O conto das três mulheres

Uma estrela das produções da Disney, uma estilista versátil e a ex-premiê britânica marcaram a época em que viveram

MAUREEN DOWD - THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

12 de abril de 2013 | 02h01

Uma delas ganhou fama usando orelhas de camundongo; outra, com roupas de cores vistosas; e outra ainda se destacou fustigando a oposição sem perder a feminilidade.

As três famosas personalidades mortas no espaço de uma semana aparentemente não tinham nada em comum. Entretanto, estas mulheres dotadas de um espírito tremendamente livre - duas americanas por excelência, conhecidas pelo primeiro nome, e uma britânica por excelência, conhecida pelo apelido - foram símbolos vivos do seu tempo.

Quando pensamos em Annette Funicello, Lilly Pulitzer e Margaret Thatcher, evocamos três mundos totalmente diferentes.

Quando criança, eu passava todas as tardes com as minhas orelhas do Clube do Mickey e de pijama, agarrada a uma sacola vermelha cheia de chocolates, grudada na televisão, assistindo a filmes de Annette e companhia.

Em meu irmão mais velho e nos outros meninos perto dos 10 anos, a figura exuberante da jovem Annette provocava os primeiros estremecimentos despertados pelos hormônios. A atraente filha de um mecânico de automóveis cresceu em San Fernando Valley, e tornou-se a mocinha italiana sem pretensões da casa ao lado, que poderia ser a amiga, ou namorada de qualquer menina ou menino da vizinhança.

Era tão tímida, que perguntou a Walt Disney se deveria ouvir a opinião de um psicólogo; ele a desaconselhou, porque poderia acabar com as qualidades que as pessoas adoravam nela.

Mesmo posteriormente, já usando maiô de duas peças nos filminhos água com açúcar que mostravam festas na praia ao lado de Frankie Avalon, ela parecia tão inocente quanto Sally Field nas vestes da noviça voadora.

Disney, como ela sempre chamou o homem que a descobriu aos 12 anos no Lago dos Cisnes no Starlite Bowl de Burbank, implorava que ela cobrisse o umbigo.

Annette foi a precursora da infância sem preocupações e do verão feliz. Talvez por isso foi um choque quando, em 1992, revelou que sofria de esclerose múltipla.

A alegre jovem das orelhas de Mickey Mouse, mãe de três filhos, tratou-se desta doença cruel com extrema elegância, fundou uma organização em benefício da pesquisa e foi embaixadora da Sociedade da Esclerose Múltipla.

Anos depois de começar a usar andador, até mesmo para inaugurar sua estrela na Calçada da Fama, em 1993, Annette perdeu a capacidade de andar e falar. Mas não antes de contar como se sentiu orgulhosa quando pessoas que tinham a mesma doença disseram que, como ela não hesitara em aparecer em público, elas já não se sentiam envergonhados por serem vistas de bengala ou cadeira de rodas.

"Como Cinderela, acredito que um sonho é um desejo do seu coração", ela dizia, mantendo o seu temperamento doce embora a doença a fizesse sofrer muito. "Tive uma vida de sonho."

Lilly Pulitzer, outra embaixadora do lazer moldou sua vida de sonho deixando sua marca num aspecto agradável do sonho americano.

Como seu vizinho de Palm Beach, Jimmy Buffett, ela patenteou inteligentemente a etiqueta Paradise Found de roupas de praia que produzia, e, segundo a revista Vanity Fair, eram o símbolo da riqueza e do prazer do americano conservador tradicional. Seu design tinha um apelo esnobe, como disse a revista em 2003, observando que Jackie Kennedy e sua camareira vestiam roupas de Lilly.

Assim como Annette não cedeu à doença, Lilly, a filha de uma herdeira da Standard Oil, não cedeu às regras do seu mundo endinheirado ultrapassado. Depois de se casar com um herdeiro de Pulitzer e mudar-se para Palm Beach, perambulou pelo país descalça, deu festas desregradas, teve três filhos e um colapso nervoso.

Não se importando em dar espetáculo de si mesma, abriu uma banca na Worth Avenue para vender frutas produzidas nos pomares do marido; depois, ela e uma sócia, que vestiam roupas estampadas de cores vivas para esconder as manchas de fruta, tiveram uma ideia brilhante. Estilo é algo mais do que moda, ela disse, e ser feliz "é um estilo de vida".

Se Lilly foi conhecida como "a garota de todas as festas por excelência", Maggie foi "a pin-up conservadora por excelência".

Margaret Thatcher, filha de um verdureiro e mãe do conservadorismo moderno, teve seus defeitos, não se pode negar. John Cassidy, da revista The New Yorker, a definiu uma mistura de Ronald Reagan, Ayn Rand e Dr. Strangelove. E, segundo François Mitterrand, ela tinha o olhar de Calígula e a boca de Marilyn Monroe.

A Dama de Ferro era dura, mas foi a mais rara das criaturas: uma líder que nunca perdeu a feminilidade e no entanto transcendia o gênero.

Ela atacava sem piedade os adversários e ofendia os subalternos. Tratava com extrema habilidade os políticos do clube global de meninos - como crianças, quando precisavam ser tratados desse modo, ou como vilões, quando ela precisava. (Um assessor de segurança nacional confirmou que Reagan se identificava profundamente com ela.)

Estive em Aspen em 1990, quando ela disse ao presidente George Bush que não deveria vacilar em relação a Saddam Hussein, ponderação que calou fundo no lado mais sensível da psique de Bush, o medo de ser considerado um molenga.

O momento que mais me agrada em relação a Thatcher foi quando cobri uma reunião do Grupo dos Sete em Paris, em 1989. Mitterrand a colocou por duas vezes num lugar ruim em comparação a outros líderes mundiais: uma vez na ópera e outra no palanque, durante a parada em comemoração do Bicentenário da Revolução Francesa, no mesmo lugar em que o rei Luis XV foi guilhotinado. Além disso, Michel Rocard, o primeiro-ministro socialista francês, a criticou severamente por sua "crueldade social".

Ao deixar Paris, Maggie fez questão de enfatizar sutilmente os excessos da Revolução Francesa, presenteando com astúcia Mitterrand com um livro de capa de pelica vermelha: Um Conto de Duas Cidades, de Charles Dickens, ambientado no período da revolução e crítico do movimento. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

* É COLUNISTA

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