O convite saudita ao Irã

Visita iraniana a Riad romperia o gelo de um dos relacionamentos mais hostis na região

Liz Sly Ernesto Londoño*, The Washington Post/O Estado de S.Paulo

15 Maio 2014 | 02h07

A Arábia Saudita anunciou na terça-feira o convite feito ao chanceler do Irã para uma visita a Riad, rompendo o gelo num dos relacionamentos mais hostis do Oriente Médio, às vésperas de importantes conversações sobre o programa nuclear iraniano.

Falando aos repórteres na capital saudita, o ministro das Relações Exteriores, Saud al-Faisal, disse que o seu país está disposto a hospedar o chanceler iraniano, Javad Zarif, "quando ele julgar conveniente", e indicou que Riad quer abrir as negociações com seu inimigo a fim de tratar de diversas questões que dividem os dois países. "Conversaremos com os iranianos. Nossa esperança é que o Irã participe da iniciativa para tornar a região tão segura quanto possível", disse.

O convite foi feito depois de, durante meses, as potências rivais darem sinais de que estão dispostas a abrandar as tensões que contribuíram para alimentar a guerra na Síria e as hostilidades no Iraque, no Bahrein e no Iêmen. A Arábia Saudita sunita e o Irã xiita apoiaram lados opostos em cada conflito, aprofundando o caráter sectário da instabilidade que assola a região. Entretanto, é muito cedo para saber se a iniciativa saudita assinala o início de uma aproximação mais ampla que poderá contribuir para a estabilização da região, afirmam diplomatas e analistas. O Irã não respondeu até o momento e nenhuma data foi fixada.

Desde a posse do presidente Hassan Rohani, no ano passado, o Irã procurava reatar as relações com os países sunitas do Golfo Pérsico. Mas a Arábia Saudita relutava em envolver-se.

O reino está preocupado também com a possibilidade de se isolar no momento em que Teerã melhora as relações não apenas com o Ocidente, mas também com muitos vizinhos da Arábia Saudita. Autoridades sauditas e diplomatas ocidentais de Riad afirmam que o convite representa o reconhecimento da realidade, mais do que a solução de divergências.

"Somos práticos. O Irã é nosso vizinho. Não podemos ir contra a geografia", disse Abdullah al-Askar, que chefia o comitê de relações exteriores da Shura, conselho de assessoria da Arábia Saudita. "Mas isso não significa que concordemos com a sua política".

É improvável que Riad tenha concordado em hospedar um membro do governo iraniano sem assegurar-lhe algum tipo de concessão em pelo menos um ponto que preocupa o reino, disse Mustafa Alani, do Centro de Pesquisas do Golfo, sediado em Dubai. "Isso não acontece do nada", afirmou. "O chanceler iraniano não virá apenas para trocar beijinhos amistosos. Os sauditas terão de deixar bem claro que não estão blefando antes de emitir o convite."

Foram estabelecidas algumas das possíveis áreas de acordo. Uma é o Líbano, que se encontra num impasse potencialmente desestabilizador entre as facções apoiadas pelos sauditas e pelos iranianos na escolha de um presidente. O embaixador saudita no Líbano regressou recentemente ao país depois de uma longa ausência e participa das negociações que buscam um candidato de consenso.

Rohani e o rei saudita Abdullah também têm uma história de relacionamento que data de 2005, quando ambos ainda não ocupavam a posição atual, o que prenuncia a possibilidade de uma melhoria dos laços. Um acordo de maior alcance que poderia resolver as crises consecutivas que abalam a região parece improvável no curto prazo, segundo um diplomata ocidental na capital saudita.

Riad deu seu primeiro passo quando o secretário da Defesa dos EUA, Chuck Hagel, chegou à Arábia Saudita para garantir aos céticos aliados do Golfo Pérsico que ainda terão o apoio de Washington, enquanto o governo Obama segue com suas iniciativas para obter um acordo com o Irã. Funcionários americanos que viajaram com Hagel aplaudiram o convite saudita.

A Arábia Saudita teme a perspectiva de um acordo nuclear entre Irã e EUA que aumente o prestígio de Teerã e acabe prejudicando-a. O governo de Riad também está frustrado com o fato de Washington não ter mostrado um envolvimento mais ativo na ajuda aos rebeldes na Síria. Hagel informou que Irã e Síria serão um dos principais temas que ele pretende discutir com seus colegas do Golfo, alguns dos quais, nos últimos anos, discordaram profundamente a respeito de questões regionais, como a guerra na Síria e o destino do Egito depois da revolução.

A presença de Hagel na região não é coincidência. Ao mesmo tempo que os EUA expressam a esperança de um acordo com o Irã, querem transmitir a ideia de que continuarão investindo na região e apoiando inimigos do Irã na área militar. Nos últimos anos, a Arábia Saudita tem comprado armamentos dos EUA em ritmo impressionante. Desde o fim de 2010, foram notificadas propostas de gastos superiores a US$ 86 bilhões na aquisição de caças, helicópteros, bombas e sistemas de defesa antimísseis.

Além das aspirações nucleares do Irã, funcionários em Washington e na região do Golfo estão preocupados com o programa iraniano de mísseis balísticos, que poderá ser excluído de um acordo final.

*Liz Sly Ernesto Londoño são jornalistas.

TRADUÇÃO E ANNA CAPOVILLA

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