Heba Khamis/The New York Times
Heba Khamis/The New York Times

O desafio das mulheres que trazem a educação sexual para países árabes

Ativistas estão usando redes sociais para fazer algo que os países árabes não fazem: ensinar a mulher a respeito de seus próprios corpos. Elas buscam nada menos do que um despertar cultural

Mona El-Naggar e Sara Aridi, The New York Times, O Estado de S.Paulo

19 de novembro de 2021 | 15h00

CAIRO - Quando Nour Emam decidiu se dedicar a educar mulheres árabes a respeito de seus próprios corpos, o assunto era um tabu tão imenso que o primeiro desafio dela foi descobrir como pronunciar em árabe a palavra "clitóris".

"Eu nunca tinha escutado essa palavra", afirmou Emam, de 29 anos, ativista em defesa da saúde da mulher que vive no Cairo. "Ninguém usa essa palavra, então, não havia onde encontrar a maneira correta de pronunciá-la."

Após uma pesquisa cuidadosa, agora ela sabe. Assim como suas centenas de milhares de seguidoras nas redes sociais, onde ela mantém uma das principais plataformas de educação sexual do mundo árabe.

Em face a uma educação sexual mínima ou não existente em grande parte do Oriente Médio e uma cultura patriarcal que deixa muitas mulheres árabes ignorantes ou envergonhadas a respeito dos próprios corpos, Emam e um crescente número de ativistas têm construído plataformas online para tentar corrigir esse lapso.

Usando internet para contornar tabus sociais e censura de governos, elas estão educando as mulheres árabes a respeito de seus próprios corpos, despedaçando mitos e  desinformação - e, em alguns casos, transformando as vidas de mulheres.

No Cairo, Emam, conhecida na internet como "motherbeing", postou centenas de vídeos no Instagram e no TikTok, nos quais discute temas íntimos de maneira deliberadamente casual, às vezes enquanto está cozinhando. Ela iniciou um podcast sobre saúde sexual e reprodutiva em março; o primeiro episódio, a respeito de orgasmos, atraiu dezenas de milhares de ouvintes.

A plataforma online Mauj - um projeto pan-árabe integrado por mulheres de vários países - publica posts educacionais sobre saúde sexual e reprodutiva e vende pelo correio vibradores, que são proibidos em muitos países árabes.

A plataforma online "Falando de sexo em árabe", produzida por um grupo de mulheres árabes do Oriente Médio e expatriadas, atraiu dezenas de milhares de seguidoras no Instagram e no Facebook, com seus gráficos explicativos e vídeos sobre sexo e defesa dos direitos LGBTQ. "Nosso principal objetivo é quebrar tabus e mitos", afirmou sua fundadora, Fatma Ibrahim, de 32 anos.

Médicas como Sandrine Atallah, sexóloga de Beirute, Líbano, e Deemah Salem, ginecologista obstetra de Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, estão usando o YouTube e o Instagram para derrubar mitos e estereótipos a respeito de sexualidade que são comuns  no mundo árabe, como a crença de que usar absorventes íntimos tira a virgindade da mulher.

"Isso é um acontecimento", afirmou Nancy Ali, pesquisadora-associada da Universidade Sorbonne, de Paris, especializada em estudos de gênero e memória no Oriente Médio e Norte da África. "Nossa cultura e linguagem relativa ao sexo é extremamente eufemística; então, a ideia de falar de órgãos sexuais de maneira direta é novidade para nós, sem mencionar o fato de que são mulheres que estão falando sobre isso."

Num momento em que as redes sociais estão sob ataque por espalhar desinformação, essas iniciativas e outros esforços similares estão usando essas plataformas para reagir à desinformação, explorando a capacidade da mídia de transversalidade em termos de classes sociais e fronteiras nacionais, para comunicar-se com mulheres árabes de todo o mundo.

Conjuntamente, afirmam ativistas, esses sites e plataformas poderão ocasionar uma transformação cultural, um tipo de revolução "Nossos corpos, nossas vidas" para o mundo árabe, mas 50 anos depois e pelo smartphone.

