O desastre Mugabe

Zimbábue paga o preço de estar sob o comando de um dos líderes mais tirânicos, incompetentes e corruptos do mundo

Nicholas Kristof, The New York Times, O Estado de S.Paulo

12 de abril de 2010 | 00h00

Por que a África é pobre? Será por causa do legado da exploração colonial? Doenças tropicais e parasitas? Ou será que os mamíferos locais, a zebra e o elefante, eram de difícil domesticação para uso na agricultura?

Há certo grau de verdade em cada uma destas explicações. Mas uma visita ao Zimbábue destaca aquele que é provavelmente o motivo principal desta situação: o mau governo.

O tirânico, incompetente e corrupto regime do presidente do Zimbábue, Robert Mugabe, transformou um dos países mais avançados da África num desastre mortífero.

Num vilarejo localizado a menos de um dia de estrada de Victoria Falls, encontrei por acaso uma cabana que, a meu ver, era uma exemplo da desolação do país - mas também de sua esperança e capacidade de sobrevivência.

As únicas pessoas que moram na cabana são cinco crianças, órfãs de duas famílias. De idades entre 8 e 17 anos, as crianças passaram a morar juntas depois que os quatro pais morreram em decorrência da aids e outras causas. O homem da casa é o menino mais velho, Abel, um adolescente magricelo e eternamente sorridente. Ele está no comando desde os 15 anos.

Num outro momento, as duas famílias eram um exemplo da relativa prosperidade do Zimbábue. Uma das mães era empresária e viajava ao exterior com frequência. Um painel solar trazido por ela da Zâmbia jaz no pátio da casa. Um dos pais era técnico de time de futebol e deu ao seu filho o nome de Diego Maradona. Diego pode ter herdado parte do talento do pai, mas não tem bola de futebol e nem chuteiras - na verdade, não tem calçado nenhum. E aqui, assim como em boa parte do Zimbábue, um sistema de escolas e clínicas que já foi de impressionar entrou em virtual colapso, acompanhado pelo turismo, pela produção agrícola e pela própria economia.

O lar desperta todas as manhãs quando Abel se levanta às 4 horas da madrugada e caminha descalço por mais de 14 quilômetros até a escola do ensino médio mais próxima. Ele não possui relógio e precisa medir as horas por meio da posição do sol, sabendo que serão necessárias três horas para chegar à aula.

Abel e as outras crianças não têm dinheiro para pagar as tarifas escolares nem para comprar cadernos. Mas os professores permitem que eles assistam às aulas mesmo assim, pois são alunos brilhantes que obtêm notas exemplares. São um lembrete de que o talento é universal, apesar de a oportunidade não o ser.

Depois que Abel parte para a escola, a responsabilidade passa a Diego Maradona, de 11 anos. Ele acorda as três crianças mais novas, dá a elas um café da manhã a base de fubá - a sobra do jantar da noite anterior - e as leva a pé até a escola do ensino fundamental mais próxima, a poucos quilômetros de distância, frequentada por todos.

À tarde, quando Diego e os mais jovens voltam, eles apanham lenha, buscam água, cuidam das galinhas e ocasionalmente procuram plantas silvestres comestíveis. Abel volta perto das 19 horas e prepara mais um pouco de fubá para o jantar. Ele distribui ordens e carinho, cuida dos mais novos quando ficam doentes, conforta-os quando sentem falta dos pais, castiga-os quando se comportam mal, ajuda-os com o dever de casa, pede comida aos vizinhos, conserta o telhado rústico quando há goteiras, e comanda o lar com ternura e eficiência.

A meta de Abel é formar-se no ensino médio e tornar-se policial, pois o emprego lhe proporcionaria um salário estável para sustentar os irmãos.

Ele não sabe como fará para pagar as modestas despesas dos exames de formatura.

Perguntei a Abel qual era o seu sonho. "Uma bicicleta", foi a resposta. Com ela seria possível voltar da escola para casa mais rapidamente, e assim administrar melhor o lar.

"A vida era muito melhor quando eu era mais jovem", disse ele, um pouco tristonho. "De acordo com o que os meus pais costumavam contar, a vida era muito melhor sob o regime dos brancos. Havia mais alimentos e roupas e era possível comprar coisas." Mas Abel insistiu em mostrar-se otimista, acreditando que um dia a situação irá melhorar.

Às vezes, os ocidentais pensam que o problema da África é a falta de iniciativa ou trabalho duro. Ninguém pensaria algo do tipo depois de conversar com Abel e Diego Maradona - e com tantos outros zimbabuanos que demonstram inspiradora coragem e determinação.

Encontrei super-heróis zimbabuanos como Abel com frequência durante a semana que passei escondido no país trabalhando como repórter. (Mugabe tem o hábito de prender jornalistas, e assim pareceu melhor não anunciar minha presença.)

Pais sacrificam refeições para manter seus filhos em escolas arruinadas (um professor me mostrou os dois únicos livros didáticos de que dispunha para uma classe de 50 alunos). E um número cada vez maior de zimbabuanos tem enfrentado os crocodilos, o risco de afogamento e a violência para entrar ilegalmente na África do Sul em busca de trabalho.

A tragédia do Zimbábue não está em seu povo, e sim no seu líder. Igualmente, o fracasso da África é, acima de tudo, um fracasso da liderança.

É curioso que uma das maiores histórias de sucesso do continente, Botsuana, seja um país vizinho de um dos maiores fracassos do continente, Zimbábue.

A diferença está no fato de Botsuana ter sido administrada de maneira excepcionalmente competente e honesta por décadas, enquanto o Zimbábue era pilhado. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

É COLUNISTA E REPÓRTER ESPECIAL

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