O coringa russo

Ameaças de mais sanções podem garantir que Moscou não viole cessar-fogo na Ucrânia

Fareed Zakaria, THE WASHINGTON POST

16 de fevereiro de 2015 | 02h04

O acordo anunciado em 12 de fevereiro para pôr fim aos combates na Ucrânia enfrentará o mesmo obstáculo que o pacto que o antecedeu enfrentou: como garantir que a Rússia o cumpra. Frustrados pelo apoio contínuo da Rússia a separatistas ucranianos, líderes ocidentais começaram a discutir uma ajuda militar ao governo ucraniano. Mas, na tentativa de determinar o que realmente dissuadirá Moscou, convém escutar o que parece assustar os próprios russos - e não é a ajuda militar a Kiev.

Questionado recentemente sobre a possibilidade de sanções "SWIFT", o que impediria a Rússia de participar dos sistemas internacionais de pagamentos centrados no dólar americano, o primeiro-ministro Dmitri Medvedev advertiu que a resposta de Moscou seria "sem limites".

Andrei Kostin, presidente do segundo maior banco da Rússia, explicou no Fórum Econômico Mundial em janeiro que essa medida levaria instantaneamente à expulsão do embaixador americano de Moscou e à convocação do embaixador da Rússia em Washington. Isso significaria que "os países estão à beira da guerra ou que estão definitivamente numa guerra fria", acrescentou. Em contrapartida, a Rússia parece orgulhar-se de sua guerra no leste da Ucrânia, o que, por um custo muito baixo, poderá manter a instabilidade fazendo com que o país fique na defensiva quase indefinidamente.

É compreensível que os parceiros mais próximos de Putin estejam tão preocupados com a perspectiva de novas sanções econômicas. A economia russa está em queda livre. Num relatório divulgado semana passada, a Agência Internacional de Energia disse que a Rússia enfrenta "uma extraordinária tempestade de preços em declínio, sanções internacionais e de desvalorização da moeda". Como disse o ex-subsecretário do Tesouro dos EUA, Roger Altman: "Na época atual, se a moeda de uma grande nação entrar em colapso ou seu acesso para fins de empréstimo acabar, ela deixará de funcionar".

Segundo projeção do Fundo Monetário Internacional (FMI), em 2015, a economia da Rússia sofrerá uma contração de 3%. E Putin precisa de sólidas receitas petrolíferas para manter seu poder no país. De 2008 a 2009, quando as receitas despencaram na crise financeira global, o governo russo aumentou os gastos em nada menos que 40% para preservar a estabilidade social, noticiou a revista The Economist. Nos últimos anos, os gastos da defesa subiram 30% e os subsídios para a alimentação e a habitação também sofreram elevação. Esses programas não poderão se manter indefinidamente, porque, ao longo do tempo, o dinheiro irá se esgotando.

Por outro lado, a Rússia tem condições para continuar sustentando suas escaramuças militares no leste da Ucrânia - embora as cartas econômicas de que dispõe sejam fracas, as militares continuam fortes, principalmente em comparação às da Ucrânia. Em 2014, o orçamento da defesa de Moscou foi equivalente a aproximadamente 20 vezes o orçamento de Kiev, mostram dados publicados semana passada pelo Instituto Internacional de Estudos Estratégicos. A Rússia tem 771 mil soldados ativos e 2 milhões de homens na reserva, mais, evidentemente, 8 mil armas nucleares. A isso é preciso acrescentar que a Ucrânia é sua vizinha e suas regiões orientais são dominadas por russos étnicos, o que proporciona a Moscou a mão de obra e a justificativa para seus crimes.

Pressão. Por outro lado, segundo os críticos das sanções, embora essas medidas possam contribuir para aumentar os custos da Rússia, Putin demonstrou que não reagirá à elevação dos custos de uma maneira calculada, racional. Mas se isso acontecer, a ajuda militar à Ucrânia também não funcionará. Ninguém acredita que Kiev possa vencer num confronto militar com Moscou. O relatório de um grupo de estudos realizados recentemente pelo governo que insistem no envio de ajuda militar admite que o pacote se limitará a aumentar os custos para o Kremlin a fim de forçá-lo a negociar. Em outras palavras, os especialistas concordam que a única estratégia possível será aumentar os custos para a Rússia. As divergências referem-se ao tipo de custos que Putin acha mais onerosos.

A ajuda militar à Ucrânia intensificaria a chama do nacionalismo russo, faria com que Putin se arvorasse a defensor das Forças Armadas e defendesse seus "concidadãos russos" num campo no qual ele pode garantir a vitória de Moscou. Para um regime que enfrentou duas duras e dispendiosas guerras na Chechênia, região muito menos fundamental para a imaginação russa do que a Ucrânia, a perda de alguns homens e de recursos numa operação militar não chegaria a constituir um forte elemento dissuasor.

Por que motivo o Ocidente quer deixar a área em que reside sua força - a das pressões econômica - para uma área em que seria superado em todos os sentidos? Se a Rússia infringir esse frágil acordo de paz, será preciso estudar novas sanções.

O senador Lindsey Graham, republicano da Carolina do Sul, observou recentemente a razão mais justa pela qual em Washington alguns defendem a assistência militar. Embora provavelmente não deva funcionar, é uma maneira de responder de alguma maneira à agressão russa. "Não sei como a situação acabará se derem à Ucrânia uma capacidade defensiva", disse Graham recentemente na Conferência sobre Segurança em Munique, "mas sei que eu me sentirei melhor, porque quando minha nação precisou enfrentar esse lixo e defender a liberdade, eu defendi a liberdade".

Entretanto, o propósito da política externa americana não é fazer com que Lindsey Graham se sinta melhor. Na realidade, é para atingir objetivos práticos. Isso significa que devemos escolher cuidadosamente nossas batalhas e nossas armas. / Tradução de Celso Paciornick e Anna Capovilla

* É colunista

Tudo o que sabemos sobre:
O Estado de S. PauloUcrâniaRússia

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.