O desafio de restabelecer a ordem

Junta militar que governa o Egito deve buscar um equilíbrio para lidar com protestos como o que resultou na invasão da embaixada de Israel para não perder sua legitimidade

David D. Kirkpatrick, The International Herald Tribune, O Estado de S.Paulo

14 Setembro 2011 | 00h00

Reconhecendo a crise de credibilidade que se instalou depois de ter sido permitido que uma multidão furiosa invadisse a Embaixada de Israel no Cairo, na sexta-feira, o governo egípcio de transição, liderado pelos militares, disse que reinstalaria a detestada "lei de emergência" que permite detenções extrajudiciais como parte de uma nova onda de repressão aos protestos mais caóticos.

"O Egito está passando por uma crise real que está ameaçando sua segurança interna e externa", disse Osama Heikal, ministro de Comunicação, após uma reunião de emergência do gabinete com o conselho militar que assumiu o poder após a deposição do presidente Hosni Mubarak. "Esse incidente prejudicou a imagem do Egito e sua posição diante da comunidade internacional e isso não pode ser aceito." O pronunciamento marcou uma repentina reviravolta para o conselho militar, que tinha prometido eliminar a lei impopular que vigora há 30 anos. Sua revogação era uma das principais exigências da revolução.

Ainda não está claro como o governo militar pretende aplicar sua nova declaração - uma junta militar governa há sete meses enquanto a Constituição está suspensa, eliminando, assim, o direito a um julgamento justo. Essa junta já tinha advertido que protestos violentos não seriam tolerados, sem que isso tivesse causado grande efeito. Mas o pronunciamento pareceu representar a ameaça de um recuo nas novas liberdades do Egito.

A declaração sublinhou também a dificuldade do desafio enfrentado pelo governo chefiado pelos militares enquanto este luta para devolver a ordem às ruas egípcias sem prejudicar sua legitimidade, já tênue.

Apesar de às vezes ter surpreendido os manifestantes com o uso de força e encaminhado mais de 12 mil civis a rápidos julgamentos militares, o conselho militar buscou também evitar o confronto com os manifestantes nas ruas e atender às demandas deles para poder preservar sua posição diante dos olhos do público.

Essa estratégia mostrou-se desastrosa na noite de sexta-feira, quando milhares de manifestantes atacaram a embaixada israelense. Alguns escalaram o edifício e arrancaram a bandeira israelense, enquanto outros invadiram os escritórios e começaram a jogar nas ruas pastas cheias de documentos. Quando um batalhão da tropa de choque finalmente começou a encher as ruas de gás lacrimogêneo, os manifestantes contra-atacaram arremessando pedras e coquetéis molotov.

Representantes egípcios disseram que ao menos três manifestantes tinham morrido nos embates perto da embaixada - um deles teve um enfarte - e 1.200 ficaram feridos. Anunciando a nova onda de repressão, o conselho militar disse no sábado que os 19 detidos seriam encaminhados para julgamentos militares, e não a tribunais civis.

Ao menos um dos manifestantes que invadiram a embaixada israelense disse que a polícia militar o tinha obrigado a sair do edifício, mas permitiu que permanecesse em liberdade, levando a um questionamento da consistência da nova repressão anunciada pelo Exército.

Compromissos. O embaixador israelense e 85 diplomatas foram tirados do país com suas famílias de madrugada. Os diplomatas disseram que ter permitido a invasão de uma embaixada estrangeira foi uma quebra extraordinária dos compromissos internacionais do Egito, levando imediatamente a uma crescente preocupação com a segurança de outras embaixadas na capital.

Testemunhas disseram que, além de atacar a embaixada israelense, os manifestantes também ameaçaram a embaixada da Arábia Saudita, país que muitos egípcios acreditam ter pressionado o governo provisório a evitar o estabelecimento de um precedente de vingança contra Mubarak. "A Arábia Saudita e Mubarak são faces da mesma moeda", cantavam os manifestantes. Mubarak está atualmente sendo julgado por corrupção e por conspirar para matar manifestantes no início deste ano. Heikal, porta-voz do governo egípcio, comentou especificamente os temores dos diplomatas, prometendo que o Egito respeitará integralmente todos os seus compromissos internacionais.

A violência do ataque contra a embaixada israelense e de outro ataque que depredou as paredes do ministério egípcio do interior marcou uma ruptura em relação ao caráter antes pacífico das frequentes manifestações na Praça Tahrir, no Cairo, desde o início da revolução.

Políticos egípcios de todos os tipos - desde os jovens líderes da revolução até liberais e radicais islâmicos mais velhos - falaram no sábado contra o uso da violência.

Uma coalizão de jovens organizadores da revolução convocou uma entrevista coletiva para responsabilizar o conselho militar por não ter proporcionado nenhuma segurança durante o dia e à noite, tendo respondido com força brutal já tarde da noite.

Muitos líderes políticos também tomaram o cuidado de distanciar-se de todo tipo de apoio a Israel. Entre os muitos pontos de objeção a Mubarak estava a sua irredutível devoção à aliança do Egito com Israel e os Estados Unidos, ainda que ao preço da supressão do ressentimento popular em relação a Israel por causa do tratamento dispensado aos palestinos. E tanto os candidatos políticos aspirantes quanto o conselho militar atualmente no poder têm tomado o cuidado de se manter do lado mais popular na disputa.

De acordo com Gamal Abdel Gawad, diretor do Centro de Estudos Políticos e Estratégicos Al-Ahram, levando-se em consideração a crescente pressão pública, restaurar as relações com Israel pode ser "uma árdua batalha". / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

É JORNALISTA

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.