O derretimento chavista

Diante de uma mudança de governo na Venezuela, os EUA precisam ter uma nova atitude

JOSÉ R., CÁRDENAS, FOREIGN POLICY, O Estado de S.Paulo

19 de outubro de 2013 | 02h09

Enquanto republicanos e democratas persistiam em seu impasse em Washington, desdobramentos no exterior que afetam diretamente os interesses de segurança americanos continuam acelerados. Pense em vários pedregulhos despencando morro abaixo. Resta esperar que o Tio Sam distraído não seja atropelado por um deles.

Na Venezuela, o quatro maior fornecedor de petróleo bruto para os EUA e seu 14.º maior parceiro comercial, as condições vão de mal a pior. O infeliz sucessor de Hugo Chávez, o presidente Nicolás Maduro, requisitou poderes de emergência que, segundo ele, são necessários para salvar a economia em queda livre - incluindo uma taxa de inflação entre as mais altas do mundo, o colapso dos serviços públicos e a escassez de gêneros de primeira necessidade, como leite, carne e papel higiênico. Isso num país que está sentado sobre as maiores reservas de petróleo do mundo.

Até agora, Maduro foi pouco mais que um alvo de ridículo desde que reclamou uma vitória suspeita sobre o desafiante Henrique Capriles na eleição em abril, após a morte de Chávez. Obcecado por atribuir a outros os males da Venezuela, ele anunciou cerca de 13 conspirações contra seu governo, mais 4 complôs de assassinato.

Essa estratégia já se desgastou, contudo; foi-se o momento para diversões e jogos. Nem mesmo a receita anual de petróleo, de US$ 100 bilhões, foi suficiente para resolver uma taxa de inflação de 69%, um índice de escassez de 20%, o dólar sendo negociado no mercado negro a sete vezes a taxa oficial, a corrupção galopante, apagões elétricos e uma criminalidade pavorosa.

A situação simplesmente não é sustentável - e Maduro não tem soluções, nem muita margem de manobra. Seus mentores cubanos estão insistindo para que ele mantenha a linha e reforce as políticas econômicas centralizadoras. A dinâmica principal na Venezuela hoje, porém, não é entre o governo e a oposição, mas dentro do próprio regime. Isso porque não faltam figuras poderosas no governo que continuam a se identificar orgulhosamente com o movimento de Chávez, mas que claramente reconhecem que o país está se desintegrando e a incompetência de Maduro está piorando as coisas.

Nova chance. Além disso, muitos deles, em especial os militares, sempre se ressentiram da pesada presença cubana nos altos escalões da tomada de decisões civis. Caberá a essas forças recolher os pedaços quando os descaminhos de Maduro finalmente o derrubarem.

O governo de Barack Obama não deve ser apanhado de calças curtas no caso de uma mudança de liderança na Venezuela. O Departamento de Estado passou os últimos seis meses fazendo tudo o que podia para normalizar relações com o governo Maduro, mas a recente expulsão dos encarregados de negócios americanos - o embaixador foi expulso há mais tempo - levou esse esforço a um abjeto fim.

Agora, eles precisam de um plano muito diferente, um que procure ajudar a guiar uma transição pacífica para um governo pós-Maduro menos hostil aos EUA. Uma coisa é certa, Rússia, China, Irã e Cuba - todos pesadamente interessados na ala radical do regime - não ficarão de lado deixando os fatos se desenrolarem.

Certamente, há sempre uma chance de Maduro conseguir escapar dos apuros (o petróleo é um excelente lubrificante), mas essa é uma aposta arriscada. Uma data importante é o 8 de dezembro, quando a Venezuela deverá ter eleições municipais. Muitos veem essas eleições como um referendo sobre a presidência de Maduro. Se o partido governante se der bem, isso poderá dar tempo para Maduro. Se não, segurem-se firme.

Uma transição venezuelana trará oportunidades significativas para uma bem-vinda correção de curso para fortalecer os interesses de segurança americanos na região. Muita gente desonesta acredita ter atingido a mina de ouro no chavismo, gente que lucrou imensamente às custas dos interesses americanos. De qualquer modo, esteja ou não um governo pós-Maduro interessado numa relação menos tóxica com Washington, os EUA terão novas oportunidades de influir na região.

Os interesses americanos repousam em nada menos que a expulsão dos cubanos, dos iranianos e dos cartéis da droga do território venezuelano. Se uma nova liderança na Venezuela buscar um futuro sem essas associações nefastas, o povo venezuelano e seus amigos históricos nos EUA poderão se beneficiar. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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