O desencanto turco com a União Europeia

O pedido de ingresso no bloco teve uma recepção pouco calorosa e agora a Turquia, que tem a oportunidade de exercer influência regional, pesa os prós e os contras

É JORNALISTA, DAN, BILEFSKY, THE NEW YORK TIMES, É JORNALISTA, DAN, BILEFSKY, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

06 de dezembro de 2011 | 03h02

No momento em que o contágio econômico espalha-se pela União Europeia (UE), uma Turquia agora assertiva olha cada vez mais para o leste e não para o oeste, e faz uma pergunta incômoda: a Turquia não deveria rejeitar a Europa antes que a Europa rejeite a Turquia?

Quando o carismático primeiro-ministro turco, Recep Tayyip Erdogan, chegou pela primeira vez ao poder, em 2002, ele fez da entrada da Turquia na UE seu objetivo maior. Decidido a ancorar o país no Ocidente, o Partido Justiça e Desenvolvimento de Erdogan, uma agremiação de inspiração islâmica, enfrentou questões espinhosas como melhorar direitos de minorias e aliviar as restrições à liberdade de expressão para aproximar a Turquia das normas ocidentais.

O pedido da Turquia encontrou uma recepção pouco calorosa de muitos membros da união, em parte por causa da grande população (quase a totalidade) muçulmana do país. As negociações arrastaram-se eternamente sem jamais resultar em um caminho claro para a adesão.

Agora é a Turquia que azedou a ideia, segundo analistas no país. Com a Europa corroída por uma crise de crédito crescente e o tumulto da Primavera Árabe criando oportunidades para a Turquia exercer uma nova influência como potência regional, algumas pessoas no país estão considerando uma medida que seria impensável apenas alguns anos atrás: afastar-se em definitivo da UE.

"O premiê Erdogan queria ser o primeiro líder muçulmano a levar a Turquia para o Ocidente, mas após a Europa o haver traído, ele abandonou essas ambições", disse Erol Yarar, fundador de um grupo empresarial religiosamente conservador de 20 mil empresas próximo do chefe de governo. "Hoje, a UE não tem nenhuma influência sobre a Turquia, e a maioria dos turcos está se perguntando 'por que deveríamos fazer parte dessa bagunça?'"

Sanções. A política externa cada vez mais vigorosa da Turquia no Oriente Médio ficou em evidência na semana passada quando ela impôs duras sanções à Síria e fez preparativos para uma possível intervenção militar. E a Turquia tornou-se uma voz poderosa da indignação regional com o tratamento dispensado pelos israelenses aos palestinos, em especial desde que congelou seus laços com Israel por causa do ataque de um comando israelense a uma flotilha humanitária que havia partido da Turquia e rumava para Gaza.

Enquanto isso, autoridades turcas dizem que as relações com a UE atingiram uma situação de clara negligência, agravada pela perspectiva de Chipre assumir a presidência rotativa do bloco europeu no próximo ano. A Turquia está embrenhada numa disputa política intratável com Chipre desde 1974, quando invadiu a ilha para impedir uma proposta união com a Grécia e estabeleceu um governo rival na parte etnicamente turca de Chipre, que só ela reconhece.

Em Londres, no mês passado, o presidente turco, Abdullah Gul, desqualificou Chipre como "metade de um país" que chefiaria uma "união miserável", conforme noticiou o jornal turco Milliyet. Depois, quando a França deu o passo incomum, na semana passada, de propor que a Turquia fosse convidada a tomar parte numa reunião de chanceleres para discutir o a questão da Síria, Chipre vetou a ideia.

Um século atrás, o Império Otomano estava desmoronando. A Turquia recebeu então o triste epíteto de "doente da Europa". Agora, muitos turcos só podem se vangloriar da economia turca que está prevista para crescer a uma taxa de 7,5% neste ano enquanto a Europa está rateando. "Os que nos chamaram de 'doente' no passado, eles mesmos estão 'doentes' agora", disse recentemente o ministro turco da Economia, Zafer Caglayan. "Que Deus lhes conceda a recuperação."

