O 'desafio definidor' de ajudar os pobres

Hoje, os EUA gastam muito mais dinheiro para amparar a classe média do que em programas que beneficiem a parcela mais necessitada da população; políticas que almejem aumento da mobilidade social devem focar nos menos favorecidos

FAREED, ZAKARIA, THE WASHINGTON POST , O Estado de S.Paulo

23 de dezembro de 2013 | 02h02

A desigualdade de renda será um "desafio definidor" de nosso tempo? O discurso do presidente Barack Obama de 4 de dezembro sobre o assunto produziu um debate animado, com alguns o apoiando e outros - em especial Ezra Klein do Washington Post - argumentando que o desemprego devia ser o foco principal.

Na verdade, o grande desafio do momento é a combinação de "uma falta de mobilidade ascendente" com desigualdade, disse Obama. Esta me parece a abordagem correta: como conseguir que as pessoas ascendam socialmente e com isso criar uma próspera classe média. Se, no processo, os rapazes do Google permanecerem ricos, tudo bem.

Quando as pessoas falam de desigualdade, hoje em dia, elas estão normalmente se referindo a três questões diferentes. Primeiro, a espantosa ascensão dos muito ricos. Segundo, os salários estagnados e as perspectivas minguantes da classe média americana. Terceiro, o grande número de pessoas no fundo do poço.

Estes são fenômenos diferentes. Os debates são muitos, e existem algumas boas pesquisas sobre se eles estão relacionados - se a ascensão dos ricos causou a estagnação da classe média e dos pobres. As evidências são conflitantes. Os super-ricos cresceram em todo o mundo, mas os EUA estão na frente de todos. Isso ocorre em razão de alguns fatores estruturais: a globalização e a tecnologia ajudam os superastros; mercados financeiros grandes e líquidos tornam os ricos mais ricos. Outros, são políticos: taxas de juros mais baixas e a influência política do setor financeiro.

Os EUA possuem os três fatores - inovação tecnológica, alcance global e enorme mercado de capitais, mas também há cortes de impostos, desregulação, um setor financeiro poderoso -, por isso não surpreende que tenham o maior aumento dos seus super-ricos.

Reviver a classe média é claramente o desafio mais importante, envolvendo a maioria das pessoas. Mas é também o mais difícil - começou há 40 anos - e para o qual se mostrou difícil encontrar uma solução duradoura. Há fortes evidências de que a desigualdade crescente está esvaziando a classe média. Mas há também uma história poderosa a ser contada sobre como tecnologia, globalização e declínio da educação e das habilidades americanas contribuíram para a estagnação salarial do trabalhador mediano.

Aumentar os impostos dos ricos criará uma classe média mais dinâmica? Talvez, mas não está claro exatamente como. Também vale notar que o regime fiscal dos EUA - baseado principalmente no imposto de renda - é mais progressista do que sistemas europeus, cujos impostos sobre a circulação de bens e mercadorias representam porcentagem muito maior de suas receitas. Nos EUA, 10% dos que recebem os maiores salários pagam cerca de 70% de todo o imposto de renda federal. Na cidade de Nova York, o 1% que mais recebe paga quase 45% do imposto de renda recolhido na cidade.

Alguns dizem que a verdadeira relação entre a ascensão dos ricos e o declínio da classe média é política. Os ricos se apoderaram do sistema político e o exploraram em benefício próprio. Também é verdade que - em razão do vasto papel do dinheiro na política - os ricos (e bem organizados) podem, com frequência, obter isenções fiscais específicas e alívio regulatório para ajudá-los.

Num sentido mais amplo, porém, veja o que ocorreu nos últimos dez anos nos EUA. O Medicare foi expandido dramaticamente, a assistência médica quase universal virou lei, a política energética foi alterada contra o desejo das grandes companhias, as alíquotas fiscais para os ricos se aproximaram do recorde em 30 anos e um programa de estímulo de quase US$ 1 trilhão para combater o desemprego foi aprovado. A Europa, com sua política mais igualitária, cortou gastos sociais em razão pior situação de desemprego desde a Grande Depressão. À primeira vista, esta não é uma forte evidência do poder político dos ricos dos EUA.

Dos três problemas, o mais fácil de resolver é o menos discutido: o destino dos pobres, que hoje somam 46 milhões. Como não tendem a votar nem fazer lobby, eles não têm merecido muita atenção desde os esforços de Lyndon Johnson nos anos 1960. O governo não dedica muita energia ou dinheiro a seus problemas, especialmente o de crianças depauperadas que sofrem com a desnutrição, a saúde precária e a educação ruim que obstruem suas chances de escapar da pobreza. Os recursos necessários para mudar isso seriam uma fração do que é gasto com a classe média neste país.

Não temos todas as respostas, mas se buscamos a política que provavelmente tenha o maior efeito no aumento da mobilidade social e na redução da desigualdade, devemos mudar nossa atenção dos ricos e da classe média para pobres esquecidos. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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