O desafio da água na árida Austrália

Apesar de caros e combatidos por ambientalistas, equipamentos de dessalinização[br]surgem como alternativa para suprir a necessidade de 22 milhões de australianos

Norimitsu Onishi The New York Times, O Estado de S.Paulo

19 de julho de 2010 | 00h00

Na Austrália, o continente habitado mais seco do mundo, os primeiros exploradores britânicos em busca de uma fonte de água potável esquadrinharam o território árido em busca de um lendário mar interior. Um deles chegou a transportar um baleeiro centenas de quilômetros da costa, para o interior do continente, mas só encontrou deserto. Hoje, os australianos seguem na direção oposta: do mar.

Num dos maiores projetos de infraestrutura do país, as cinco maiores cidades da Austrália estão aplicando US$ 13,2 bilhões em usinas de dessalinização, com capacidade para sugar milhões de galões de água dos oceanos por dia, removendo o sal e produzindo água potável. Em dois anos, quando a última usina deverá estar pronta, as grandes cidades australianas estarão tirando 30% da sua água potável do mar.

O país ainda se recupera da sua pior seca, que durou uma década e o governo diz ter sido provocada pelas mudanças climáticas. Com a escassez de água cada vez mais premente, outros países, incluindo EUA e China, também começam a se voltar para o mar.

"Nós nos consideramos a cobaia em relação às mudanças dos sistemas de oferta de água causadas pelo aquecimento global", disse Ross Young, diretor da Water Services Association, da Austrália, consórcio das concessionárias de água do país. Ele descreveu o custo de US$ 13,2 bilhões como "o preço da adaptação às mudanças climáticas".

A dessalinização também causa críticas ferozes e protestos da população. Muitos proprietários de imóveis, irritados com a conta de água cada vez mais alta, e os ambientalistas, preocupados com os efeitos que essas usinas terão sobre o clima, qualificam os projetos de elefantes brancos. Medidas rigorosas de conservação de energia, como máquinas de lavar mais econômicas, poderiam atenuar o problema de forma mais eficaz.

A dessalinização também contribuiu para abafar o entusiasmo por uma "grande Austrália" - uma projeção feita por um governo que defende a imigração, de que a população, de 22 milhões hoje, passará a 36 milhões de habitantes em 2050.

"Um grande desperdício de dinheiro", disse Helen Meyer, de 65 anos, aposentada de Tugun, cidade onde o Estado de Queensland instalou uma estação de dessalinização de US$ 1 bilhão no ano passado. A usina, que ocupa uma área de seis hectares, próxima de um aeroporto e um bairro residencial, fornece água para Brisbane, capital de Queensland, e outras áreas a sudeste do Estado, região que cresce mais rápido no país. Apesar dos problemas técnicos que provocaram o fechamento temporário da planta, ela vem cobrindo 6% da necessidade de água da região e tem capacidade para chegar a 20%, disse Barry Dennien, diretor executivo da SEQ Water Grid Management, concessionária que controla a oferta de água de toda essa área.

A seca na região durou de 2000 a 2009. O principal reservatório, Wivenhoe, teve sua capacidade reduzida para apenas 16%. Apesar de restringir o uso da água e subvencionar a compra de água residencial graças à captura de água da chuva, o Estado gastou quase US$ 8 bilhões para criar a mais sofisticada rede de aprovisionamento de água do país. Modernizou barragens e uma rede de dutos para ligar 18 concessionárias independentes numa única grade.

Outras cidades estão fazendo a mesma aposta. Perth, que abriu a primeira planta de dessalinização em 2006, está erigindo a segunda. A usina de Sydney começou a operar no início do ano, e outras perto de Melbourne e Adelaide estão em construção.

Até alguns anos, a maior parte das usinas de dessalinização em larga escala, no mundo, estava no Oriente Médio, especialmente na Arábia Saudita. Nos EUA, onde apenas uma usina está em funcionamento, em Tampa Bay, as autoridades estão propondo a construção de outras na Califórnia e no Texas, disse Tom Pankratz, diretor da Associação Internacional de Dessalinização. A China, que inaugurou recentemente sua maior usina de dessalinização em Tianjin, poderá ainda ultrapassar a Arábia Saudita como a líder mundial nesse campo.

Muitos ambientalistas e economistas são contrários à uma expansão dessas usinas por causa do seu preço e porque elas ajudam a tornar mais crítico o aquecimento global. A energia necessária para remoção do sal da água do mar representa 50% do custo da dessalinização e a Austrália depende do carvão, o maior emissor de gases com efeito estufa, para gerar a maior parte da sua eletricidade.

Para os críticos, a dessalinização vai colaborar ainda mais para as mudanças climáticas que vêm agravando a escassez de água do país. Para tornar esse processo politicamente palatável, as usinas australianas estão usando energia de fazendas eólicas ou energia classificada como limpa, muito cara. Para os moradores nas cidades, com as novas usinas as contas de água devem dobrar nos próximos quatro anos, de acordo com a Water Services Association.

Os que se opõem a esses projetos dizem que existem alternativas mais baratas. Defendem medidas de conservação de energia, como uma melhor administração das reservas das águas subterrâneas e da captação de água.

"Quase todas as cidades que erigiram uma usina de dessalinização não chegaram a lugar nenhum no sentido de maximizar ou aumentar o seu potencial de conservação", disse Stuart White, diretor do Institute for Sustainable Futures, na Universidade de Tecnologia de Sydney.

Adversários da dessalinização dizem que é mais barato reciclar a água já usada, embora convencer as pessoas a beberem dessa água seja difícil e politicamente delicado.

"Há um estigma contra água reciclada", disse David Mason, morador de Tugun. "Mas como não existe tanta água no mundo, talvez não seja uma alternativa assim tão terrível. Pelo menos pode ser melhor do que a dessalinização." / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

É EDITOR- CHEFE DA SUCURSAL DE "THE NEW YORK TIMES" NO JAPÃO

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