Chipre. É quase certo que as conversações sobre o ingresso da Turquia, que fizeram poucos progressos em muitas áreas desde 2006, não farão nenhum progresso quando Chipre assumir a presidência rotativa do bloco em julho, pois o governo turco já disse que boicotará essa presidência, congelando efetivamente as negociações. Se as conversações ainda tiverem 2014 como prazo, disseram privadamente autoridades turcas, elas poderiam ser abandonadas.

A opinião pública na Turquia já vem mudando. Segundo sondagens do German Marshall Fund, 73% dos turcos viam a participação na UE como uma coisa boa em 2004, mas somente 38% pensavam assim em 2010. O ministro turco para assuntos da UE, Egemen Bagis, disse numa entrevista que seu país continuava comprometido com o ingresso na UE. Com sua força de trabalho jovem e dinâmica, grande mercado doméstico e crescente papel regional, disse ele, a Turquia seria um patrimônio maior do que nunca para o cambaleante bloco.

"Aguente, Europa, a Turquia está chegando para salvá-la", disse ele. Mas o meio empresarial turco, que durante muito tempo apoiou a integração, vem encontrando dificuldade para manter essa posição.

Yarar, o líder do grupo empresarial, possui a 404, uma companhia química, e a Lezzo, uma empresa alimentícia que fabrica o conhecido chá de maçã do país. Ele observou que os padrões comerciais da Turquia estavam mudando para o leste. Apesar de a Europa ainda ter comprado aproximadamente 56% das exportações turcas em 2010, cerca de 20% foram para o Oriente Médio, ante 12,5% em 2004. "Pode demorar dez anos, mas a Primavera Árabe tornará esses mercados ainda mais atrativos", disse.

As relações mais frias com Ancara estão custando à Europa uma influência no mundo árabe, onde a Turquia, um membro da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), com fronteiras com Irã, Iraque e Síria, está rapidamente se tornando um importante interlocutor para o Ocidente. Alguns analistas dizem que, pela primeira vez em décadas, a Europa precisa mais da Turquia que a Turquia da Europa.

Para os manifestantes nas ruas do Cairo, Trípoli ou Homs, Erdogan, um muçulmano devoto liderando um país próspero de 78 milhões de habitantes, é um símbolo poderoso da compatibilidade de democracia e Islã, enquanto a percebida hostilidade da Europa a residentes muçulmanos solapa sua influência na região.

Autoridades turcas de alto escalão dizem que o próprio Erdogan afastou-se da Europa e abraçou Washington, um desdobramento evidenciado pelo anúncio da Turquia de sanções contra a Síria. Enquanto Erdogan coordenava a questão em estreito entendimento com o presidente Barack Obama, a Europa jogava apenas um papel de apoio.

A redução da influência europeia na Turquia certamente também corrói a ambição do país de brilhar como um modelo de democracia para o mundo árabe. Defensores dos direitos humanos dizem que, sem a perspectiva do ingresso na UE para motivar a contenção, o viés autoritário do governo turco está crescendo sem limitações.

Um relatório da Comissão Europeia de novembro informa que há 64 jornalistas presos na Turquia, e um destacado grupo de mídia que criticou o partido governante foi penalizado com uma multa de US$ 2,5 bilhões.

Mas em Istambul, uma cidade eternamente cosmopolita, mesmo jovens ambiciosos e bem educados estão cansados da UE. Em um café fervilhante no lado ocidental do Bósforo, o estreito que corta a cidade e separa a Europa da Ásia, Tugce Erbad, de 19 anos, uma estudante de finanças internacionais, disse que sua geração de turcos não estava interessada em aderir a uma União Europa capenga. Mas afirmou que ela e suas amigas ainda eram mais atraídas pela Europa do que pelo mundo árabe.

"Prefiro ir a Paris do que a Beirute", disse ela, antes de acrescentar: "A Turquia não é nem leste nem oeste. Estamos seguindo nosso próprio rumo." / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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