata de entrar na guerra civil da Síria", explicou Kerry, "Trata-se de aplicar o princípio de que não se pode permitir que pessoas ataquem impunemente seus cidadãos com gás." Para o senador John McCain (republicano do Arizona), a questão é por que o presidente Obama não estava fazendo mais para influir no desfecho da guerra. Como preço por seu voto para autorizar um ataque, McCain insistiu em que a resolução aprovada pela Comissão de Relações Exteriores do Senado incluísse uma formulação pedindo para Obama "mudar a equação militar no campo de batalha". Respeito o conhecimento e experiência de McCain em assuntos militares, mesmo quando discordo dele. Neste caso, credito que ele está alucinando.

No Iraque, com as forças americanas ocupando o país e um governo instalado obediente, foi preciso um enorme reforço de tropas e uma prolongada campanha contra a insurgência para vencer os jihadistas que ameaçavam se apossar do controle de uma parte do país. Na Síria, sem soldados no terreno e com um regime hostil se agarrando ao poder, como Obama poderia assegurar que os rebeldes "bons" triunfem sobre os "maus"? Por que McCain acha que está ao nosso alcance mudar favoravelmente a equação agora? Permitam-me esclarecer: acredito que um ataque americano do tipo que está sendo discutido, envolvendo mísseis de cruzeiro e, talvez, outros itens de poder aéreo pode tornar mais provável uma derrota de Assad.

Mas acredito também que - na falta de um grande envolvimento de forças americanas, que está fora de questão - não podemos determinar quem vencerá. Para alguns céticos no Congresso, a questão é por que não esperamos que outros ajam - a Organização das Nações Unidas, talvez, ou alguma das outras 188 nações que ratificaram a Convenção sobre Armas Químicas que condena como ilegais atrocidades como as cometidas na Síria. Imagino que a esperança é a última que morre, mas essa espera pode ser longa demais.

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