Países árabes são extremamente atrasados em relação ao restante do mundo em termos de igualdade de gênero, saúde reprodutiva e educação sexual.

Cerca de 40% das gestações não são planejadas nos países árabes, de acordo com um estudo de 2018 do Instituto Guttmacher. Mutilação genital feminina é comum em vários países. O índice de gravidez na adolescência é mais elevado que a média mundial.

E de acordo com um estudo das Nações Unidas, nenhum país árabe oferece educação sexual detalhada nas escolas. A Tunísia, um dos países árabes mais liberais socialmente, introduziu um aplicativo gratuito de educação sexual no ano passado, mas planos para aulas de educação sexual nas escolas travaram.

As novas plataformas em redes sociais estão intervindo para fornecer informações factuais e mostrar pontos de vista de mulheres num campo em que tradições patriarcais, doutrinas religiosas conservadoras e, mais recentemente, a pornografia online têm estabelecido o tom.

Ainda que as abordagens desses sites e plataformas variem, a maioria tem o foco em educar as mulheres sobre sua própria anatomia, falar de sexo e desmantelar costumes  considerados prejudiciais para as mulheres.

Um alvo principal é a crença religiosa de que as mulheres tem o dever de atender todo e qualquer desejo sexual de seus maridos, uma obrigação fundamentada em uma citação atribuída ao profeta Muhammad, de que "os anjos amaldiçoam" a mulher que rejeitar o marido. As ativistas buscam substituir essa noção por uma abordagem com base em consentimento.

Outra bolha que elas pretendem estourar é a concepção no Oriente Médio que liga a honra da família à virgindade da mulher.

Têm havido reações de conservadores, normalmente na forma de comentários em resposta a postagens de artigos ou vídeos.

"De jeito nenhum eu permitiria que minha irmã ou filha vissem coisas como essas ainda virgens, antes de casar", afirmou Ahmed Osama, de 25 anos, um engenheiro de computação do Cairo que se irritou com um post a respeito de masturbação. "Por que trazer à sua consciência coisas assim, em vez de ensiná-las a ser boas donas de casa ou como resistir, tolerar e amar? O que aconteceu com o recato e a religiosidade?"

A egípcia Norhan Osama, de 24 anos, representante de suporte ao cliente de Gizé, afirmou que reconhece a necessidade de educação, mas se preocupa com a possibilidade dessas plataformas tirarem "a vergonha e o constrangimento" de quem realizar algo ruim.

"Se você não for forte em suas crenças, pode sair por aí achando que tudo bem fazer sexo quando não é casada", afirmou ela. "Isso é pecado. Essa resposta é simples."

Talvez a maior diferença entre o fenômeno atual e as interações anteriores a respeito de sexo no mundo árabe, em artigos de aconselhamento e programas de TV, seja que as novas plataformas priorizam a linguagem direta. Sem exceção, elas são mais francas e explícitas.

Para Emam, falar abertamente da sexualidade das mulheres - incluindo fazê-las se acostumar a ouvir a palavra clitóris - é parte de uma missão mais ampla de romper com o que ela descreveu como um ciclo intergeracional de traumas, que leva muitas mulheres árabes a sentir que "nossa existência é errada, indecente e pecaminosa".

Não pronunciar essa palavra, afirmou ela, "foi outra maneira de nos distanciar de uma conexão verdadeira com nossos corpos, nossa herança e nossas raízes".

Emam trabalhava em tempo integral como DJ de música techno antes de se tornar mãe e desenvolver depressão pós-parto, o que a levou a obter treinamento de doula, a profissional que dá apoio a mulheres em trabalho de parto; e a partir daí ela colocou o foco em saúde reprodutiva e educação sexual.

Emam é egípcia, mas afirmou que aproximadamente 25% de suas seguidoras nas redes sociais são de outros países, como Arábia Saudita, Iraque, Emirados Árabes Unidos, Jordânia e Marrocos. O esforço parece atender a uma necessidade.

