O debate sobre o capitalismo

Romney, o personal trainer capaz de pôr na linha empresas gorduchas, não consegue traduzir suas virtudes em votos

DAVID BROOKS, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

18 de julho de 2012 | 03h05

Digamos que você seja presidente em uma época de persistente crise econômica. No seu mandato, começou uma série de grandes medidas na convicção de que recuperariam a economia, mas elas não funcionaram - por serem insuficientes ou ineficientes. Qual será sua plataforma com vistas à reeleição nessas circunstâncias? Passará toda a campanha dizendo que as coisas teriam sido melhores se você não tivesse agido do modo como agiu? Não, seria patético. Você parte para o ataque. Em vez de defender sua política econômica, ataca o capitalismo moderno em suas manifestações, culpa o sistema pela situação da economia e o fará com redobrada ferocidade se o seu adversário for a própria personificação do sistema.

É o que a campanha de Obama parece estar fazendo nos últimos meses. Em vez de defender as medidas adotadas nos últimos quatro anos, começou uma série de ataques aos aspectos do moderno capitalismo que desagradam às pessoas.

Elas não gostam de ver empresas malsucedidas indo à falência. Obama ataca a questão com vídeos que mostram o fechamento de uma siderúrgica, meses atrás. Elas não gostam dos salários dos CEOs. O presidente Obama ataca esse ponto regularmente. Não gostam de trapaças financeiras. Obama bate nessa tecla. Não gostam das empresas que terceirizam suas operações ou que as transferem para o exterior. Esta semana, Obama atacou justamente esse tema.

Agora, o presidente exibe um anúncio no qual Mitt Romney canta desafinando o hino patriótico America the Beautiful, enquanto a legenda que aparece na tela o critica violentamente por transferir empregos para a China, Índia e México.

A exatidão do anúncio foi questionada por vários grupos preocupados em checar tudo o que se passa. Isso não nos deterá. É mais seguro supor que todos os vídeos que estamos vendo este ano serão pelo menos um tanto imprecisos, porque os seus idealizadores agora fazem da desonestidade uma marca de sua peculiaridade profissional.

O que importa é a ideologia por trás do anúncio: o pressuposto de que a Bain Capital, a empresa fundada por Romney, não deveria ter investido em companhias que contratavam trabalhadores no exterior. O pressuposto de que contratação de trabalhadores mexicanos ou indianos não é patriótica. Ou de que nenhuma pessoa digna faria o que a maioria dos líderes empresariais globais vem fazendo nos últimos 50 anos.

Esse anúncio - e a retórica utilizada pela campanha em geral - desafia toda a lógica do capitalismo consagrada há várias décadas. Faz parte de um ataque abrangente contra o sistema econômico personificado por Romney.

Essa mudança de foco foi ousada. Durante a sua presidência, Obama não criticou a globalização. Não existem provas concretas de que, quando não está em campanha, ele tenha algum problema com respeito à subcontratação ou à mudança de empresas de lugar. Elogiou profusamente pessoas como Steve Jobs, que eram profissionais exemplares. Contratou pessoas como Jeffrey Immelt, o diretor executivo da General Electric, cuja empresa personifica as vantagens da globalização. Seus assessores econômicos costumavam fazer propaganda dos benefícios da globalização mesmo quando trabalhavam para os que são prejudicados por suas desvantagens.

Politicamente falando, essa tática agressiva funcionou. Transferiu o foco da corrida presidencial do tema do governo onipresente, que Obama representa, para o do capitalismo, que Romney representa.

Assim como os republicanos prometeram anos a fio aos eleitores que os cortes de impostos seriam permanentes, os democratas prometem aos eleitores que poderão desfrutar de todos os benefícios do capitalismo sem suas desvantagens, como o fechamento de fábricas, CEOs que viraram magnatas e as subcontratações. Assim como os republicanos costumavam forçar os democratas a aceitar a elevação dos impostos para pagar os programas democratas, agora os democratas forçam os republicanos a aceitar a subcontratação e as dores da destruição criativa se quiserem a prosperidade.

Aparentemente, a campanha de Romney não sabe o que responder. Durante séculos, os principais expoentes da iniciativa privada se mostraram ineptos enquanto escritores, intelectuais e políticos atacavam o capitalismo. Até o momento, a campanha de Romney persiste nessa atitude.

Uma coisa é certa. Como Arthur Brooks, do American Enterprise Institute, não se cansa de repetir, não basta dizer que o capitalismo permitirá que você ganhe dinheiro. Você não pode lutar contra o que é essencialmente uma crítica moral à economia.

Romney terá de definir uma visão do moderno capitalismo. Terá de separar essa visão dos escândalos e dos excessos que vimos nos últimos anos. E precisa definir que tipo de capitalista ele é e por que o país precisa das suas virtudes.

Contudo, não podemos deixar de admitir: ele não é um empresário heroico. É um especialista em eficiência. O trabalho de toda a sua vida foi comprar empresas medíocres e esclerosadas e tentar torná-las eficientes e dinâmicas. Sua tarefa tem sido ser a versão corporativa de um personal trainer: pegar os gorduchos e os indulgentes consigo mesmos e obrigá-los a entrar em forma. E seus pontos fortes são exatamente estes: rigor e produtividade.

Se ele conseguir criar uma visão capitalista em torno disso, será bem-sucedido. Se não, será apenas um saco de pancadas. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

*É COLUNISTA

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