J. Scott Apllewhite/AP
J. Scott Apllewhite/AP

O desafio de restaurar o poder dos EUA

Discurso de Obama sobre o Estado da União dá a entender que só a retomada da competitividade impedirá o declínio da superpotência

David E. Sanger, The New York Times, O Estado de S.Paulo

27 de janeiro de 2011 | 00h00

WASHINGTON

Enquanto em Washington há pressões para reduzir drasticamente o orçamento e a intervenção do governo, o presidente Barack Obama afirmou em seu discurso sobre o Estado da União, na noite de terça-feira, que a política de austeridade aplicada de maneira pouco sensata acabará resultando em uma rendição antecipada à China, Índia e a uma série de pequenos concorrentes que estão investindo enquanto os EUA estão cortando verbas.

É um tema que Obama vem reiterando desde a devastadora derrota sofrida pelos democratas nas eleições de novembro. No discurso ao Congresso e à nação, ele disse que este é "o momento Sputnik da atual geração".

Foi assim que o presidente definiu o embate ideológico do próximo ano: visões totalmente diferentes do papel do governo, mesmo que ambas as partes concordem que os cortes serão necessários. Para a nova maioria republicana da Câmara, a restauração da "competitividade" americana consistirá em cortar drasticamente os impostos e afastar o governo para um segundo plano. Para Obama, mesmo que seja menor a intervenção do governo, ele terá de nortear o futuro econômico do país, ajudando os EUA a fazer frente às potências econômicas emergentes que abalam a liderança americana enquanto o país estava distraído na década que se seguiu ao 11 de Setembro.

"Os sul-coreanos têm mais acesso à internet do que nós", disse Obama, enumerando os pontos em que os EUA ficaram para trás. "Os países da Europa e a Rússia investem mais em estradas e ferrovias do que nós. A China está construindo trens mais rápidos e aeroportos mais modernos." Em outro momento, ele ressaltou que o maior centro de pesquisa solar privado e o supercomputador mais rápido do mundo agora estão na China.

Obama não é o primeiro presidente que procura reacender o espírito de competição da Guerra Fria na tentativa de obrigar os americanos a deixar de lado as diferenças políticas e unirem-se para enfrentar uma ameaça comum à sua prosperidade e segurança. "Os americanos estão propensos a crer ciclicamente em seu próprio declínio", escreveu Joseph Nye em sua mais recente análise da situação atual dos EUA no mundo, The Future of Power (O futuro do poder, numa tradução livre).

Obama procurou claramente fazer com que os EUA deixem de lado o medo, afirmando que nenhum país tem uma capacidade de compromisso mais profunda, melhores universidades ou maior espírito empreendedor. Mas também acrescentou que esses são bens frágeis e se disse convencido de que os americanos esperam que seu governo continue mantendo a liderança do país, posição que o coloca em confronto direto com as demandas de um governo menos intervencionista, insufladas pelo movimento do Tea Party .

Em seu discurso, Obama tentou mais uma vez diferenciar suas táticas de curto prazo para que o país volte a funcionar - que o levaram a concordar com a prorrogação dos cortes dos impostos, incluindo muitos cortes que ele considera pouco prudentes - e a estratégia de longo prazo que prevê investimentos seletivos e redução do déficit.

"Vamos garantir que o que estamos cortando são realmente os excessos", disse Obama, seguindo o que entendemos como a linha condutora do seu discurso de uma hora, dirigido na maior parte à bancada do Tea Party. "Cortar o déficit depredando nossos investimentos em inovação e educação é como aliviar o peso de um avião sobrecarregado retirando o motor. Talvez de início você tenha a impressão de estar voando alto, mas não demorará muito para sentir o impacto."

Como vários dos seus assessores reconhecem - principalmente os que deixaram a Casa Branca ou estão prestes a fazê-lo -, Obama não conseguiu conquistar o país para a defesa de sua estratégia de combate à maior crise econômica desde a Grande Depressão.

Sua vitória na questão da saúde teve um custo enorme. A quantidade de execuções de hipotecas e uma taxa de desemprego pouco inferior a 10% pareceram um sintoma de deriva nacional, de queda.

Agora, seu desafio é ganhar na disputa contra os que afirmam que quando o governo intervém na economia, em geral é para pior. "Como nem sempre é lucrativo para as companhias investir em pesquisa básica, ao longo de toda a história o nosso governo forneceu a cientistas e inventores pioneiros o suporte financeiro de que precisavam", ele disse. "Foi assim que foram plantadas as sementes da internet. Foi assim que surgiram inventos como os chips de computador e o GPS."

Mas Obama evitou tratar diretamente da realidade da competitividade americana hoje - inovação, educação e infraestrutura são os ingredientes necessários para vencer a concorrência global, mas não uma garantia. Muitas tecnologias de ponta com as quais Obama conta são o produto de joint ventures que combinam ideias americanas, design europeu e fabricação asiática.

"Realizamos grandes obras", repetiu por duas vezes Obama na conclusão do seu discurso. Essa era a marca dos EUA no século passado.

Um dos subtextos do discurso foi que, hoje, realizar grandes obras exige um pouco mais de humildade, um pouco mais de trabalho, e parceiros internacionais que os americanos nem sequer imaginavam cerca de 20 anos atrás, mas cuja concorrência agora eles temem. / TRADUÇÃO ANNA CAPOVILLA

Perda de competitividade

BARACK OBAMA

PRESIDENTE AMERICANO

"Um governo do século 21 que seja aberto e competente. Um governo que viva de acordo com suas posses. Uma economia que seja impulsionada por novas capacidades e ideias. Nosso sucesso neste mundo em mudança exigirá reforma, responsabilidade e inovação"

"Este é o momento Sputnik da nossa geração (referindo-se ao satélite que os soviéticos colocaram em órbita antes dos EUA). Há dois anos, eu disse que tínhamos de atingir um nível de desenvolvimento que não temos tido desde o auge da corrida espacial"

"O que está em jogo não é quem vence as próximas eleições, está em jogo se novos empregos e indústrias vão se estabelecer neste país ou em outro lugar"

"Temos de assumir a responsabilidade pelo nosso déficit e reformar nosso governo"

PRINCIPAIS DISCURSOS

20 de janeiro de 2009

Posse

Anuncia nova era e promete reconstruir EUA após grave crise financeira

5 de abril de 2009

Mensagem ao Islã

Na Turquia, pede nova relação com Islã

4 de junho de 2009

Parceria com islâmicos

No Egito, oferece aliança aos países contra extremistas

10 de dezembro de 2009

Nobel da Paz

Guerra, às vezes, é justificável

28 de janeiro de2010

Estado da União

Para muitos, mudança

prometida em campanha não foi rápida o suficiente

3 de março de 2010

Reforma da Saúde

Pede acordo a republicanos para aprovação de lei

3 de novembro de 2010

Derrota eleitoral

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Apela por paz política

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