Sarah el-Setouhy, de 30 anos, economista especializada em petróleo que vive no Cairo e compareceu à aula virtual "Entendendo o nosso ciclo", via Zoom, afirmou que sofria dolorosas cólicas durante a menstruação. Ela disse que tinham ensinado ela "a simplesmente conviver com isso" e, segundo um mito comum, que a dor diminuiria quando ela se casasse e tivesse filhos.

Emam disse a ela que essa dor poderia ser causada por numerosos fatores e a encorajou a procurar um médico.

"Ela nos dá convicção para entender nosso corpo", afirmou El-Setouhy. "Trabalhei muito a mim mesma desde então." Pouco a pouco, esses intercâmbios transformam a sociedade, argumenta Emam.

"Acho que as mulheres começaram a acordar", afirmou ela. "E nós amplificamos nossas vozes." Para ilustrar a conexão entre os vários esforços no mundo árabe, ela mostrou um presente que recebeu pelo correio: um vibrador da plataforma Mauj.

A Mauj ("ondas" em árabe) foi fundada no ano passado por duas mulheres de 32 anos, que pediram para não ser identificadas por temer as repercussões a respeito de seu trabalho. Elas afirmaram que, quando eram meninas, não receberam nenhum tipo de educação sexual além de alguma rápida conversa sobre menstruação e alertas para não engravidar.

Em um esforço para criar "um espaço livre de julgamentos", para falar de temas há muito tempo reprimidos, a Mauj tem uma série de vídeos que convidam as mulheres a compartilhar suas experiências anonimamente, em relação a sexo, body shaming e assédio sexual.

Ao contrário de outras plataformas, a Mauj também criou um produto: um vibrador destinado a mulheres árabes que valorizam tanto o recato como o desejo sexual. Em nome da discrição, o aparelho tem a forma de uma gota e cabe na palma da mão.

Vibradores não são comercializados abertamente em países árabes, e alguns países os proíbem estritamente. Os Emirados Árabes Unidos, por exemplo, impõem sua proibição com base no banimento a "itens que contradizem a fé islâmica e a moral pública".

As fundadoras da Mauj consideram seus vibradores extensões de sua missão educacional: desenvolveram-nos para inspirar as mulheres a ser mais curiosas em relação ao próprio corpo, afirmaram elas, e para combater a noção comum de que o prazer masculino teria precedência em relação ao feminino.

Salem, a ginecologista obstetra de Dubai, criou uma conta no Instagram destinada a muçulmanas conservadoras tímidas demais, com vergonha ou medo de consultas ginecológicas.

"No Oriente Médio, há uma percepção equivocada de que as meninas só devem ir ao ginecologista depois de casadas", afirmou ela. "Muitas passam anos sem se consultar, com medo de que algum exame pélvico lhes tire a virgindade."

Mulheres e meninas mandam suas perguntas pelo Instagram, e ainda que ela não possa receitar tratamentos nem dar diagnósticos por meio da rede social, ela dá conselhos genéricos, sabendo que muitas delas nunca foram a nenhuma clínica.

Outro problema comum que ela constatou é que a ênfase no celibato anteriormente ao casamento, com frequência impingido pelo medo, pode se estender para o casamento. Ela afirmou que uma virgem pode se deitar ao lado do marido na noite de núpcias e de repente se ver tomada por medo e desconforto, que podem se manifestar fisicamente em vaginismo, uma condição na qual os músculos vaginais se contraem involuntariamente durante a penetração. Para algumas mulheres, as novas plataformas mudaram suas vidas de maneiras simples, mas poderosas.

A egípcia Salma, de 32 anos, uma professora do ensino médio que preferiu não se identificar pelo sobrenome, afirmou que uma aula que teve com Emam a fez se sentir mais confortável com o próprio corpo.

Quando ela fica menstruada, por exemplo, não sente mais a necessidade de ocultar o absorvente quando o leva para o banheiro. "Afinal, o que tenho a esconder?", afirmou. Ela descobriu que seu corpo é uma fonte de prazer.

"Eu achava que masturbação era uma coisa vergonhosa", afirmou ela. "Mas agora sei que isso é normal e natural, algo que a gente deve fazer e desfrutar." E ela sabe o nome disso em árabe.

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