O desastre egípcio

Em Davos, o secretário de Estado John Kerry falou longamente sobre o Irã. Falou longamente sobre a Síria. Falou ainda mais longamente sobre Israel e palestinos. E não teve nada a dizer sobre o Egito. Foi uma omissão gritante. O Egito, lar de cerca de um quarto de todos os árabes e o fulcro da Primavera Árabe, vive uma situação catastrófica. A Praça Tahrir, emblema das esperanças da juventude e da mudança antiditatorial há três anos, hoje abriga egípcios em êxtase para um herói militar com os adornos de um novo faraó esmagar os "terroristas" da Irmandade Muçulmana.

Roger Cohen*, O Estado de S.Paulo

31 de janeiro de 2014 | 02h15

No entanto, num discurso dedicado a refutar o que chamou de "esse mito do desengajamento" - a noção de que os Estados Unidos, cansados de guerras, estão se retirando do Oriente Médio - Kerry silenciou sobre uma nação que é aliada dos americanos, que recebe cerca de US$ 1,3 bilhão por ano em ajuda militar (parcialmente suspensa), e hoje simboliza a destruição das esperanças americanas de uma ordem mais inclusiva, tolerante e democrática no Oriente Médio.

O silêncio foi revelador. O governo Obama esteve presente o tempo todo no Egito, aderindo por um breve período a Hosni Mubarak, depois apoiando sua deposição, depois se esforçando para estabelecer relações produtivas com a Irmandade Muçulmana e seu presidente democraticamente eleito, Mohamed Morsi, depois apoiando o golpe militar que depôs Morsi seis meses atrás (sem o chamar de golpe) e por fim argumentando, nas palavras de Kerry em agosto, que os militares chefiados pelo general Abdul-Fattah al-Sisi estavam "restaurando a democracia".

Essa "restauração" envolveu de fato uma feroz repressão à Irmandade, apontada como organização terrorista em 25 de dezembro e a qualquer um que não se curve diante de Sisi, cuja nova ordem brutal já deixou pelo menos mil mortos. Envolveu a rápida adoção de uma Constituição rascunhada por um comitê de 50 membros incluindo somente dois representantes de partidos islamistas, propiciando assim uma imagem espelhada dos problemas com o processo de elaboração constitucional dominado por islamistas no governo Morsi.

Este mês, a Constituição recebeu a aprovação de 98,1% dos eleitores, um número aberrante que lembra as "eleições" de Saddam Hussein. Aliás, 98,1% de meros 38,6% de egípcios votaram: a maioria dos egípcios se retraiu por medo (a Irmandade), desespero (a jovem geração Twitter que desencadeou a revolução da Praça Tahrir) ou apatia: inclusão, adeus.

O Egito é a ilustração mais vívida do desengajamento americano que Kerry tentou refutar. Os bilhões de dólares da Arábia Saudita e dos Emirados Árabes Unidos apostados em Sisi foram mais reveladores do que o magro bilhão dos EUA, ou seu treinamento de oficiais egípcios, ou suas expressões piedosas de apoiar uma oferta de direitos iguais do Egito para todos os cidadãos independentemente de gênero, fé, etnia ou filiação política. Os EUA observaram e acenaram enquanto a mais importante sociedade árabe perdia sua revolução para a familiar e árida justaposição de militares e islamistas (todos eles agora "terroristas" na ululação da multidão pró-Sisi).

Esse colapso egípcio é um fracasso estratégico significativo para os EUA. É como as linhas vermelhas que se revelaram não ser tão vermelhas na Síria,e enviou uma mensagem do recuo americano. Parece inevitável que Sisi agora concorra à presidência e vença com algum número aberrante de votos. Se ele não concorrer, quem o fizer será tão somente uma marionete sua.

David Kirkpatrick, meu colega no Cairo, disse tudo nessa brilhante e deprimente introdução: "Milhares de egípcios celebraram o terceiro aniversário de sua revolta contra a autocracia, no sábado, em um comício para o líder militar que depôs o primeiro presidente democraticamente eleito do país".

Mohamed Soltan, um estudante de 26 anos formado pela Ohio State University, cujo pai egípcio pertence à Irmandade Muçulmana, foi detido no Cairo em agosto e é uma vítima desse líder militar. Ele escreveu uma carta devastadora ao presidente Obama, recentemente publicada pela sua família. Soltan está numa "cela subterrânea abarrotada", sendo operado sem anestesia por ferimentos de tiro, por um médico que é um colega de cela usando alicate. Ele tenta imaginar se "hoje vai ser o dia em que a americanidade contará" e "as autoridades egípcias não terão escolha senão me tratar como um ser humano".

Soltan continua esperando. Assim como muitos egípcios que queriam avançar para uma sociedade mais aberta e não recuar para uma de incontáveis presos políticos. Eu estava no Cairo no início de janeiro. Na grande pirâmide em Gizé, não havia um único turista ocidental. Fiz um passeio de camelo por pena dos muitos donos de camelo cujos negócios estão parados. A indústria do turismo, que já foi um esteio econômico do país, está em frangalhos. Há muitos culpados no caso, mas eu atribuo a culpa principal aos liberais egípcios barulhentos que lutaram para derrubar Mubarak e não deram uma chance à democracia.

*Roger Cohen é colunista.

TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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