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O coronavírus confunde o tabuleiro político da Itália

Contra o que todos esperavam, o perigo terrível transforma Giuseppe Conte em senhor da guerra

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

01 de maio de 2020 | 03h30

Em sua grande viagem ao redor do mundo, o coronavírus abriu inicialmente uma porta, na China. Em janeiro, parece (mas as versões divergem). Em seguida, saltou para a Itália, no norte, na Lombardia, depois na Espanha, na França. Ele se abateu com toda a sua força sobre a Itália. E não se contentou em causar hecatombes, com piras funerárias, caixões e valas comuns. Ele mudou a ordem das peças no xadrez político  italiano.

Antes de mais nada, um breve resumo: em 2018, em razão de uma crise política, foi constituído em Roma um novo ministério juntando um pedaço aqui, outro ali.

À sua frente foi designado um jurista: Giuseppe Conte, vagamente filiado ao movimento contrário ao sistema ‘Cinco Estrelas’ (5 Stelle), totalmente desconhecido, um “homem de palha”.

De todo modo, o homem forte desta equipe não é o discreto Giuseppe Conte. É o líder da Liga do Norte (neofascista), o tempestuoso e brilhante Matteo Salvini, ministro do Interior, que ganha notoriedade ao fechar os portos italianos aos migrantes da África e da Ásia.

Em seguida, há nova crise política provocada pelo próprio Salvini ao tentar substituir Conte. Em 2019, o gabinete cai. O pálido ministro Conte salva a própria pele quando o astro Salvini perde o cargo. Ele se enfurece. Multiplica as reuniões onde exibe toda a sua eloquência. E prepara o próprio retorno ao poder.

Mas chega o coronavírus. O país treme pelo inexperiente primeiro-ministro Conte, que não passa de um figurante, com seus ternos impecáveis e sua discrição. Salvini, na sombra, prepara as suas armadilhas. Mas, contra o que todos esperavam, o perigo terrível transforma Giuseppe Conte em senhor da guerra. Sólido, hábil, respeitado, esquece que pertencia a um movimento contrário ao sistema, o Cinco Estrelas. Deixa de criticar a União Europeia para descobrir todas as suas graças.

Estes pequenos vaivéns não perturbam os italianos. Giuseppe Conte ganha mais de 20 pontos de popularidade, chegando a 66%, coisa jamais vista na Itália.

E Salvini? Não só não recupera a sua glória, como começa a cair. Em um único mês, perde 8 pontos de popularidade, e o seu partido La Liga, 20 pontos. Portanto, exatamente o oposto dos resultados de Giuseppe Conte. Parece um desses balanços de jardim de infância: enquanto um sobe até o céu, o outro desce até a terra.

Entretanto, não podemos explicar esta reviravolta brutal de posições entre o calmo Conte e o agitado Salvini apenas como um embate de dois indivíduos ambiciosos. O vírus transformou a paisagem. Por exemplo, o confinamento privou Salvini das tribunas que permitiam que ele galvanizasse as multidões.

Ele não soube pôr em dia os seus propósitos, levando em conta a ameaça planetária que o coronavírus representa. Quanto ao programa do poder contra o vírus, Salvini se limitou a dizer que era maligno, sem acrescentar o menor argumento.

Contentou-se em apelar para ao velho chavão: o ódio dos migrantes, dos que não têm documentos, os italianos de início etc... Na situação de pânico dos hospitais, o recurso aos estrangeiros torna-se uma obrigação (médicos, pessoal de enfermagem, técnicos especialistas...) Fechar os portos italianos, o que tanto agradou ontem, não é apenas uma vilania, passa a ser uma loucura quando é preciso travar batalha contra o “invisível”. Mais vale unirmo-nos todos contra o inimigo número 1, o vírus.

E para garantir as colheitas, quem irá colher as frutas e os legumes se os pobres, os migrantes, os sem documentos, não estiverem ali com sua pequena mochila de miséria?

O professor próximo da Liga, Marc Lazar, disse muito bem: “Em algumas semanas, Salvini demonstrou sua incapacidade de assumir a responsabilidade de um estadista”.

Mas o homem é duro, inteligente e bem informado a respeito das engrenagens da máquina política italiana. Ao seu serviço está um bloco de ideólogos dos anos 30 que se limitam a pensar: “A Itália em primeiro lugar!”

As próximas eleições nacionais estão previstas para daqui a três anos. Uma eternidade para Salvini. Ele os dedicará a reformular o partido, a preparar o seu retorno, talvez a  “modernizá-lo”, a acalmar o seu ódio contra os estrangeiros. Esperemos que não seja preciso aguardar três anos para ouvir novamente os vitupérios de Salvini e os da Liga do Norte, rebatizada La Lega. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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