O crime de Cho Seung-hui e a nova era das informações

Um dia de cão foi este último 16 de abril, em que 32 pessoas foram mortas a tiros pelo estudante de inglês sul-coreano Cho Seung-hui, de 23 anos, que se matou em seguida. A cena do crime foi a enorme Universidade Virginia Tech, nos Estados Unidos. Internet, blogs, televisões, jornais, rádios: a mídia do mundo inteiro se mobilizou em torno da tragédia. Espetacularização do crime não é novidade. No Brasil, já assistimos pela TV a horas de agonia durante o seqüestro do ônibus 174 no Rio, em 12 de junho de 2000, que resultou na morte de uma refém e do seqüestrador. Vimos também em agosto de 2001 o apresentador e dono do SBT, Silvio Santos, negociando por horas com o seqüestrador de sua filha Patrícia Abravanel, que invadiu sua casa após mantê-la em cativeiro por sete dias. Fernando Dutra Pinto, de 22 anos, exigiu a presença da imprensa e até do governador do Estado, Geraldo Alckmin, para garantir sua sobrevivência.Já vimos esse show de mídia também no cinema, com um inesquecível Al Pacino interpretando Sonny, que ao lado de John Cazale como seu parceiro Sal. O filme Um Dia de Cão, de Sidney Lumet, reproduziu na tela o caso real de um assalto a banco no Brooklyn em agosto de 1972, que deveria durar dez minutos e durou dez horas, transmitido com enorme audiência pela TV. Sonny queria o dinheiro para seu namorado fazer uma cirurgia de mudança de sexo. O filme ganhou o Oscar de 1975 de melhor roteiro original, que foi para Frank Pierson, baseado em artigo de P.F. Kluge e Thomas Moore. Mas atenção, eram os anos 70.Desta vez, um filme pode ter inspirado o assassino. Pelo menos uma das imagens que Cho Seung-hui enviou à NBC, talvez a mais inexplicável delas, remete a um filme sul-coreano que ganhou o Grande Prêmio do Júri do Festival de Cannes, em 2004, quando os jurados foram presididos pelo cineasta Quentin Tarantino (Kill Bill 1, Kill Bill 2), um fã do cinema asiático e dos filmes violentos. A pose de Cho segurando um martelo na foto, que aparentemente tirou de si mesmo, é similar à do ator Choi Min-sik, como Oh Dae-su, no cartaz do filme Oldboy, do diretor da Coréia do Sul, Park Chan-uk. O filme é agressivo nas cenas de sexo e até no restaurante, onde Oh Dae-su come um polvo vivo.Um dia de espanto foi este 18 de abril, quando uma das maiores redes de televisão americanas anunciou ter recebido um kit de mídia do assassino da universidade Virginia Tech, com vídeo, fotos e um texto de 1.800 palavras. Cho Seung-hui foi uma espécie de repórter de si mesmo. Usou o todos os recursos tecnológicos à disposição e produziu sua notícia com requinte. Enquanto todos procuravam informações a seu respeito para tentar descobrir suas motivações, ele se antecipou e disponibilizou tudo numa espécie de perfil virtual.Curioso, foi que em vez do correio eletrônico, usou o velho método do envelope e da caixa de correio para enviar sua mensagem, de forma expressa, para que chegasse no dia seguinte. Mas, por um erro no código postal o material só foi visto nesta quarta, 18.O prosaico atraso acabou fazendo com que seu estrelato macabro se estendesse um pouco mais. Passados dois dias do crime - o que na escala de tempo do noticiário online pode ser considerado um passado distante - e o massacre começando a ter menos destaque no noticiário, o solitário garoto coreano ressurgiu triunfal, usando todos os recursos de mídia e mostrando as suas armas.

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